|
|
Domingo, Abril 06, 2008
ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO
AS NOVAS HISTÓRIAS DO COMENDADOR BALTAZAR AGORA ESTÃO SENDO PUBLICADAS EM NOVO ENDEREÇO:
WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR
WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR.WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR.WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR
Mario Bourges 22:53 [+]
Sábado, Março 15, 2008
O tempo passa para todos, e descobrimos que assim que ele passa por nós deixa um rastro de desgaste em nossas vidas. Digo isto com muita propriedade, pois, é uma coisa que acontece de fato, e uma prova do que acabei de dizer relatarei agora. Veja você que dia desses fui convidado para ir a uma churrascaria e depois a uma pizzaria na companhia de uns velhos conhecidos. Até aí sem problemas, você deve estar pensando assim. No entanto, o convite era para que fossemos a estes lugares no mesmo dia.
Em princípio imaginei que isto não fosse possível de acontecer. Porém, ao longo desta incursão alimentícia pude comprovar minha teoria, ou seja, não era mesmo possível de acontecer... Ã... Porém, já estava tarde demais para tomar qualquer decisão contrária. E quando dei por mim já estava a mostrar meu lado mais animalesco em cima dos pratos e copos, que, aliás, estes não ficavam vazios por mais de dez segundos. Tenho de admitir que os garçons dos lugares eram bastante eficazes em suas atividades profissionais.
Falando nisso, lá pelas tantas um dos garçons resolveu colaborar com minha turma... Mas tenho a impressão que ele, este magnífico profissional dos copos e pratos e talheres, deu mais atenção para mim, pois minha condição não era das melhores. Poderia dizer que dentre a tamanha lambança desempenhada por todos que lá estavam, meu desempenho era o pior entre os piores. Veja que coisa mais absurda; no primeiro momento fomos à churrascaria e comemos e bebemos tudo bonitinho, sem muitos exageros. Poderia perfeitamente encerrar a noite naquela etapa, mas não. Tinha um sujeito que insistia sem parar para que fôssemos à pizzaria, aliás, sempre tem um sujeito insistindo para fazermos algo que não presta. Mas tudo bem, a cagada já estava a caminho de ser feita mesmo. Então deixei que tudo levasse à breca de vez.
Bom, deixe-me continuar com a narrativa; o foco, sem dúvida, estava na pizzaria. Lá que as coisas aconteceram de fato. Se bem que gostaria imensamente de não entrar em todos os detalhes do acontecido, mesmo por que não lembro de tudo mesmo. Só sei dizer que depois de fazermos aquela bagunça nos corredores, nas mesas e em todos os lugares do estabelecimento era momento de nos retirarmos de lá. Sorte nossa que o proprietário, um sujeito ligeiramente transtornado por alguma moléstia que obtivera ainda na infância era grande, bigodudo, com o olhar severo e profundo e, ainda, mal-encarado... Ah, sim, e paciente. Talvez seja por isso que ninguém tenha morrido. E caso ele não fosse paciente teríamos parado em alguma vala comum ou alguma cova rasa. Falando em cova rasa lembrei de um filme com este título. Sei que não tem nada haver com o que estou contando mas tudo bem, gostei do que assisti... Ã... Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim; saímos de lá falidos, pois gastamos o que tínhamos que o que não tínhamos. Alguém da turma penhorou o relógio na hora de fechar a conta. Tudo bem, o relógio não era o meu.
Sei dizer que a volta de lá foi, digamos, diferente. Dirigir era uma coisa rara, pois ninguém conseguia sequer ficar sobre os pés sem cambalear e rodopiar e zonzear. Assim sendo cada um de nós saiu da pizzaria direto, cada qual para sua casa, dentro de uma viatura do corpo de bombeiros. Duvida disto? Pergunte então para o comandante desta corporação. Se ficou zangado com nossas atitudes? Logicamente que não, pois ele foi o que mais comeu e bebeu e vomitou naquela pizzaria. Sem dúvida que a presença dele intimidou o proprietário do estabelecimento, caso contrário... Já disse o que poderia ter acontecido. Mas tudo bem. Ah, o dia seguinte foi de lascar. Eu estava tão cheio, mas tão cheio que meu corpo parecia uma pizza com a borda recheada. Azia? Se tive azia? Mas claro que sim. Aliás, nunca tomei tanto antiácido em toda a minha vida. Alguma pergunta mais? Não? Então chega de falar besteiras, vou deitar um pouquinho... Ainda estou enjoado.
Comer, comer e comer aos montes não é para qualquer um; isto é serviço para profissionais.
Mario Bourges 18:43 [+]
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Em uma tarde qualquer de calor escaldante único estava eu sentando num banco de praça enquanto observava as coisas acontecerem... Devagar, pois o calor estava insuportavelmente difícil de tolerar. Então eu, à sombra de uma bela e frondosa árvore, degustava uma saborosa cerveja. As pessoas passavam pela calçada e me olhavam com seus olhos de pedintes e morrendo de vontade de sentarem-se ao meu lado para dar uma bicada na minha cerveja. Eu, logicamente, nem dava bola para essa gente, pois simplesmente não gosto de sofrimentos.
Lá pelas tantas um sujeito com a cara engraçada e usando um chapéu não menos engraçado que seu rosto sentou-se no banco ao lado do meu. Bom, até aí sem problemas, afinal de contas, bancos de praças são feitos justamente para este fim, ou seja, sentar. Contudo, o talzinho não parava de olhar para mim. Provavelmente também queria um pouco da minha cerveja, pensei. Mas resolvi dar continuidade aos meus afazeres, que era de ficar tranqüilo no banco, observar os transeuntes que passavam com seus olhos estalados para mim, e claro, apreciar categoricamente minha cerveja.
O tempo se passou e meu vizinho de banco, cansado de me olhar, resolveu me importunar com sua tola curiosidade. Então falou e falou e falou, mas não respondi absolutamente nada, e isto se deu pelo fato de eu não ter entendido absolutamente nada. Quase tenho a certeza de que o infeliz falava em Iídiche para comigo... Ou talvez em Sânscrito... Sei lá. Bom, de uma coisa eu sei; aquilo tudo me cansou profundamente. No entanto fiquei por ali, mesmo sem entender, só para mostrar minha boa educação, e no primeiro momento que vi oportuno, momento este que foi um simples piscar de olhos, resolvi cair fora daquela chatice toda. A ladainha do sujeito havia me cansado por demais.
Corri o mais que pude para fugir da situação em que me encontrava, e rumei para qualquer lado, pois para mim tanto fazia a direção. Queria apenas sumir de perto do chato. E pensando desta maneira entrei na primeira porta aberta que vi, porta esta que era de um supermercado. Lá me deparei com uma infinidade de coisas interessantes como: televisores, refrigeradores e por aí vai, além, é claro, dos tradicionais produtos de mercado como: alimentos, produtos de limpeza e também, por aí vai. Mas vou contar sobre as coisas interessantes deste novo tipo de loja de departamentos que entrei.
Olhava eu para os grandes televisores a fim de me distrair um pouco com a programação exclusiva que era transmitida via antena parabólica, quando de repente as coisas que iam acontecendo ao meu redor se tornavam cada vez mais estranha aos meus olhos e ouvidos.
-- Muito boa tarde senhor! Gostaria de se assentar em algum sofá para melhor assistir ao televisor? Ah, caso queria algum acepipe para degustar, ou alguma bebida para acompanhar na sua diversão, assim que se decidir por posicionar-se confortavelmente diante do aparelho de tevê, esteja à vontade. No entanto peço, por obséquio, que nos ajude a melhor servi-lo respondendo algumas perguntas de um breve questionário. Disse-me assim um jovem atendente simpático e bem trajado do supermercado do qual eu acabara de entrar.
Coisa difícil de acontecer; tanto eu preencher um questionário elaborado por algum supermercado quanto ver funcionários desta estirpe, ou seja, polido e falando muito bem... Só em sonho isto é possível, pensei. No entanto...
-- O senhor quer que eu faço uma ficha para o senhor possa estar recendo em sua casa um cartão fidelidade de nosso mercado? Veje bem, a nível de vantagem, o senhor só ganha. Quer que eu faço, eu faço, não tem poblema nenhum. Disse-me assim uma baixinha e feiazinha enquanto ficava nas pontas dos pés, e ainda, a me olhar no fundo de meus olhos como que se quisesse ver quem era o morador por detrás daquele mar de pele esparramada e sobrando por todo o rosto. Pronto! O encanto acabou, continuei pensando sem me importar por tais palavras atiradas em mim desta maneira. Que foi que fiz? Oras, apenas o esperado; caí fora de lá quase que imediatamente. Só não saí imediatamente por que tinha de pegar meus sapatos que estavam embaixo de um sofá. Por que eles estavam embaixo de um sofá? Putz; você faz perguntas demasiadamente. Bom, estavam embaixo do sofá pelo fato de que eu tirei uns minutos de sono durante a falação de um apresentador de telejornal que passava no instante que havia entrado no tal do supermercado. Entrada esta decorrente do outro chato que estava na praça momentos antes.
Então, como o sol já havia se enfiado na terra não vi empecilho algum voltar às ruas, pois ser sapecado vivo enquanto caminha por aí é uma coisa pra lá de ruim. Mas acabei por desistir de rodar sem direção, fui é para casa. E assim que cheguei em casa corri para o sofá, estava cansado, queria relaxar e tirar meus sapatos para arejar os pés. Tanto eu quanto eles necessitávamos disto. A Olga não gostou muito do que fiz, pois o cheiro estava forte. Mas teve quem gostou; o cachorro, por exemplo. Lambeu meus dois pés até se cansar. Não sei o que dizer ao certo sobre isto, talvez seja estupidez, por lamber os pés de outro, mas também possa ser um ato de esperteza, pois isto deva ser gostoso de fazer... Um dia vou tentar lamber meus pés, se for gostoso continuarei a fazer, e se não for eu paro... É... É isso.
Aqui estava a baixinha e feiazinha a me perguntar parvoíces. Mas tudo bem, não costumo dar atenção aos parvos.
Mario Bourges 02:22 [+]
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Sempre buscamos novidades para nossas vidas, e algumas vezes as novidades nos tomam de surpresa, de chofre. Temos ciência de que quando, pelo menos na maioria das vezes, tais novidades nos surpreendem, coisas boas é que não são. Contundo, esta em particular, assombrou-me de tal maneira que quase fiquei sem ar... Ã, talvez tenha acontecido um pouco menos, pois quem me ouve falando desta maneira deve pensar que o acontecido fora do além, ou e o que é pior, que estou tornando-me num velho maricas.
Deixe-me partir para a história propriamente dita, pois se continuar assim, cheio de floreios, certamente chegarei a parte alguma de nada. E como bem me conheço, ficarei dando voltas e mais voltas até que toda a linha do meu pensamento se perca por completo. E daí, já era. Então, como ia dizendo... Ã... O que era mesmo? Ah, sim; o cachorro, aquele vira-lata sempre que pode faz cocô onde não deve. Aliás, ele só faz cocô onde não deve... Mas... Ah, lembrei agora, estava falando de surpresas e coisas e tal.
Pois bem, dia desses, após muito tempo sem ver coisas do tipo, vi a Olga, toda se esgueirando pelas paredes em movimentos maliciosos, piscadelas atrevidas, sorrisos indecentes e movimentos com as mãos pra lá de provocadores. Sem dúvida que ela queria algo a mais de mim. Então, ao longo da semana pude perceber algumas coisinhas diferentes acontecendo pela casa.
Segunda-feira:
As crianças (netos e sobrinhas - a irmã da sobrinha que já mora conosco) foram convidadas inesperadamente a passar uns dias na casa de praia da minha irmã. Este fato poderia ser algo normal, mas como sei que tanto minha irmã quanto meu cunhado são unhas-de-fome, deduzi que tinha coisas estranhas acontecendo. Outra coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha foi: mesmo com o tempo chuvoso o convite fora feito... Realmente a coisa estava estranha. De qualquer maneira tudo bem; queria mesmo ficar uns dias circulando pela casa mais à vontade.
Terça-feira:
Assim que acordei, talvez isto tivesse acontecido perto das 10h, percebi um pote virado e vazio ao lado do meu travesseiro. Estranho, pensei, por que teria um pote vazio do meu lado, continuei pensando. Contudo, assim que me pus sentado no colchão pude ver o real acontecido; muitos e muitos amendoins esparramados sobre e sob o lençol e o cobertor, e ainda, por dentro dos meus chinelos e por todo chão do quarto. Logicamente que no quarto eu não me encontrava sozinho, o cachorro tratava de comer os grãos espalhados pelo assoalho. Bom para ele, pensei. Depois me levantei, fiz o que tinha de fazer no sanitário, tomei um gostoso e demorado café, voltei ao sanitário, almocei, sanitário novamente, depois mais um pouco de sanitário, desta vez para espremer uns cravos do nariz. E para finalizar o expediente deste dia, fiz um lanche e depois mais um outro lanche, consecutivamente fui outras tantas vezes ao sanitário.
Quarta-feira:
Meu dia havia começado mais cedo, precisamente às 9h, e por esta extravagância fiquei entorpecido para o resto da quarta-feira. Em compensação comecei a ver coisas agradáveis e interessantes pela casa. Além de coisinhas gostosas para comer. Realmente a Olga sabe como me agradar... Falando em Olga, a partir deste dia começou a usar roupas mais provocantes... Cetins, sedas, saias curtas e coisas do gênero. E como já disse; a Olga sabe mesmo como me agradar. Porém, como havia acordado muito além do meu horário normal, estava exausto. Ainda mais depois de ter saído um pouco num boteco aqui perto do prédio onde moro.
Quinta-feira:
Quando acordei percebi que estava friozinho além de encontrar mais um pote de amendoim ao lado do meu travesseiro. Desta vez ainda estava cheio. Assim sendo, tratei de comer uns dois ou três punhados disto. Gosto de amendoins. Então comi mais uns dois ou três punhados destas sementes. Nisto acabei por derrubar um tanto delas pelo chão, e o cachorro logicamente não deixou para depois, comeu-os todos os que estavam espalhados dentro e fora dos meus chinelos. Bom, depois de comer o pote todo, em companhia do velho companheiro vira-latas, fui ao sanitário dar um trato no vaso, pois minha barriga estava até borbulhando. E então, depois, bem depois de ter estourado alguns azulejos do sanitário com minha concentração, vi a Olga vestida de couro e cetim desfilando pela casa... Realmente ela sabe mesmo como me deixar louco. Depois fui ao bar perto de casa, e lá me servi de algumas doses de catuaba para fortalecer o espírito.
Roupas elegantes, posições interessantes, sorrisos... hum!
Sexta-feira:
A semana foi passando e as coisas se tornavam mais interessantes e provocantes, pensei. Quando acordei, isso devia ser umas 9h30, vi a Olga debruçada sobre uma cômoda de roupas, revirando não sei o quê, enquanto usava uma camisa de cetim e uma saia que há tempos não usava. Agora o que mais me chamou a atenção foi, além de tudo isso, comidinhas estimulantes e roupas sensuais, foi ouvir Sally Oldfield cantando Mirrors ao fundo. Parecia sonho. Mas continuando; os olhares da Olga estavam me deixando doidão, no entanto me fiz de forte. Fiz o que tinha de fazer no sanitário, depois tomei meu café e fui para a rua. Dirigi-me ao boteco para tomar umas... Catuabas.
Na verdade não era um cômodo, mas... isto tanto faz também.
Sábado:
Dia fantástico, posso dizer. Às 10h fui acordado pela Olga trajando cetins e couros enquanto se rebolava toda para mim. Ovos de codorna, amendoins, Caracus e catuabas foram servidos numa bandeja de prata para mim ainda na cama. Confesso que comi e bebi pouco daquilo tudo naquele instante... Precisei ir ao sanitário; já estava me urinando. Tudo de manhã é mais complicado. Mas logo voltei também. Todas aquelas coisas ingeridas durante a semana haviam me aflorado um desejo incontrolável de agarrar minha senhora. Ô coisa boa.
Aqui as coisas começaram a incendiar.
Claro que não irei narrar todos os detalhes, mas posso garantir que nossas atividades sobre a cama, cadeira, sofá, outra cama, outra cadeira e mais outra cadeira, de volta para sofá, sanitário, mesa da cozinha, novamente ao sofá, outro sanitário, em cima da máquina de lavar roupa, depois rolando freneticamente até o sofá, de novo, e aí então, terminar na nossa cama. Ufa! Foi um trabalho dos bons que executamos. Do traje que ela vestia sobrou um botão da camisa enrolado em seus cabelos... Ah! Ainda sobrou um dos punhos da mesma camisa, por que o resto saiu voando aos pedaços para todos os lados. Até a saia de couro conseguimos rasgar em três partes. Que loucura! Quanto a mim; eu já estava praticamente pelado quando saí da cama na primeira vez, pois minha cueca estava com o elástico frouxo e a camiseta furada se desmanchou toda assim que me esforcei para sentar. O resto do dia foi para nós um tanto inútil, quer dizer, ainda brincamos mais uma vez. Logicamente que esta outra atividade foi menos selvagem, só quebramos o tampo da mesa da cozinha e dois vasos que estavam sem utilidade na sala.
Entre uma brincadeira e outra a Olga resolveu dar uma espairecida, desanuviar a mente e anuviar o ambiente... tudo bem.
Domingo:
Ficamos inertes o dia inteiro. Comemos e bebemos qualquer coisa. Depois ligamos o televisor, que ficou ligado passando uma porcaria qualquer enquanto um esfregava as costas do outro em um banho demorado cheio de piadinhas picantes. Enxugamos-nos carinhosamente, um com a toalha do outro; para mostrar que havia cumplicidade entre nós, e em seguida vestimos roupas adequadas de não fazer para não fazer nada, claro, acomodamos-nos no sofá um pouco bagunçado para comer um chocolatinho tranquilamente e ficamos esperando as crianças voltarem da praia, mas não sem antes fazermos corrida de mão boba pelo corpo um do outro. Definitivamente falando a semana passada realmente foi muito boa; a melhor deste ano até agora. Mas é isto, chega de saber de nossas vidas íntimas... Pelo menos por enquanto. Inclusive com direito a máscaras.
Logicamente que nem só de alegrias vive o homem. Depois de uma seção de total sensualidade e uma festa particular para levantar o ego o famigerado balde de água fria me foi atirado severamente; máscaras de Hipoglós, e toucas e espumas e uma porção de coisas que não sei dizer o que eram tomaram o lugar daquela Olga vestida com sedas, cetins, couros. Tudo bem. A roupa que mencionei que era para não fazer nada era esta daí. Mas não posso falar muito, pois nem com roupa feia costumo ficar quando estou em casa; fico pelado mesmo.
Mario Bourges 01:48 [+]
Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
O BALTAZAR EM DOIS TEMPOS: FINAL DE 2007 E INÍCIO DE 2008
Ao longo do ano vemos as pessoas reclamando sem parar de tudo; que isto está errado, que aquilo não é ou não está bom, que o negócio está estragado, que a vizinha feia é feia mesmo, e por aí segue. Contudo, quando chega a época das festividades de fim de ano tudo se modifica. Pessoas começam a se elogiar, mesmo se odiando verdadeiramente, passam a sorrir, coisa estranha de acontecer por terras curitibanas, principalmente nas épocas de inverno, ou qualquer frente fria que chega de maneira inesperada. E como isto acontece de quando em quando, as pessoas daqui não sorriem. Tirando é claro essas épocas em que o ano se finda.
E aproveitando o assunto que comecei tratar darei continuidade com alguns acontecimentos, porém, mudarei o enfoque, afinal de contas precisamos de um pouco de alegria também. Bom, estávamos nós sentados à mesa nos empanturrando feito mortos de fome com a ceia de Natal... Bom, na verdade quem realmente se atolava na ceia era apenas eu, pois a Olga estava sentada do meu lado e cuidando de uma criança que não me lembro agora de quem era filho. Mas tudo bem, esta parte de assunto é pouco relevante, no meu ponto de vista. Então... Ah! Estavam os netos, imóveis e olhando para o teto, a sobrinha se amarfanhando com um sujeito grande e estranho que mal conseguia dizer o próprio nome, a minha irmã com o marido, aquele arrogante e metido... À inglesa, por assim dizer... Ã... Ah, sim; e que por ironia da vida atualmente sofre de gases. Sabe que até vejo graça nisto. Minha filha também compareceu na tradicional reunião familiar. Logicamente que acompanhado do marido caloteiro que vive se metendo em encrencas, pois o sujeito é totalmente sem noção.
Olha, não sei se já mencionei isso, mas datas como Natal e Reveillon me causam agonia, por que as cidades tornam-se insuportáveis de tanta gente circulando feito um bando de baratas tontas; e o que é pior, vestidas com a fantasia da bondade, da confraternização e da amizade, quando querem, realmente, é desferir tapas umas nas outras. Ainda poderia citar uma outra coisa que me aborrece profundamente, preços altos dos produtos, sejam eles quais forem. Creio que se aproveitam do momento de bobeira da população neste período para se abusarem dos valores. No entanto, como resolvi tratar de outro assunto, assim farei, ainda que permaneça no mesmo tema, pois não quero me aborrecer com isto. Realmente falando, são justamente essas coisas, entre outras tantas, que me deixam emputecido nos finais de ano.
Mas... Do que falava eu mesmo? Oh, sim, claro, da ceia; usava eu roupas novas para a ocasião, e roupas que ganhei da Olga. O traje em questão, manchado na noite de 24 de dezembro com algumas bebidas, algumas comidas e algumas outras coisas, era formado pelas calças, camisa e um par de meias... Meias... Elas sempre aparecem como item de presente. Continuando; o traje que acabei de citar foi usado também no almoço de Natal, e com todas as manchas adquiridas na refeição inaugural. Contudo, tal situação não chegou a me assustar, pois sou acostumado com adornos alimentícios deste gênero pelas vestimentas. Quem costumava vir com escárnios para cima de mim sobre meus descuidos na hora de me alimentar era meu cunhado, mas depois que as flatulências dominaram sua pessoa ele se tornou mais, ou melhor, menos provocativo.
Então, à mesa, estávamos todos nós, falo do dia do Natal propriamente dito, e entre uma programação estúpida e outra que tevê nos apresentava, comíamos as coisas preparadas deliciosamente para a ocasião. Logicamente que tudo sem muita cerimônia, e ainda, cuidando para quebrar categoricamente todos os protocolos de etiqueta. Detalhe este piamente seguido pela criança, que fui descobrir mais tarde se tratar do neto da minha irmã. Mas, sobre os protocolos; sabe-se que são estas coisas que fazem as festas tornarem-se chatas. Agora tenho de dizer uma coisa: o encontro familiar fora bom, e o evento almoço chegou num clima de grande alegria... Todos que lá estavam trataram de se ocupar com seus próprios pratos em vez de se ocuparem com a vida alheia trazendo novidades desnecessárias ou comentários inúteis.
Enfim, o dia se passou e todos o aproveitaram da melhor maneira. Alguns amigos ligaram para mim a fim de desejar um bom Natal e tudo mais, muito embora nos os tenha atendido, pelo simples fato de que não gosto de telefones, e eles sabem disto. Portanto, se quiserem me ver terão de vir aqui em casa, ou contar com a sorte de me encontrar por aí, flanando pelas ruas, ou escorado em algum balcão de bar ou alguma mesa de algum café. Mas se quiserem vir aqui em casa neste momento poderão vir, mas terão de esperar também, pois estou contando com a boa vontade do peru, da maionese, do arroz e da farofa, ou o que sobrou disso tudo, despencar vaso sanitário a fora, pois essas comidinhas ainda estão encruadas na minha pança.
Esta era o neto da minha irmã, lambuzando-se com o que pôde e o que não pôde.
E aqui a família toda reunida; comendo, bebendo, peidando... e tudo mais.
FELIZ 2008
Após todas essas festas de fim de ano sem muito sentido já era tempo de começar tudo de novo. Ano novo, vida nova, problemas novos, risadas novas, piadas novas, enfim, tudo novo. Assim sendo estava eu sentado numa cadeira de praia tranquilamente à beira mar quando escutei alguém esgoelando para mim algumas palavras:
-- Baltazar, sai já daí! O sol está forte e, pelo que pude ver não está usando protetor solar. Gritou assim para mim este alguém que não pude identificar quem era por eu estar sem meus óculos de grau e sem meus óculos de sol, e falando em sol, eu estava recebendo sua luz diretamente em meus olhos, e isto me impedia de identificar quem gritava para mim... Ã... Parece-me que disse isso. Bom, que seja; mas voltando aos óculos, nem que os quisesse usar não poderia pelo fato de quando chegamos à praia a primeira coisa que fiz foi largá-los sei lá onde. Então, como não queria saber de nada nem de ninguém, tratei de fazer o que estava fazendo antes, ou seja, sentado na cadeira, olhando o mar e fazendo mais nada. Agora, falando em proteção; quem foi que disse que não estava protegido? Estava sim! Estava usando um chapéu cata-ovo que achei vagando numa caixa cheia de quinquilharias. É, foi isso mesmo.
Sabe, poderia fazer mil coisas naquela manhã de... De... Nem me lembro de qual dia aquela manhã pertencia. Poder fazer qualquer coisa eu poderia, mas preferi observar toda aquela paisagem marítima enquanto procurava me acomodar naquela incômoda cadeira. Então, lá pelas tantas, após sentir a brisa fresca soprando na minha cara, e olhar feito bobo as incessantes e incansáveis ondas estourando no raso, adormeci. E logo em seguida entrei num sono profundo com direito a sonhos e tudo mais. Daí por diante foi só alegria... Ou não; via ao longe um barco estranho navegando, chegava a ser engraçado até. Lá pelas tantas o barco veio se aproximando e se aproximando e aí percebi que se tratava de um barco viking. De repente um bando de gigantes louros pulou lá de dentro aos berros... Não! Isso, urravam sem parar. Todos armados, se bem que nem precisavam estar armados, pois eram grandes e fortes... Mas como gritavam. Eu já estava surdo de tanta gritaria. Gritavam para os que estavam na praia, que neste caso só tinha eu, depois gritavam uns para os outros e até para eles mesmos. Coisa de louco.
Na verdade não estava entendendo nada, e creio que nem eles estivem entendo alguma coisa, mas entender é uma das coisas que eles menos sabem na vida, vivem inventando lendas para criar uma possível razão para a deficiência que têm sobre entendimentos. Mas, deixe-me continuar; enquanto todos do bando gritavam sem parar para cima, para os lados, para baixo e para dentro de seus calções furados na bunda, um sujeito baixinho, barbudo, barrigudo, velho e com cara de louco, mais ainda que os loucos que gritavam sem parar saiu do barco, digo, pulou do barco, e caiu sobre os pés na areia, e com a cara de poucos amigos. Veio em minha direção mancando, e mancando por ter virado o pé na areia quando aterrissou do salto pouco elegante que deu.
Durante o trajeto que fez, trajeto este que por sinal foi muito mal escolhido, pois teve de desviar pedras e pequenos morros com a perna manca... Realmente o trajeto foi muito mal escolhido... Podia ter desviado dos morros por um caminho feito ao lado... Como é burro! Pensei. Então, durante sua horrível e vagarosa caminhada podia-se ouvir a música Frownland do extra maluco Captain Beefheart ao longe. E quando ele chegou perto de mim puder ver sua cara suada e carunchada, e o nariz imenso e imperfeito feito um morango torto, e ainda, cheio de cravos. Bom, depois ele pegou seu cachimbo babado e cutucou meu pé de plástico. Que estranho! Pensei novamente. Por que este idiota cutucaria meu pé deste jeito? Continuei pensando. E continuou cutucando e cutucando.
Depois que desistiu de cutucar meu pé resolveu cutucar minha perna. Foi aí que acordei, mas estranhamente vi um bando de gaivotas ao meu redor em vez dos gigantes vikings. Penso que tenha sido melhor assim, pois as gaivotas eu pude meter um ponta-pé nelas e pronto, tudo se resolveu, ao passo que com os vikings... Sei não. Ainda mais aqueles vikings gritantes, mais o baixinho carunchado e barrigudo e manco e suado... E aquele nariz... Imenso; cheio de cravos... Bleargh! Mas sabe, o problema de tudo isso foi descobrir que além das gaivotas tentarem me devorar a bicadas, foi sentir a ardência na pele por causa do sol. Provavelmente esta noite dormirei em pé besuntado com algum creme hidratante, talvez encostado em alguma parede, por que senão vai ser difícil. Contudo, o mais difícil vai ser agüentar a pessoa que me avisava para eu me cuidar. E tal pessoa, se não me falhe a memória auditiva, só podia ser a Olga. Só ela grita comigo daquele jeito. Mas tudo bem, agora é ter paciência e esperar que este estrago na pele não perpetue, senão serei alvo de chacota... E isto não quero ser.
Aqui os tais vikings gritavam e gritavam, por vezes miavam também. Não sei, talvez agissem desta maneira por causa da bebida... É, pode ser.
E este era o tal baixinho que me apareceu... Como era burro!
Mario Bourges 14:33 [+]
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Às vezes lembro com ternura da minha infância, das coisas que fazia para me divertir, das coisas que irritavam meus pais, meus familiares e a vizinhança de uma maneira geral. Sabe, era divertido correr ao redor das casas em dias de festa. Geralmente tinha muitas outras crianças correndo nas festas também, o que era bom, pois assim eu podia me juntar a elas. Realmente era muito divertido tudo aquilo. Com o tempo os movimentos desordenados, descoordenados, e até violentos, pela força que começava a brotar em meu corpo, fizeram com que meus amiguinhos da época das corridas em volta das casas deixassem de brincar comigo, suas mães alegavam que eu estava ficando muito violento para o restante do grupo.
Tive um desenvolvimento mais rápido que o normal para minha idade, muito embora minha linha de raciocínio continuasse a mesma porcaria, ou seja, brincar de correr, e correr em volta de casas... Ah, como eram bons aqueles tempos. Para minha alegria as outras crianças também começaram a crescer, logicamente que não na mesma proporção que eu, mas, enfim, cresceram. No entanto, eu continuava forte, pelo menos mais forte que as demais crianças... Forte e desengonçado, feito qualquer criança que cresce além e mais rápido que o normal.
Naquela época fui considerado uma bizarrice pelos moradores que compunham o visual pacato da rua onde morava. Todas as crianças daquela região, assim que seus pais souberam que um dia eu levei uma porção de meninas para baixo de uma casa para brincarmos de nem me lembro o que, não puderam mais brincar comigo. Aliás, ninguém mais podia brincar comigo. Eu me tornara uma ameaça para os bons costumes, mas isto segundo os olhos cafonas dos adultos daqueles ultrapassados anos corroídos pela pureza ignorante imposta à nossa sociedade. Contudo, as meninas nunca reclamaram das brincadeirinhas que eu inventei lá embaixo, no porão da casa que nem sei de quem era também... É... Já eram sinais de uma nova era.
O tempo passou, ainda bem, e com ele se foram os inocentes, ou nem tanto assim, anos da minha adorável infância atribulada. Digo atribulada pelo fato de que só me aquietava quando estava em estado febril. Coisa que era difícil de acontecer comigo por que vivia roubando laranjas, mexericas, limões, enfim, toda e qualquer fruta que fosse rica em vitamina C e que ficasse à mostra nos pés. Eu era o terror da vizinhança, o centro das atenções e o campeão de reclamações. Ninguém gostava de mim, nem meus pais. Mas isto são apenas detalhes, tolos e insignificantes detalhes.
Depois veio o tempo da pré-adolescência, em seguida da adolescência e finalmente da fase adulta... Que coisa mais chata. Ainda bem que logo fui para o quartel também. E lá fiquei por algumas dezenas de anos. Contudo, não tire conclusões apressadas, também não fiz muitos amigos por lá. Era um mundo hostil... Para qualquer um que chegasse perto de mim. Não gostava muito de pessoas me rodeando, me bajulando. Mas foi no quartel que me senti mais tranqüilo, quase não via as pessoas do mundo exterior, ou seja, aquelas consideradas normais. Com o tempo fiquei amigo do Azambuja, do Beleléu e de mais um que nunca soube do nome. Penso até que nem tinha nome aquele indivíduo. Mas está aí uma coisa que não faz a menor importância para mim; saber do nome de um sujeito que faz muito tempo que não o vejo... Besteira.
Em outro tempo conheci o Pereirinha... Bom, na verdade já o conhecia dos tempos de colégio, quando éramos crianças e coisa e tal, mas cada um foi fazer o que mais interessou, e aí a distância nos separou. Então, como havia começado a dizer, conheci novamente o Pereirinha, saíamos para dançar, digo, saíamos para vê-lo dançar, nunca gostei disto, apesar de já ter ganhado alguns concursos de bailado na caserna. Se bem que aquilo não conta. Só tinha maluco naquele lugar. Bom, mas isso é uma outra história, não compensa mencionar neste momento.
Um tempo depois, cansado de só ver homens, tanto no quartel quanto em qualquer lugar onde fosse, que por sinal eram lugares feios, sujos e indecentes, percebi que deveria conhecer alguém que pudesse enfeitar meus olhos, digo, meus olhares. Já estava cansado der ver tranqueiras. Sabe, existem épocas de nossas vidas em que devemos procurar coisas mais belas para se olhar, e assim poder admirar... Isto é tão bom. Então, num dado instante da vida, estava eu, perdido em lugares estranhos como: velórios, batizados, quermesses, jantares e chás beneficentes. Tudo para ver se encontrava alguém decente. Sorte minha que o esforço valeu à pena, e o melhor, nem precisei ficar muito tempo nesta parada onde a falsidade impera.
A Olga surgiu em minha vida quando eu, sentado certa vez numa banqueta ao lado de uma caixa de madeira cheia de ovos, sendo que seriam cozidos e preparados em algum prato gigante de maionese. Tudo bem, sempre gostei de maionese. E como foi que ela me conheceu? Sentou-se glamourosa ao meu lado enquanto eu, no meu total estado de quietude e tranqüilidade, dechavava sem dó e de maneira ininterrupta meu prato de maionese. Mas estranhamente ela gostou de mim, viu graça naquela cena grotesca. Vestida em sedas sorria vez por outra para minha pessoa. Quanto a mim, de cara para o prato, trajava, naquela época, uma camiseta furada nas costas junto com pequenas manchas de amora também nas costas, mas como vivia de casaco ninguém percebia estas particularidades.
As coisas aconteceram como tinham de acontecer, mesmo que ela sendo linda e se trajando e se portando de maneira aristocrática, acabou se rendendo aos meus estranhos encantos. Enfim, as coisas acontecem sem explicações, e quer saber de uma? Certas coisas nem precisam disto também, pois as explicações revelam segredos muitas vezes desnecessários ao bom entendimento. Se quisermos, podemos viver a vida inteira sem explicações. Seremos totais ignorantes, isto é certo, mas por outro lado seremos mais felizes, pois o encanto sobre todas as coisas continuará lá, envolvido numa aura mítica e... Mas o que é que estou falando? Droga! Acabou minha cerveja. Essas coisas sempre acontecem quando estou empolgado bebendo minha cerveja, ou meu vinho, ou meu uísque, ou minha vodca.
E cá estamos nós, sorrindo... E tudo mais.
Mario Bourges 16:57 [+]
Domingo, Novembro 11, 2007
COMO TEMPO É DINHEIRO RESOLVI EXPOR, LOGO DE UMA VEZ, O MOTIVO DESTA POSTAGEM. E JÁ QUE A ESTÓRIA JÁ FOI CONTADA ATRAVÉS DO CORREIO ELETRÔNICO, RESTOU APENAS O ESPAÇO PARA MOSTRAR A CAPA DO LIVRO.
Caso queira visualizar maior esta foto clique 35 vezes com o botão direito do mouse em cima da imagem e em seguida arraste-a para a pasta de sua preferência. Se não der certo, paciência. Afinal de contas você até que tentou fazer.
Mario Bourges 23:47 [+]
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Depois de muito tempo sem comer coisinhas boas, por que a Olga, de uma hora para outra, não me quis fazer mais, alegando aumento de colesterol e outras bobagens do gênero; aumento de colesterol, tanto o meu quanto o dela... Ã... Não me restou outra saída senão eu mesmo produzir algum quitute para saborear. Porém, é sabido que assim que fizesse teria de aumentar a receita, seja ela qual fosse, pois naturalmente que todos aqui de casa haveriam de comê-lo também, estando com o colesterol alto ou não. Assim sendo, pus-me a trabalhar em prol dos estômagos ansiosos por coisas gostosas para comer com chá no final de tarde.
Mestre cuca que sou, ou que almejo ser, coloquei um pomposo avental para evitar qualquer desastre com minhas vestimentas. No início, demorou um pouquinho até lembrar onde estavam as panelas, talheres e os ingredientes, detalhe este que só aumentou o prazer pela feitura do tal quitute. Um outro pequeno detalhe precisava ser acertado também; o que fazer para que todos saboreassem e me rendessem elogios. E após uns trinta minutos pensando sobre o que fazer uma panela estalou vazia sobre o fogão ardente em chamas... Ã... Um ligeiro descuido apenas. Deduzi que poderia ser por falta de uma boa música para embalar tal atividade.
Outros trinta minutos se passaram e um pano de prato ardeu em chamas enquanto o fogão também continuou ardendo em chamas... Bosta! Esqueci de desligar a porcaria do fogão, pensei. Tudo isso aconteceu e eu ainda sem saber o que tocar para me divertir. Foi aí que me decidi por ficar com o tal do Charles Aznavous. Mesmo por que era ele que acenava para mim no instante em que eu corria as gordas pálpebras e o nariz pelos discos empoeirados.
Lá pelas tantas percebi que tinha algo a me atrapalhar. Além do telefone que berra tinha a campainha frenética, histérica e impaciente a gritar com toda a força que seus diminutos pulmões eletrônicos permitem. Logicamente que tinha mais fatores para aumentar o nível das minhas atrapalhações; o Charles Aznavous era um desses outros fatores. Ouvir aquele disco não estava colaborando com a perfeita digestão da cerveja que decidi tomar.
Rina Ketty era a próxima da lista. Dois minutos depois o caos estava instaurado por todo o apartamento. O cachorro, aquele lambão de sempre, corria alegremente e tolamente atrás de uma maldita bolinha de borracha, a campainha não demonstrava sinais de fraqueza, o telefone... Bom, o telefone arranquei da parede só para mostrar quem é que mandava, e a dita Rina Ketty por pouco não foi arremessada janela a fora. Na seqüência Dulce Pontes manifestou interesse em tocar para mim, mas diante dos percalços surgidos no decorrer de pouquíssimo tempo optei por um tipo de música mais... Estilo Nick Cave entendeu? Ótimo, que bom que tenha entendido, pois não estou com paciência para reles explicações.
Resolvi então dar uma chance para o cachorro, dei um chute em sua bunda e mandei ele ficar quieto em algum canto qualquer. Depois fui atender a merda da porta e sua maldita campainha enquanto o sombrio Nick esbravejava Get Ready For Love. Sabe, penso que talvez não tenha sido uma boa idéia esta que tive. Obviamente que fui trocar de música; pus então o velho Tom Waits para acalmar os ânimos, ou para excitá-los de vez... Ah, sim, a campainha.
Dei uma colher de chá e fui atendê-la; era a Olga, e com cara de poucos amigos... Sair por aí enche o saco mesmo, pensei. E com este pensamento me dirigi até a cozinha, havia me decidido por tomar um chá preto com um pouco de leite e umas bolachinhas. Mas sabe, creio que o errado tende sempre acontecer comigo, pois não há de ver que, de repente, uma panela de pressão sem tampa e com um furo de derretimento no fundo fora encontrada no fogão... E o fogão? Já não estava mais ardendo em chamas. Havia acabado o gás. Que pena! Justo naquele momento que tinha juntado forças para começar com a peleja alimentícia. Mas fazer o quê! Paciência.
Quanto a Olga, assim que viu meu esforço para a contribuição do mal-estar do meio-ambiente lascou-me um pano molhado nas pernas. Admiro esta mulher, pois ela sempre tem um jeitinho todo especial para me lembrar de que não devo me aproximar das coisas quando o meu conhecimento sobre elas é pouco ou praticamente nulo. Então, com as pernas doídas e ligeiramente contrariado sobre todas as coisas, fui para rua gritar... De raiva, ou de dor, ou sei lá do que.
Quando vou para a cozinha até as panelas se escondem de mim, pois sabem que coisa boa não vai acontecer.
Mario Bourges 00:33 [+]
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Perdido estava eu caminhando por algumas vielas e cidadelas quando tropecei nuns pedregulhos. Ralei os joelhos e cotovelos e tudo mais. Fui amparado por moradores, ou escondidos, como queiram chamar, pois, pessoas que vivem socadas em becos e buracos não sei se são consideradas moradoras ou escondidas... Se bem que... Tanto faz. Não faz a menor diferença saber em que classe pertence tais pessoas. Mas voltando ao assunto principal; tinha passado uma tarde agradável com alguns desconhecidos num café no centro da cidade. Uma tarde levemente fria e com chuviscos, tipicamente curitibana, boa para se tomar um café ou um chá com leite.
Papo vem, papo foi até que tudo aquilo encheu o saco. Caso que era dado o momento para cair fora de lá antes que me aborrecesse e começasse a xingar todos que lá estavam. Sabe como são os velhos conversando; começam com um papo à toa, depois passam para a política, futebol, mulheres... Do tempo que faziam alguma coisa de fato, depois terminam se xingando, pois, logo após uma longa conversa nada muito produtiva, todas aquelas palavras largadas nas mesas e nos cantos do recinto não têm mais nada que se fazer além de baixarias.
Bom, depois que cai fora do tal café tratei de ir embora, já estava cansado, quase sem forças, um trapo por assim dizer. Então entrei no ônibus e esperei com que meu ponto chegasse o quanto antes. Por sorte, e quase que por milagre encontrei um lugar para sentar, aliás, existiam vários lugares vagos, coisa esta difícil de acontecer. Mas procurei o melhor lugar para mim, um lugar que tivesse uma boa vista da condução e ao mesmo tempo das ruas. Como estava cansado, lá pelas tantas adormeci de tanto olhar as coisas passarem do lado de fora. E adormeci sabendo que poderia acontecer algo de errado. Na verdade creio que desde o momento que entrei no ônibus já tinha algo de errado; nunca vi aquele motorista, muitos lugares vazios, tudo tranqüilo... Mas tudo bem.
Quase duas horas se passaram e eu ainda estava lá... Estranho; em tempos normais já teria levado uma chamada do motorista, pois teria chego ao final da linha. Foi aí que constatei que estava passando por uns lugares que jamais havia passado antes. Se bem que qualquer lugar para mim pode soar como novo ou estranho, mas aquilo já era demais. Parecia não ter mais fim. Assustado e ligeiramente babado apertei a campainha e me larguei pra fora, queria saber onde estava. Mas veja só quantos pensamentos passam em nossas cabeças em horas como estas. Poderia ter perguntado para o próprio motorista, ou para o cobrador que estava dormindo num dos bancos vagos.
Tudo bem, já era tarde para isso mesmo. Então resolvi caminhar até encontrar alguém para me informar de qualquer coisa. Incrível como as horas passaram rápido naquela tarde, já era noite, e pelo que pude perceber já era tarde também. Tudo para complicar com minha vida. Há esta altura dos fatos o pessoal de casa já devia estar louco à minha procura... Ou não. Um tanto de tempo depois encontrei um sujeito seminu se lavando na beirada de um riacho. Quando cheguei mais perto para pedir informações o tal sujeito assustado com minha presença se atirou na água e saiu nadando sei lá para onde. Não pude ver, estava escuro.
Então percebi que tinha me ferrado mesmo. O lugar onde eu estava parecia o fim do mundo, um meio de mato qualquer. Só não era desabitado por que ainda se via, muito ao longe, pequenas casas com suas luzezinhas fracas acesas. Telefone não haveria de ter, pensei. Estava perdido, continuei pensando. Contudo, lá pelas tantas alguém surgiu das trevas, pois não tinha poste de luz algum pela redondeza, e perguntou o que eu fazia por aquelas paragens. E eu, do alto da minha sabedoria respondi que não sabia e que não fazia a menor idéia de que lugar era aquele. Depois disso este alguém me conduziu até sua casa, ou esconderijo, sei lá. Convivi com esses tipos por alguns dias, semanas, ou meses, não sei bem ao certo quanto tempo fiquei lá. Só sei que assim que o dito ônibus apareceu por lá eu tratei de me enfiar nele e ficar bem acordado para não passar da Rui Barbosa. Senão, sei lá para que lado poderia eu seguir desta vez.
Assim que cheguei em casa percebi o quanto minha barba tinha crescido. Parecia até com aquele velho safado do Noel. Logicamente que antes de eu poder sentar e descansar e tomar uma cervejinha e soltar um arrotinho e dar aquela mijadinha tive de me explicar para a Olga, as crianças, o Pereirinha, que estava de cabeça para baixo e se balançando no lustre, o Azambuja arrastando cadeiras e sei lá mais o que, e o Adalberto, que havia perdido, ou melhor, quebrado seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves. No entanto, continuava ouvindo suas músicas, agora através de um aparelho de MP4... Modernizou... Tudo bem, faz parte. Já o Corpo de Bombeiros, as polícias Federal, Civil, Militar e a Interpol, as ambulâncias e o Esquadrão Ultra enfiaram suas violas nos seus devidos sacos e foram embora. Simples assim. Daí, em seguida, tomei um banhozinho e me arremessei na cama. Precisava dormir gostoso depois desta aventura besta. Dias depois precisava fazer algo interessante, então resolvi escrever um livro com um montão de besteiras escritas nele. É só.
Mario Bourges 01:53 [+]
Sexta-feira, Julho 27, 2007
Sentado em uma mesa de um café qualquer, tomando chá com leite e comendo uma fatia de uma torta qualquer estava eu, ouvindo a música Get Me Out dos britânicos do New Model Army e imaginando... Bobagens talvez, quando comecei a ver bizarrices pelas ruas da cidade. Bom, pelo menos na rua que passava em frente ao café... Se bem que, a coisa toda chegou a níveis alarmantes de domínio, tomou conta de toda a cidade; veja você que, enquanto triturava um pedaço de noz, ou sei lá que fruto era aquele que encontrei na torta, Toninhos e mais Toninhos da extinta Renovar passeavam pelas calçadas gritando: “Isso sim é Renovaar!”. Tal coisa me cheirou maluquice da parte de alguém, mas em princípio não dei muita atenção ao fato. Assim sendo, enfiei mais uma garfada desta torta, que não sabia de que sabor era, na boca.
Minutos mais tarde, durante uma tentativa frustrada de tirar resíduos da tal noz, ou seja lá o que fosse aquilo dos dentes, um caminhão do Lixo que não é Lixo passou anunciando aos berros que na Boca Maldita aconteceria uma apresentação espetacular da Família Folha. A partir daí passei a ver pessoas desfilando com cara de folha em vários lugares, e neste exato momento cuspi aquela maçaroca de nozes com ameixa ou tomate no chão do café, e fui até a porta do estabelecimento para conferir de perto o que meus olhos embaçados registraram estupefatos.
Contudo, quando consegui me levantar da cadeira resolvi, antes de executar a ação planejada, olhar ao meu redor, só por curiosidade, mas confesso que fiquei tremendamente assustado quando vi a clientela do recinto formada por vários oils mans. Todos dentro daquelas sungas de cores cítricas, porém, em diferentes tonalidades, mas claro, totalmente ridículas. Logicamente que todos estes seres estavam a me olhar e a cantar músicas do Elvis Presley. Apressei-me em pagar minha conta. Queria sair o mais rápido possível daquele ambiente ligeiramente doentio. Mas veja como são as coisas, pisar na merda sem escorregar nela não é tão emocionante, e comigo a coisa soou da maneira mais emocionante ainda. Quando me dirigi ao caixa dei de cara com o Inri Cristo fazendo a cobrança das contas. O que foi que fiz? Larguei o dinheiro no balcão com os dez por cento do garçom mais o dízimo para a paróquia e saí correndo.
Corri pelas ruas até não agüentar mais... Bom, pelo menos penso que corri, pois meu pé de plástico não me permite grandes movimentações além das caminhadas trôpegas por estas calçadas tortuosas que mais parecem os pensamentos da Maria Louca. E por falar nela, avistei mais de uma dúzia dela fazendo arrastão na Praça Osório e agarrando tudo quanto era gente fardada que passava por lá. Imediatamente tratei de mudar de rumo, dirigi-me para o lado da catedral. Lá eu peguei a saída da missa e suas dezenas de beatas com cara de sino badalando desvairadamente.
De repente tropecei em alguma coisa, e só tropecei pelo fato de correr, ou pelo menos tentar correr sem olhar para o caminho que segue. Onde tropecei? Em um dos pés daquele ser gigante, pavoroso e pelado que fica na Praça 19 de Dezembro. Refeito do tombo, mas avariado, cheio de escoriações e em piores condições daquelas que já estava, peguei uma rua qualquer e segui em frente. Um pouco mais adiante resolvi dobrar numa outra rua, pois já estava tempo demais caminhando na mesma direção. Lá pelas tantas estava eu diante daquele estranho tripé formado por um cemitério, uma pista de skate e um bar. Agora, diante destas opções só uma realmente era de meu agrado... Não! Claro que não era o cemitério! Era o bar, puxa vida! Quanta demora para entender meus gostos heim. Mas, tudo bem, já estou acostumado com ignorantes.
O bar era o Bar do Pudim, sem problemas até aí, o dono do estabelecimento tinha a aparência de um... Pudim, claro. Claro: veja; a esta altura dos fatos nada mais me assustava mais do que a famigerada Loira Fantasma, entidade esta que assustava taxistas no final da década de 70, e que, por sinal, compunha toda a clientela do boteco naquele momento. Que fiz eu? Borrei-me todo por certo. Que fiz eu depois? Saímos todos às pressas de lá, ou seja, eu, minha barriga, meu pé de plástico, meu cérebro embebido no formol e meu chapéu. E para onde fomos todos? Oras, rolamos eu e todos os meus apêndices rua abaixo até chegarmos perto do Largo da Ordem. Caminhei um pouco mais e lá me deparei com o Odil e seu Ao Distinto Cavalheiro e a turma toda em grande festa bem no meio do Largo ao som da música Maple Leaf Rag, um ragtime de primeira de Scott Joplin. E para completar a maluquice daquele instante, aquela horrível cabeça de cavalo que vomita água a me dizer: "vai mijar Baltazar, vai mijar Baltazar". Não sou especialista no assunto, mas comecei a crer que aquilo era um caso de... Histeria, talvez... Sei lá.
A coisa toda estava uma loucura. Uma situação incontrolável e tenebrosa. Tentava eu fugir de todas aquelas aparições, mas meus esforços eram inúteis. E após caminhar quadras e mais quadras em passadas alucinantes e desiguais me deparei, por mais uma vez, com o caminhão do Lixo que não é Lixo perto do Teatro Guairá tocando aquele sino idiota enquanto fazia seu percurso. Claro que a porra da Família Folha estava lá, sorrindo, com os sorrisos estúpidos que só as folhas sabem dar, e mais, defecando folhas de eucalipto. Enquanto todo devaneio, digo, pesadelo acontecia, tanto o Vampiro quanto a Polaquinha se esgueiravam pelos arbustos existentes no lado do teatro, e, em movimentos sincronizados e animalescos faziam um sexo pra lá de sanguinolento. O mais interessante, ou, o mais absurdo que essas coisas pudessem representar, ainda não se comparava com a frase que invariavelmente diziam para mim. Frase esta que era: "vai mijar Baltazar". Logicamente que considerei todas essas bobagens em bobagens puras, claro.
Então, quando tudo parecia fora de controle a coisa piorou de vez, e entre as armas de guerra da Praça do Expedicionário uma multidão de nós cegos, de orelhas-secas, de orelhas-moles, de Zé-orelhas e de bocas-de-burros gritavam, no maior clima apoteótico a seguinte frase: "vai mijar Baltazar". E depois destes incentivos não deu outra, parei de frente para a Praça Zacarias, isto depois de ter escorregado de bunda até lá, logicamente, e passei a urinar. E a urinar com todo o gosto ainda por cima.
Os rios da cidade tornaram-se caudalosos a partir daí. O Rio Ivo, fétido como sempre, continuou fétido depois do que fiz. Contudo, ficou mais volumoso, bonito até. Seu volume transpassou todas as barreiras impostas a ele. Inundou todo o centro da cidade... Curitiba parecia uma Veneza; não que isto seja alguma novidade... Mas; o Rio Belém teve seu volume triplicado, as favelas que ficam às margens deste rio desapareceram. Fui ovacionado. A elite municipal me aclamou herói. Um busto foi erguido em minha homenagem... Louros... Bom, quanto ao Rio Barigüi... Este sim, virou a vedete da cidade. Surgiram, em suas plácidas águas, ondas com mais de quinze metros. E nessas ondas gigantes a família de jacarés que habita o parque aproveitou as ondas para pegar jacaré... Ã... Houve até campeonato de surfe neste momento. Foi o maior sucesso.
Porém, em casa a história tomou um rumo diferente e alcançou níveis alarmantes de gritaria. Enquanto eu dava minhas braçadas espetaculares num magnífico nado estilo borboleta, a Olga se arremessava da cama para não morrer afogada pelos lençóis empapados que se transformavam categoricamente em ondas sacolejantes, típicas das marolas de alto-mar. Digo que até o Corpo de Bombeiros fora chamado para conter a inundação. Já o pessoal de casa, que tentava recobrar suas lembranças quase varridas de suas memórias, a Olga, minha senhora, preparava naquele momento um delicioso chinelo de borracha para minhas pernas... Mas isto é uma outra história.
Uma tarde tomando cerveja... que maravilha! Assim foi minha tarde.
Sucos também tomei, mas já começava a sentir um frio nos pés. Talvez fosse pela umidade do tempo. Afinal, caiu muita chuva por estes últimos dias.
A noite, antes de dormir, e por incrível que pareça, tomei um longo e relaxante banho.
E continuei no banho por mais alguns minutos. Bom, sei que após reclamações eu desliguei o chuveiro e fui dormir, um tanto enrugado até, mas tudo bem.
E sabe que depois que sonhei toda aquela maluquice pelas ruas e locais da cidade vi os familiares daquela empresa de chá dizendo sabe o que? Não! Não é: vai mijar Baltazar, e sim; vai tomar chá Baltazar. Engraçado isto não é? É, talvez seja.
Bom, depois de tudo que tomei, mais o relaxante banho não deu outra; alaguei tudo. Mijei, e mijei mesmo por sei lá quanto tempo. Ao final fiquei com as pernas inchadas pois a Olga me chinelou algumas dúzias de vezes. Mas tudo bem, pelo menos fiz meu xixizinho na buena.
Mario Bourges 16:59 [+]
Terça-feira, Julho 17, 2007
Nestes de tempos de calor errado estava eu assistindo tevê enquanto cortava e desencravava as unhas dos pés. Para me alegrar, ou pelo menos me incentivar nesta atividade nada agradável, deixei uma lata de cerveja parada diante de mim. Logicamente que fiz todo o trabalho sem tomar um único gole sequer, pois na última vez que resolvi beber e cortar as unhas dos pões não foi uma boa idéia; quase arranquei minha pele e por pouco não decepei meus dedos. E tudo isso por falta de habilidade com o cortador. Aliás, falta-me habilidade para lidar com qualquer coisa cortante... Até com aparelho de barbear eu me destruo.
Bom, o televisor estava ligado, mas eu não assistia nada também; primeiro por que não tem nada de bom para se ver, e segundo por que é um tanto perigoso para mim, tentar fazer duas ou mais atividades ao mesmo tempo quando estou de posse de algo cortante. Então, lá pelas tantas, depois de parecer que o mundo entrava realmente em harmonia para com a minha pessoa, sussurros da Olga surgiam sorrateiramente e com intenções marotas a ponto de tirar minha concentração. Se bem que para isto nem requer muita coisa. Mas... De quando em quando sentia sua língua fazendo uma varredura completa nas paredes mal arquitetadas de minhas orelhas. Calafrios percorriam pelo meu corpo estonteantemente. Sentidos estes que começavam nas minhas sobrancelhas esvoaçantes e escorregavam vertiginosamente até os poucos e zombeteiros pêlos que se esparramam irrisoriamente sobre os peitos horrendos dos meus pés brancos e chatos. Veja; na verdade apenas sobre um peito de pé, pois o outro é de plástico, sendo assim, não tem pêlos.
Então, sentindo-me dominado por uma sensação bestialmente incontrolável comecei a rebolar, digo, retorcer como se fosse uma lesma que cai inadvertidamente sobre um punhado de sal. A irracionalidade tomou conta da minha mente. Eu não respondia por mim... Bem; nunca respondi por mim mesmo, mas tudo bem, e após ficar em êxtase por duas ou três vezes, mais o ato de arrepiar e melar, consegui dominar meus sentimentos animalescos que brotaram em forma de peidos. Com isso pude sentir meu cérebro funcionando novamente. Que estranho, pensei, o que acabara de sentir fora, sem sombra de dúvida, algo único, e que me fizera levitar por alguns milionésimos de segundo, continuei pensando. Mas depois tudo parou de repente. Como se nada tivesse acontecido.
Depois de uns trinta ou quarenta minutos em um ritmo frenético de conflitos percebi que estava na mesma posição de quando me sentei para cortar as unhas. Porém, sem ao menos ter começado efetivamente a podar os cascos que contornam os horripilantes dedos dos meus famigerados pés. Daí resolvi olhar para os lados e procurar minha senhora, havia uma gostosinha sensação de... Sei lá o que no ar. Isto me fez sentir que algo de bom poderia acontecer a qualquer momento. Não encontrei a Olga do meu lado depois disto, em compensação encontrei uma trilha de pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Vocês sabem que não gosto de flores, mas que se danem as tais pétalas caminhei por cima de todas elas até esfarelarem por completo. Quanto à unha, decidi-me abandonar esta idéia absurda. Mesmo por que, há qualquer momento eu posso fazer esta atividade de cortar unhas. Tenho tempo de sobra.
Aqui a Olga me observava enquanto eu tinha meus excessos e acessos de loucura... Tudo por causa de umas lambidas no ouvido.
Mario Bourges 13:55 [+]
Segunda-feira, Junho 04, 2007
Dia desses resolvemos sair em bando, feito jovens que saem em grupo para bagunçar, gritar, criar encrencas e tal. Logicamente que não faríamos bagunça, pois não conseguimos bagunçar, nem gritar, pois nossas cordas vocais já não são mais as mesmas de antigamente, quando podíamos, além de gritar, urrar, uivar, chiar, xingar e falar em voz alta, se assim quiséssemos. Agora, quanto ao fato de criar encrencas... Nem pensar. Não teríamos a menor condição de nos expor a situações de risco. Mesmo por que qualquer coisa que fuja de nossos alcances, tanto físico quanto mental, já pode ser considerada uma encrenca.
Então estávamos nós; eu mancando com meu pé de plástico e praguejando contra todos que viessem a cruzar minha frente, o Pereirinha com seus saltos mortais, saltos estes que nem posso olhar muito para não me causar vertigens, o Azambuja com suas esquisitices pra lá de manjadas, o Adalberto com sua surdez em desenvolvimento, pelo fato de viver com o ouvido grudado naquele rádio do ondas longas, ondas, médias, ondas curtas e almost waves, o sujeito que nem sei o nome e também nem faço questão de descobrir, pois isto para mim tanto faz, fazendo o que sempre faz quando está em nossa companhia, ou seja, alisando os poucos fios de cabelo com um minúsculo pente de cabelo de boneca. E para completar o time dos destrambelhados, o Beleléu com manias de apostas inúteis e estúpidas, além das jogatinas indesejadas.
E enquanto caminhávamos trôpegos pelas calçadas tortuosas e pelos asfaltos esburacados ouvíamos muitas e muitas músicas. Bom, pelo menos até o momento que o Adalberto enfiou o pé direito num buraco e o esquerdo derrapou para o lado. O resultado disto nem poderia ser diferente, perdemos nossa fonte musical, claro. Então o rádio mais o Great Lake Swimmers que estava tocando e o Adalberto se foram numa viagem vertiginosa até o chão, e foi um para cada lado. Sendo que nosso companheiro ainda teve sorte, se espatifou na calçada, já o rádio foi soltar seus cacos lá no asfalto, o conjunto que mencionei naquela hora também parou de tocar, e as pilhas... Ah, estas estampavam a liberdade em suas faces metálicas; apostaram uma corrida frenética até o primeiro bueiro que encontraram. Depois deste pequeno acidente nossa distração também se foi. Tudo bem, não estava mesmo com vontade de ouvir músicas.
Poderíamos, digo, o Pereirinha poderia ajudar o Adalberto a evitar o tombo, mas no fatídico momento ele estava interessado nas bundas que passavam por nós. Para dizer a verdade eu fui o único que conseguiu ver o desastre, pois todos os outros estavam acompanhando as bundas com seus olhos embotados, perdidos e empapuçados. E como todos estavam ocupados não quis atrapalhá-los. Se ajudei o homem a levantar do chão? Ora, qual nada! Minha hérnia de disco e meu nervo ciático não permitiram tal façanha. E por que os outros não o ajudaram a levantar? Pelo fato de que ainda estavam ocupados. Sendo assim, desta maneira, Adalberto se levantou sozinho e com muito custo.
Após o heróico e compenetrado esforço nosso amigo estava sobre seus pés... Finalmente. Chateou-se, pois seu adorável rádio havia se estatelado, junto com ele, pelo chão. Não tinha muito o que fazer naquele instante. Então ficamos em silêncio por algum tempo e decidimos que seria melhor voltarmos cada um para suas casas. Estava frio, o vento soprava forte e já estava para anoitecer, e como nesses últimos dias não estou enxergando muito bem por causa de uma conjuntivite preferi ir embora. Quanto ao Adalberto; deixamo-lo em casa, todo ralado, esfolado, rasgado, injuriado e acabrunhado, e ainda, sem o rádio. Bom, na verdade ele até foi junto, porém, nas condições que ficou não sei o que pode ser feito para melhorar... O ânimo do nosso amigo. Preciso dar um jeito de consertar este rádio o quanto antes. Sabe, gosto quando este aparelho passa uns dias comigo lá em casa. Fica tudo mais animado, ou menos chato, sei lá... Ah, tanto faz também.
Aqui a vitalidade de nosso grupo era motivo de inveja. Sempre unido para fazer qualquer tipo de coisa. Atualmente ele ainda continua unido, mas para: dores reumáticas, bursites e qualquer outra espécie de "ite", hérnias em geral, pressão arterial e problemas estomacais, e para qualquer outro probleminha que venha acontecer de fato ou psicológico.
Mario Bourges 14:00 [+]
Quinta-feira, Maio 24, 2007
Estava a observar o céu nublado com um ar infantil no rosto. Aquele tipo de coisa era o que eu ansiava por um bom tempo. Decididamente não gosto de olhar o céu sempre azul, com aquela cara de paisagem de aprendiz de pintor de aquarela que sempre pinta a casinha soltando fumaça pela chaminé no campo florido e que tem um belo fundo azul... Ui! Prefiro coisas mais sóbrias, densas, grotescas até. Então tomei meu chá preto com algumas gotas de leite, comi umas bolachinhas, enfiei meu chapéu na cabeça e debandei-me para a rua. Queria ver o efeito do tempo nublado na cara dos clones andantes bem de perto, clones estes, aliás, que se consideram seres humanos.
Por que, o quê? Que considero seres humanos como sendo clones? Ora essa! De quando em quando não dizem que tal criança é a cara do pai ou da mãe? Então... Clones... Ã, o que estava a dizer mesmo? Ah, sim; saí às ruas passear com meu ânimo enfiado no bolso e o chapéu sibilando uma canção dos The National sobre minha testa. Ótimo, pensei. Então dei de cara com um vento frio que arrepiou tudo. Minhas bolas quase gritaram quando o saco resolveu espremer. Mas tudo bem, gosto do frio. Só não gosto muito do efeito que ele causa em mim. Tremores, arrepios e a maldita coriza que surge para me incomodar nos momentos mais impróprios. Além da maldita idéia de ter de tomar banho. Pra que isto?
Entrei, depois de muito tempo sem fazer isto, no velho café que costumava freqüentar. Só velhos rabugentos, caquéticos, capengas, gagás... Bolhas; na verdade esta é a melhor definição para essa gente. Mas fiz de conta que nem conhecia ninguém. Se bem que nem os conhecia mesmo. Contudo, apesar de serem desconhecidos não os livra de meus comentários. Então me sentei à mesa, sozinho, de preferência, e pedi ao garçom um chá preto com leite e um pedaço de torta. Comi e bebi tranqüilamente, paguei minha conta, levantei-me e fui embora. Enquanto isso os velhos mofados, tagarelas e podres se entreolhavam e me olhavam como quem quisesse obter informações sobre minha pessoa e coisa e tal. Coisas de velho, naturalmente.
As coisas estavam chatas, os conhecidos não estavam comigo. Deviam estar ou dormindo, ou fazendo compras, ou mexendo com alguma menina nova que passa na rua com sua bundinha enfiada em justas calças, ou conferindo o resultado do jogo do bicho, ou tomando algumas doses de catuaba para fortalecer os ânimos, por que, ver bundas e chegar em casa com cara de bunda também não dá, ou ainda, e para completar, ouvindo músicas e mais músicas em rádios que possuem todo e qualquer tipo de sintonia. E estando as coisas chatas o melhor a fazer foi ir embora. Fui até a Rui Barbosa, tomei um ônibus e rumei para casa. No lotação encontrei o Beleléu enfiado num canto. Estava quieto, não parecia estar muito contente. Nem ao menos sorriu depois de ter me visto. Suas mãos e lábios roxos o denunciavam; estava com frio... Coisas de velho.
O frio deixou com que as pessoas ficassem zanzavando de um lado para outro nas ruas com cara de mesma coisa.
Mario Bourges 15:49 [+]
Sábado, Maio 05, 2007
ANNO IV
Estava eu com a cabeça pensando numa música do Abba enquanto via a boca da minha sogra abrir e fechar em movimentos frenéticos. Na certa estava numa falação sem tamanho. E se bem a conheço, devia estar ela falando de coisas sem sentido... Aliás, ela sempre diz coisas sem sentido. Por sorte meus ouvidos se trancam automaticamente quando isto acontece. Mas talvez o que estivesse me deixando assim, desatento e com a cabeça numa música qualquer do Abba, e também meio não sei o quê, fosse o forte cheiro de cachaça que a velha exalava naquela tarde. Não que eu não goste do cheiro... Da cachaça, logicamente, mas misturado com cheiro de romópis mais o cheiro da mulher que lembra uma barra de sabão de coco... Definitivamente isto não me agrada em nada. Além do quê, ficar olhando a baba se acumulando, num primeiro momento num canto de sua boca, e depois assumindo a forma de uma pipoca saltitante que ia de um canto a outro naquele orifício bucal medonho me deixou perturbado realmente.
Contudo, pensei, tal bizarrice não poderia deixar minha tarde tão mais trágica do que ela já costuma ser; liguei para o Azambuja, para o Pereirinha, para o Adalberto, para o Odil e para um lá que não sei o nome a fim de comunicar-lhes que eu queria beber, e beber para esquecer ou riscar esta tarde de minha vida. Então combinei apenas com o Odil e este ser que não sei e também nem me interessa saber do nome dele, pois o Azambuja devia estar deitado ou contando quantos defeitos devem ter nas paredes da casa dele, ou as duas coisas juntas, sei lá. Já o Pereirinha devia ou estar se amarrotando com alguma nova namorada ou ameaçando se atirar pela janela de seu apartamento... Mas não precisa ficar assustado com esta atitude. Na verdade já vi estas coisas acontecerem algumas vezes... O cara é de morte; ele faz tudo sem medo, e o pior é que ele consegue fazer... Que bom... Para ele, claro, por que para mim isto não faz a menor diferença.
Quanto ao Adalberto... Este é complicado, digo, este é o mais complicado de se lidar, pois... Nem sei por que ainda tento ligar para este sujeito, nunca atendeu a um único telefonema meu sequer. Se bem que eu também não tenho o hábito de atender telefonemas, mas isso não conta, eu sou diferente mesmo, não preciso dar atenção a estes estúpidos aparelhos. Mas deixemos estes detalhes absurdos e vamos logo ao que interessa; acontece que teve uma festa, uma grande festa na verdade. O Odil, habilidoso que só ele, preparou um veículo especial para este dia, mandou fazer em enorme canivete suíço motorizado. Parece absurdo o que acabei de contar não é mesmo? Também pensei quando vi aquele trambolho estacionando, digo, subindo por cima das calçadas e derrubando umas duas ou três placas de trânsito logo de cara. E depois que toda esta bagunça começou acontecer a porra da lâmina do canivete gigante, lâmina esta que tinha pelo menos uns quatro metros de comprimento, soltou-se do corpo daquele negócio e decapitou outras três ou quatro placas de trânsito antes que eu pudesse piscar ou respirar... Um perigo esta coisa, isto sim.
Bom, ainda bem que não aconteceu nada além deste ocorrido. Então fui facilmente convencido de que seria bom eu ir até o bar, que iria ter bebidas e mais bebidas, comidas e mais comidas, agitos e mais agitos, além das exorbitantes ressacas e mais ressacas. No meu ponto de vista, uma coisa pra lá de tradicional. Mas tudo bem, fomos ao bar então, eu e o Odil a bordo do tal canivetão suíço. O problema não consistia em andar de canivete pelas ruas, o problema estava na tal da lâmina que volta e meia se desprendia do corpo do veículo. E quando isto acontecia dava pano pra manga para o velho companheiro proprietário do bar e do incrível canivetemóvel, pois a lâmina, de aproximadamente quatro metros, se projetava com uma velocidade estrondosa para frente e para um lado. Consecutivamente fazia com que o estranho automóvel perdesse o controle. Aí a gritaria era geral, tanto nossa quanto do pessoal na rua que via aquela monstruosidade praticamente se amontoando por cima de tudo quanto era coisa em seu dificultoso trajeto.
Lá pelas tantas, após muitos problemas com carros, ônibus, placas e sei lá mais o quê, chegamos definitivamente ao bar, e mortos de sede. Coisa esta que já era de se esperar, afinal de contas fazia calor. E chegamos botando pra quebrar com a merda do canivete-carro cheio de enfeites esparramados ao longo de seu formato oblongo. Agora você deve estar pensando que isto que estou contando é pura fábula ou uma coisa qualquer, mas não é não. Contudo, se quiser acreditar na história acredite, se não quiser... Que não acredite, oras. Só não me aborreça com perguntas impertinentes ou com tolices em forma de perguntas.
Retornando ao assunto; voltamos e estacionamos o veículo por cima de uma caçamba que estava no acostamento da rua, pois só havia este lugar com certa facilidade de estacionamento para aquela coisa do Odil. Mas também, quando conseguimos descer daquilo foi uma ovação só na entrada do bar. Uma enorme faixa de uma esquina à outra dando os parabéns para mim, isto pelo fato dos quatro anos de existência do blogue. Coisa esta que nem lembrava mais. No entanto tive um pouco de dificuldade para a locomoção pelo fato de meu pé de plástico ter engatado num daqueles apetrechos do tal canivete, e só consegui perceber a pequena tesourinha de um metro e oitenta de tamanho depois que já havia cortado uns dois dedos do cujo pé, mais um pedaço das minhas calças. Por sorte não sinto mais nem dor nem cócegas. Coisas estas que não suporto sentir. Tudo bem. O problema aí ficou apenas nas calças, mas... Tudo bem também.
Contudo acabou gerando um clima estranho entre os freqüentadores do boteco... Pois ninguém sabia se o ocorrido seria motivo para beber mais ou não. Com isso suas caras moles ficaram ainda mais moles pelo efeito da bebida que fazia tudo borbulhar em suas mentes alagadas de chope, e os sorrisos bobos e engordurados pelas costeletas de porco que estavam comendo continuaram bobos e até mais engordurados que antes. Então o maestro Matoso deu um ¿vai¿ e todos voltaram às risadas descoordenadas feito os passos ensaiados para a música que todos iriam dançar mais tarde na rua. Que música dançariam? Não sei, talvez a Macarena, ou talvez uma música do Menudo... Sei lá. O importante nesta história foi que ninguém ficou se reprimindo nos cantos do boteco. Aliás, nem tinha espaço suficiente para alguém se reprimir, pois o Distinto Cavalheiro estava simplesmente lotado. O máximo que poderia acontecer era do sujeito ficar espremido, isso sim.
Danças à parte os ensaios aconteciam por todas as partes e a todo momento.
Baterias de fogos estouraram incessantemente pela região do bar, muita animação... Até as moças da dita "vida fácil", que de fácil não tem nada, resolveram entrar na festa. Trataram de se organizar e... De que jeito? Não sei. E organizar aqueles que já haviam passado do ponto de bebedeira e se encontravam tombados nas calçadas e ruas. Agora difícil mesmo, além de conseguir um espaço suficientemente bom na calçada, pelo fato da quantidade quase incontável de pessoas, mais as dezenas de carrinhos de pipoca, cachorro-quente e outras coisas que nem lembro ou nem soube ao certo o que eram na verdade, espalhados pelos poucos metros quadrados de petit pavés dedicados ao estabelecimento em questão, foi de conseguir, de fato, ir ao sanitário. Ô dificuldade que foi isto.
Por lá todos bebiam... e bebiam de verdade. Não era só conversar fiada.
Os dois sanitários que ficam por lá, tranqüilizados em dias normais, estufaram com a enorme quantidade de pessoas que adentravam sequencialmente num ritmo frenético. O motivo, fora a quantidade absurda de chope consumido pelo pessoal, foi a degustação descoordenada e imprevista de um lanche diferente que uma empresa resolveu fazer. Comer a tal da Guacamole naquela noite deixou a mim e aos outros que lá estavam moles, e ainda, fazendo coisas moles. Particularmente falando, não foi nossa melhor escolha. Mas, enfim... Já foi. Então, músicas, bebidas, comidas, coisas moles, mais bebidas e comidas e mais coisas moles, gritarias, mais coisas moles e mais músicas à parte, era momento de regressar ao lar. Já se fazia tarde, e então, aproveitei a deixa de uma coisa mole e outra para correr até a Rui Barbosa e pegar o último ônibus para casa.
O pessoal da empresa, todos solícitos, ofereciam de bom grado o apetitoso prato.
Muita gente curtindo aquela fominha, de tanto beber, arriscou a tal da Guacamole. O resultado...
Contudo, nesta agitação toda da despedida... Do bar, logicamente, pois estava tudo muito cheio e não via quase ninguém de conhecido, encontrei meus amigos esbranquiçados e cambaleando de fraqueza na calçada. O motivo? Coisas moles. Bom, segundo eles estavam na festa desde quando ela começou, mas como estava insuportavelmente lotado, incluindo aí, e dando grande destaque ao sanitário, por causa da Guacamole, não conseguimos nos encontrar. Talvez até tenhamos entrados juntos alguma vez no banheiro, pois entrei tantas outras vezes e acompanhado com tantas outras pessoas que... Não dava tempo de esperar um sair para outro entrar. Ficávamos lá, num revezamento constante de vaso sanitário. Acredito até na hipótese de que o Odil irá substituir os azulejos e quadros que compõem tais cômodos, por que... Que coisa horrível. Sei lá. Tudo bem, sem problemas, digo, sem grandes problemas, pois a vontade de aliviar a bexiga era grande, além, é claro, das coisas moles também... Nada que uma porta de loja ou canteiro qualquer não resolvesse. Mas é isso. Até o nosso próximo encontro.
Tirando o pequeno probleminha ocorrido tudo se resolveu, e para variar, foi uma grande festa. Até a imprensa especializada esteve lá para cobrir o evento.
Mario Bourges 16:55 [+]
Quarta-feira, Abril 25, 2007
Por esses dias me peguei em lembranças. Viagens ao meu passado, desde quando era criança e coisa e tal. Dizem que recordar é viver; não sei se isso é válido dizer, mas é que é bom, isso é... Se bem que quando começo a lembrar de minha mãe, meu pai, meu tio Rodolfo e minha tia Judite, e todos eles brigando comigo por nenhuma razão, pelo menos nenhuma que tivesse razão para mim, me dá vontade de chorar. Por sorte ainda tenho a figura de meu avô, como eu gostava dele... Mas espere um pouco; foi ele que me deu um relógio quebrado de herança enquanto minha irmã ganhou um monte de coisas daquele velho safado e mulherengo. Não se perdeu nada quando ele afundou junto com aquele tal de Titanic. Aliás, penso até que tenham afundado o navio para se livrarem daquele chato.
Continuando e mudando um pouco o enfoque destas lembranças... Mas aquelas broncas que eu levava de minha mãe não saem da lembrança. Ela dizia que eu era um sujeitinho imprestável; que não prestava nem para chorar. Certava vez ela me largou numa feira e eu fiquei lá plantado por horas olhando para todos os lados sem saber o que dizer ou fazer. Lágrimas vinham aos meus olhos, mas não sabia direito como deixar a coisa emocionante. Portanto, para quem me visse, pensaria que algo teria caído nos meus olhos apenas, um cisco, por exemplo. Pensaria que isto era coisa sem importância e coisa e tal. Gritar pelo nome de minha mãe? Não! Eu morreria de vergonha se tivesse de gritar alguma coisa, qualquer coisa que fosse. E se por um acaso viesse a fazer isso levaria uma surra.
Voltando agora para minha realidade; nesta segunda-feira acordei entre 5h e 6h, e como não tinha mais nada a fazer fui para a janela observar a transformação da noite em dia. E enquanto ou olhava a escuridão percebi a movimentação do cotidiano começando. Primeiro passou o entregador de jornal insandecidamente com sua bicicleta repleta de periódicos descendo uma ladeira a toda velocidade para fazer suas entregas. Depois vi o proprietário da panificadora abrindo a porta do estabelecimento com o auxílio de mais duas pessoas... É, o dia estava começando, pensei. Momentos mais tarde vi o tal entregador de jornais empurrando sua bicicleta com bastante dificuldade. Mais tarde ele teria de consertar o aro dianteiro, pois ficou todo entortado. Provavelmente rebentou-se em algum muro, ou poste, ou em algum carro que estivesse estacionado, ou andando, sei lá.
Lá pelas tantas senti um cheiro de peido na sala, em princípio pensei que fosse o guapeca de casa, mas ele estava dormindo lá no nosso quarto. Aliás, este foi o cômodo que ele adotou para passar as noites. Talvez seja até este o motivo de eu perder o sono e acordar de madrugada; o bicho come igual a um sei lá o que antes de dormir depois passa mal, aí fica resmungando a noite inteira. E com toda a barulheira que ele faz acabo acordando. Bicho miserável. Mas dando continuidade; o cheiro se tornou intenso na sala, pensei até que fosse eu o responsável pelo gás expelido no ar, mas logo descartei esta hipótese, pois os meus são mais brandos.
Então, quando eu já começava a me acostumar com aquela fedentina, uma fumaça surgiu de repente e, como num passe de mágica, surgiu um velho barbudo, levemente barrigudo e gesticulando coisas como se fosse um mágico em dia de apresentação. E toda esta encenação com uma música de Nick Cave ao fundo. Bem teatral mesmo. Depois mudou para uma música mais sóbria, ou mais chorosa, ou, sei lá.
-- Valha-me, Baltazar! Salda-me, homem, se quiser. Se não quiser também não faz a menor diferença, pois sou Eu, o teu chapa. Gritou assim o tal velho com seus cabelos emaranhados e cheirando à fritura.
-- Oh, és Tu homem? Perguntei-lhe assim, num misto de assombrado e surpreso.
-- Ô Balta; pare com esta cena ridícula. Até parece que viu um fantasma. Sou apenas Eu que veio te visitar, pois estava de saco cheio de ver aqueles anjinhos fresquinhos fazendo suas tradicionais fresquices pelo céu... Céu também é uma maneira de dizer. Aliás, quem inventou esta história de céu, de paraíso e esta coisa toda acreditava mesmo que fosse assim. Mas não vou discordar dos ideais dele. E sabe que mesmo depois de 3 mil, ou 4 mil anos passados este sujeito continua alucinado? Não teve céu para consertar este miserável. Bom, cada um vê e acredita naquilo que quer. E não sou Eu quem vai mudar esta linha de pensamento. Para ter uma idéia do que acabei de dizer, posso surgir deste mesmo jeito que surgi para você em uma igreja repleta de cristãos e todos, Eu disse todos, incluindo aí o padre da paróquia, correrão de Mim que nem não sei o quê. Dirão até que coisa do capeta o que acabaram de ver. Falando em capeta; outra história mal contada... Coisa de romano. De certa forma eles foram bastante espertos ao inventar tal entidade e toda esta carochinha religiosa. Bom, na verdade eles não fizeram por mal nem erraram tão feio quanto penso, pois realmente o mal existe, caso contrário tudo descambaria para um lado só da balança. Mas também não é da forma que costumam dizer por aí. Inventam coisas demais. Mas isto é uma outra história. E por que acabei de dizer tudo isso? Eu é que sei, oras? Então esqueça, vamos. Disse-me assim, elucidamente, ou para terminar de confundir de vez e piorar minha compreensão sobre qualquer coisa.
Aquilo tudo estava soando de maneira incompreensível para meus ouvidos. Meus pensamentos estavam longe, meus olhares perdidos e uma conversa estranha. Nada daquilo parecia estar de acordo para mim. Alguma coisa parecia destoar de meus conceitos... Mas o que é que estou dizendo, digo, pensando? Conceitos são coisas que sempre gostei de criticar e...
-- Está pensando bem meu velho; conceitos surgem através de consensos, que muitas vezes não condizem com seu ou meu gosto pessoal. E em se tratando de religião os conceitos, na maioria das vezes, batem de frente com qualquer coisa que eu venha a pensar, pois nenhuma das pessoas que inventou um termo ou uma lei perguntou a Mim se estava certo ou não no momento de escrever na tal Bíblia... Aliás... Deixe para lá, você não vai entender mesmo. Enfatizou assim o Todo Poderoso enquanto colocava para tocar um disco de Joseph Arthur, pois aquele disco do Johann Sebastian Bach já tinha enchido o nosso saco.
Quando estava para perguntar sobre a forma que ele realmente tem ele me disse:
-- Tal dúvida fica para outra ocasião; daí já aproveito para responder a mesma pergunta para uma lesma que topei ontem não lembro onde. Falou-me assim.
-- Lesma? Lesmas falam? Perguntei todo cheio de curiosidade.
-- Não vá me dizer que você acredita naquela história de que só humanos têm o poder da comunicação, ainda que de maneira primitiva? Todos os outros seres se comunicam. Afinal, como você pensa que eu descubro tudo por aí? Ô Baltazar... Quanta prepotência você expeliu agora. Não vá dizer que acredita naquele papo-furado de que só humanos têm alma... Alma... Outro assunto que daria uma tarde de prosa. Bom, tenho de ir agora. Vi, durante nossa agradável conversa, que uns anjinhos boiolinhas estão metendo seus dedos engordurados de algodão-doce nos meus vinis do New Model Army. Decididamente não gosto quando fazem isto. Até outra hora meu velho. Falou o que falou e sumiu numa nuvem incandescente de gases fétidos. Quanto a mim, fiquei ali, pensando na vida e refletindo sobre as palavras ditas. Em seguida amanheceu de fato, daí fui dormir novamente, pois estava cansado de tudo isso.
Aqui estava o entregador de jornais; "abraçando" um poste. Por isso sua bicicleta ficou torta.
Mario Bourges 14:52 [+]
Quarta-feira, Abril 18, 2007
Por esses dias resolvi fazer algo inusitado, diferente, estranho até, mas claro, dentro de minhas capacidades. O que fiz? Fui a uma competição... Na verdade era rinha de insetos. Lá aconteceram combates entre pulgas, percevejos, piolhos, baratas. Se eu vi alguma coisa? Claro que não. Fiquei na ala daqueles que não pagam para ver essas nojeiras, e para aqueles que ficam nesta ala não recebem na entrada a luneta ou o binóculos. Até por que, se eu quisesse ver, e tivesse algum destes aparatos, não conseguiria ver tal bizarrice pelo fato de que um gordão assentou sua enorme bunda encerada em uma cadeira não menos encerada bem na minha frente. De modo que se posicionou categoricamente entre eu e o estranho espetáculo. De certo modo isto foi até um alívio para mim.
Mas então, o que fazia eu lá? Oras, conversava com outros tantos que não queriam olhar para esta besteira. Passamos o tempo todo bebendo e conversando sobre qualquer outra coisa sem importância... Coisas de pessoas com tempo de sobra e que não sabem como administrar este tempo, nem administrar outras pessoas, nem a vida, nem nada. Como poderia resumir isso tudo numa só palavra? Isto é simples: aposentado. Mas continuando; posso dizer que vivi horas agradáveis, ainda que, por vez ou outra sentisse um dos competidores, digo, dos combatentes da rinha, dentro de seus momentos de descanso, nos atacando por debaixo de nossas roupas nos tirando do descanso. E quando isso acontecia, seus donos ficavam enfurecidos com a platéia, pois esta, parva de tanta coceira, acabavam eliminando seus estúpidos investimentos com um simples espremer de unhas ou uma simples chinelada. Afinal de contas é muito difícil enxergar o número nas costas destes bravos e enérgicos e diminutos lutadores no escuro sem porra da luneta ou dos binóculos ou de uma miserável lanterna. Definitivamente não dá.
E quando ocorrem tais acidentes fecha o pau entre a platéia e os investidores, digo, loucos. Se bem que, no final das contas, todos que vão lá são, e só podem ser considerados loucos. Falando em loucura, as músicas que lá tocavam também eram loucas, consecutivamente, incentivavam a todos cometerem loucuras, situação esta totalmente plausível partindo de um ambiente destes. Um alto-falante no topo de um barracão berrava umas mazurcas sem parar... Uma verdadeira loucura. Se o Adalberto estivesse por lá diria que era coisa dele. Enfim, apesar de tudo, gostei daquilo. Pretendo até voltar mais vezes naquela espelunca. O problema de ir a um lugar como este é que quando se volta para casa sempre vem com um daqueles micro-lutadores agarrado em uma das pernas e chupando sangue, e ainda, se tiver sorte, ou azar, depende aí do ponto de vista, vem junto com o micro-atleta toda a comitiva dele. Confesso que isto é um tanto desagradável, mas sei lá. Tantas coisas são, mas continuamos fazendo, ou aceitando sem reclamar. É isso, até uma próxima.
Mais tarde descobri como os "empresários" contratam, ou capturam seus lutadores. Veja você também como eles fazem isso:
Pulgas de gatos são retiradas pelos próprios gatos. Só eles sabem como fazer isto.
Para as pulgas de cachorrinhos de madames, ou, bundinhas, como são mais conhecidas, são contratadas pessoas de grande porte e que saibam usar de "psicologia" para desempenhar tal papel.
Pulgas de cachorrinhos vira-latas são extraídas com piadas contadas por palhaços contratados pela comissão organizadora da rinha. Nada muito diferente do que acontece com nós humanos; alguém veste um terno, se enfeita bem, conta uma lorota qualquer para a gente ficar alegre e pronto, leva nossos votos, nossos trocados e o que mais quiser. Quanto às baratas, piolhos e sei lá mais o que, basta revirar os lixões e os bueiros da cidade, ou as cabeças das crianças desamparadas pela sociedade.
Mario Bourges 17:02 [+]
Quinta-feira, Abril 05, 2007
Estava eu sentado tranquilamente numa pequena banqueta, pois minha poltrona fora doada para uma instituição de caridade. Contudo ninguém da tal instituição aceitou a oferta pelo fato da poltrona estar praticamente destruída, fedida e sei lá mais o que de ruim. Então acabaram levando para um lixão da cidade, ou para alguém incinerar aquilo, não sei ao certo. Bom, estava eu lá, assistindo um daqueles programinhas xaropes onde o apresentador fala uma estupidez qualquer para começar com as conversas, enquanto isso é interrompido por um convidado para ouvir uma outra estupidez qualquer, até que entra um segundo convidado e fala uma estupidez sem tamanho, aí todos discutem loucamente até chegarem a resultado algum, tamanha estupidez.
Desta vez o tal programa apresentava uma teoria estúpida, quero dizer, mais uma; falavam, tanto os convidados quanto o apresentador, uma besteira atrás da outra. Diziam que a calvície é resultado da impotência sexual e vice-versa, que todo o careca é um inútil na cama por não saber disso, não saber nem que é inútil e nem que é calvo... Ã... Bom, só sei dizer que acabei cochilando sentado na banqueta mesmo; primeiro por que aquela ladainha, aquela besteira toda estava pra lá de chata, segundo por que o calor estava insuportável, e isto fez baixar minha pressão arterial. Logicamente que o fator álcool facilitou minha vida causando-me sono. Livrou-me, digamos assim, deste martírio televisivo.
Contudo, quando já me encontrava num mundo maravilhoso do faz-de-conta, no mundo dos sonhos e coisa e tal, recebi a visita do detetive belga, o Hercule Poirot, sua estúpida criada Antonielle, seu ajudante o capitão Hastings e a senhorita... Não lembro do nome dela. Circulavam eles pelos ambientes que minha mente criava todo instante em busca de explicações para o aparecimento de um pé de plástico sobre a mesa onde o famoso detetive costuma tomar café da manhã. Maluquices à parte, deixe-me contar como as coisas aconteceram... No sonho, claro.
Poirot: -- Antonielle, Antonielle, venha cá imediatamente! Disse Poirot assim à sua criada enquanto tamborilava os dedos da mão direita insistentemente sobre o tampo da mesa onde costuma tomar café.
Antonielle: -- Ques qui ces¿t mousieur Poirot? Perguntou toda agitada procurando se restabelecer da pequena corrida que dera até lá, e ainda, procurando arrumar a madeixa que se esvoaçara neste período de pressa incalculado.
Poirot: -- Venha cá e me diga o que é isto. Ordenou-lhe enquanto indicava nojentamente para o tal pé. Então emendou: -- Como já suspeitava; não sabe dizer o que é isso. Aliás, não sei por que ainda insisto em fazer com que outras pessoas participem de uma investigação... Nunca sabem nada, nunca ouvem nada, nunca nada... Hastings! Onde está você neste exato momento? Perguntou em tom alto e para o alto, e lógico, levemente enfurecido por também não saber nada que acontece dentro de sua própria casa.
Hastings: Em tom solene, e tipicamente inglês responde: -- Yes!?
Poirot: -- Preciso que me acompanhe imediatamente ao hospital, ou ao necrotério, ou a uma casa de artigos de umbanda. Disse-lhe nervosamente enquanto tentava desatar o nó do cadarço do sapato esquerdo, pois havia apertado demais e seu pé estava levemente doído. Contudo, teve um rompante na emoção e gritou: -- Hastings! Precisamos pegar um avião e viajar para Curitíbia imediatamente.
Hastings: -- O senhor quis dizer Curitiba não é mesmo? Fez esta pergunta só para testar a agudez da memória do companheiro.
Poirot: -- Não Hastings, quis dizer Curitíbia mesmo, e por quê? Por que naquela cidade todos os moradores se parecem com o osso da perna, a tíbia; duros no contato e doídos quando se experimenta diretamente numa perna desprotegida. Mas tudo bem, os ingleses funcionam na mesma proporção. Emendou o detetive durante uma alisada no bigode. -- Continuando; precisamos ir até lá por que desconfio que é lá que está a resposta para o aparecimento deste pé de plástico aqui. Não que uma coisa tenha haver com a outra mas... Ã... Wherever.
Então, Poirot, Hastings, a criada ignorante, a Antonielle, e a senhorita... Que não me lembro do nome, e que até agora não se manifestou no sonho, fizeram suas malas e se prepararam para viajar. Contudo, como estavam no meu sonho a coisa toda virou numa loucura só. Lá pelas tantas a xata da Xuxa aparexeu no meu xonho gritando feito uma desesperada ao lado do Tatu da Ilha da Fantasia enquanto tocava, ao fundo, um Ragtime tocado por Scott Joplin. Logicamente que o som vinha do rádio do Adalberto, sim, aquele magnífico exemplar de aparelho sonoro que tem ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves.
E depois que todos se abraçaram como se fizessem parte de uma grande comunidade celta, dançaram uma música das Frenéticas quando viram que o Alemão do Big Brother ganhou naquela pura armação que se diz jogo. A esta altura dos acontecimentos eu suava sem parar na tal banqueta, de tão desesperado que estava. O Gran Finale desta história foi mais louco ainda; este tal de Alemão, por alguma razão pela qual desconheço, tomou um cacete num corredor polonês, organizado pela empresa televisiva em questão, sendo que não faço a mínima questão em divulgar, e depois todos foram saindo pela boca de um enorme coelho da Páscoa gigante e cor-de-rosa.
Logicamente que acordei suando, trêmulo e morrendo de sede. Depois voltei para ver o que passava na televisão; era um programa de auditório onde tinha roletas para serem rodadas, balões para serem estourados, incluindo aí os sacos dos telespectadores, e para completar, muita pegadinha e piadinha sem graça... Falando em coelho... Resolvi sair para procurar uns ovos de chocolate para comprar. Sabe, adoro comer este tipo de coisa, ainda mais depois de sonhar uma coisa tão fora de jeito como esta.
Aqui talvez tenha sido uma continuação do meu sonho, se é que posso chamar isto de sonho. No entanto... Sei lá. Já o tal do Poirot, Hastings, Antonielle, a senhorita... Não lembro, a Xuxa, o Alemão, o Tatu, o coelho da Páscoa e sei lá mais quem... Que sei lá eu onde foram parar.
Mario Bourges 01:24 [+]
Segunda-feira, Março 26, 2007
Olga Ferro
Tenho percebido alguma melhora no Baltazar nesses últimos tempos. Ela já olha para os outros sem ficar indiferente; está certo que os modos dele ainda não são os melhores, pois agora ele xinga sem fazer rodeios. Qualquer pessoa o evita, os vizinhos então, têm pavor de encontrar meu velho no elevador, ou em qualquer lugar dentro ou fora do prédio, pois sempre acontece um bate-boca de graça. Posso dizer que os únicos do edifício que não são escorraçados, além de nós, logicamente, são os porteiros, os serventes e um velho que passa parte do dia, e todos os dias, tomando cerveja. Aliás, por esses tempos descobri que também é um militar aposentado. É um dos mais novos moradores do edifício, e junto com este velho veio morar a única filha... Ou neta... Está com cara de ser neta... Enfim; mora com ele... Talvez seja empregada. Ah, como ia dizendo, é uma moça bastante voluptuosa, e para completar a lista de moradores e acompanhantes deste sujeito... Deste bêbado, tem um cão maluco que mora junto. Digo maluco por que às vezes percebo que o animal procura falar algo a eles, mas como não consegue falar, por motivos óbvios, começa a uivar, a latir e a pular seguidamente até que os moradores do andar de baixo façam a reclamação para o síndico.
Bom, eu estava falando sobre meu marido, então, na semana passada senti que uma ansiedade crescia no Baltazar. Era uma coisa latente, não sabia o que lhe causava este distúrbio, mas tive a feliz idéia de fazer um pudim de leite. Feliz idéia porque foi justamente o que lhe acalmou, pelo menos naquele dia, pois nos dias seguintes ficou zanzando de um lado para outro com aquele horrível pé de plástico até que, num determinado momento se cansou. Depois foi para a janela da sala onde ficou analisando não sei o que por horas. Só parou de olhar depois que a diarista passou o pano no vidro. Aí então se sentou, mas pelo jeito não ficou contente, tratou foi de ficar em pé novamente e se pôs a caminhar pela casa. Não obstante, foi para as ruas.
Baltazar Ferro
A vida por vezes nos preá peças homéricas. Por que digo isto? Como não tenho muito que dizer no momento resolvi falar sobre a vida, ou sobre como conduzimos ela ou como somos conduzidos por ela... Sei lá. O fato é que não temos como prever nada nem fazer planos sobre alguma coisa. Nossa! Como estou enrolado desta vez. Bom, depois que fui enterrado, por estar considerado morto, tudo ou pelo menos quase tudo mudou para mim. Antigamente eu saía com prazer. Talvez por que meus amigos estivessem mais dispostos para fazer qualquer coisa também. Então todos saíam, todos bebiam e todos se divertiam.
Pensando sobre esta ausência de divertimento, ou carência de boa companhia, resolvi por em prática uma técnica que há muito não utilizava; sorrir. Certamente que considero isto uma estupidez sem tamanho, pois, onde já se viu sorrir à toa. Para quê? Enfim, que seja. Tal atividade é por demais cansativa, mas, esforço-me como posso para manter esta aparência idiota sem me estressar muito. Por sorte minha o estúpido exercício de sorrir me rendeu frutos num curto espaço de tempo. No meu caso foi providencial, sentia-me, logo nos primeiros minutos que me aventurei pelos corredores do prédio onde moro, assaz desgastado. E por ter conhecido um vizinho, que também é militar aposentado, que pertenceu ao mundo das casernas, e que também leva a vida da maneira que melhor lhe convém, pensei: taí, a diversão está mais próxima do que imaginei, e ainda, posso voltar ao meu normal, sem máscaras ou sorrisos postiços para aliviar o peso do ambiente. Que se dane o peso do ambiente, que se dane o ambiente, que se danem os chatos que implicam comigo. Até uma próxima oportunidade então.
Ah, quanto à diarista; miserável, acabou com meu passa-tempo num piscar de olhos, digo, com um passar de panos. Estava eu distraído e distraindo meus pensamentos cabulosos com um negócio que acontecia no terraço do prédio vizinho. Não sei do que se tratava até então, mas estava divertido, ou pelo menos pensava estar. A coisa se mostrava para mim, pelo menos até o momento que a mulherinha passou a maldita flanela, ou jornal no vidro, como um ser fantástico que pulava e saltitava de um lado para outro com a leveza de uma pluma. Certamente aquilo estava me agradando, aguçando minha mente empoeirada e quase petrificada com tantas mesmices. Mas aí veio aquela desocupada e acabou com meu instante, meu fabuloso instante. Por isso me sentei bravo, por isso saí para procurar alguém, por isso me obriguei a sorrir. Ah, tudo bem, o pudim foi gostoso também; comi tudo.
Mario Bourges 12:58 [+]
Quinta-feira, Março 08, 2007
Estava de saco cheio de tudo, as coisas quase não aconteciam para mim. Depois que voltei de uma viagem feita à praia tudo se anulou em meu cotidiano. Tive vontade de arrancar meu pé de plástico e doá-lo para uma instituição de caridade, ou jogá-lo em alguma vidraça só para ver os cacos voarem longe, e depois me atirar com tudo num forno de lama asfáltica. Quem sabe fazendo parte da malha rodoviária da cidade eu me sentisse mais útil. No entanto tal vontade passou rapidinho, pois essas coisas são tão... Podem ser tão doídas aos nossos corpos. Assim sendo desisti desta besteira. Mas continuava com vontade de fazer alguma coisa, e pensando desta maneira resolvi dar umas voltas pelas calçadas quebradas que compõem o bucólico cenário do bairro onde moro.
Caminhava sozinho, sem a companhia impertinente do Pereirinha, pelos vários lugares que resolvia seguir. Lugares estes que não me diziam nada de tão estranhos que me pareciam, se bem que todos os lugares me soam estranhos, até a rua onde moro pode se mostrar diferente para mim. Basta uma simples falta de atenção. Coisa esta que, aliás, não tenho nem um pouco. Então seguia eu pelos lugares até que encontrasse alguma coisa familiar, se é que existe tal coisa assim, e aí, poder descansar um pouco ou qualquer outra coisa do gênero.
Lá pelas tantas dei de encontro com um ônibus abarrotado de gente fantasiada e gritando coisas e cantando marchinhas de carnaval. Foi nostálgico isso. E assim que o tal ônibus passou por mim todos gritaram lá dentro para parar. Entre gritos e trocas de tapas abriram a porta da condução e falaram para eu entrar. Depois fui descobrir que alguém me identificou, e este alguém era o Odil, que estava na boléia vestido de salva-vidas e com um charuto pendendo para todos os lados da boca enquanto buzinava alucinadamente pelas ruas esburacadas da cidade.
O motivo da gritaria? Era o tradicional Primeiro Grito de Carnaval do Ao Distinto Cavalheiro. Então chegamos no boteco momentos antes da festa começar. Contudo, assim que chegamos a festa começou; chope para lá e chope para cá. Não tardou muito e já chegou a bandinha do maestro Matoso para fazer ferver tudo. Confete e serpentina enfeitavam o bar, as ruas, as calçadas, nossos copos, nossas roupas, bocas, orelhas e olhos. Mas tudo bem, fazia parte da festa. Sem contar com o pessoal que foi paramentado para o festejo. Perucas brilhantes, roupas coloridas e maquilagens estonteantes deram o tom indiscreto ao festejo.
Tudo era alegria; pierrôs, columbinas, arlequins, palhaços, homens vestidos de mulheres e malabaristas compareceram para animar o local, políticos também surgiram, mas após o mar de vaias caíram fora; os jornalistas, volumosos como sempre, eram do mundo inteiro, e estavam lá para cobrir o evento, e ainda, de quebra, o Quarteto Fantástico apareceu por lá. De certo que estes apareceram para fazer firula. Só pode ter sido isso, pois nada fizeram de fantástico. Bom, continuando, a vizinhança que vivia reclamando de barulhos e coisa e tal foram às ruas em peso para comemorar com felicidade a chegada de mais um carnaval. Mas isso não quer dizer que curitibanos gostem desta festa. É tão só apenas o fascínio momentâneo que estas datas exercem sobre nós, nada mais. Porém, não faço a mínima idéia de como somos influenciados por estes festejos. Não sabemos sambar, não sabemos cantar, não sabemos pensar, não sabemos beber, não sabemos votar, e o que é pior, não sabemos sorrir. Então, por que diabos gostamos deste carnaval. Talvez pelo fato de ser organizado pelo Odil.
E para dar continuidade o bloco dos desajustados feito polacos, duros feito paus, e desafinados feito gralhas saíram pelas ruas num enorme trenzinho feito a ALL, ou seja, tombando por todos os lugares e derrubando seus chopes e amendoins e pipocas e sei lá mais o quê. O maestro e sua patota fizeram arrepiar suas cornetas, pistons e outros instrumentos para incentivar as pessoas a pular e a gritar e a urrar. Vi um professor fugindo de uma de suas crias, digo, um aluno, como quem foge de um cachorro louco. Mas não o censuro por isto; o tal ex-aluno estava pra lá de bêbado e não parava de chatear o querido mestre que compõe o quadro de cliente vip do bar com chatices típicas de alunos e ex-alunos bêbados. Sujeito este que me causou nojo até, pois o vi chupando o gargalo de uma garrafa de cerveja por horas. E depois, mais tarde, veio até mim para perguntar sobre o professor. Naturalmente eu, um lorde com um pé de plástico, safei-me educadamente do ex-aluno; dei-lhe um empurrão homérico que o fez cair sentado sobre sua garrafa oca e chupada no gargalo. Como diria meu cunhado: It's so disgusting.
Não quero me aborrecer com estas picuinhas, portanto darei continuidade a este fato tão importante para a história. A nossa história, claro. Lá pelas tantas resolveram fazer um concurso diferente, ver quem era o Rei Momo mais momo e balofo existente na face da Terra. O concurso, devidamente catalogado para os registros do Livro Guinness de recordes, contou com a presença de vários competidores, cada qual de diferente lugar. Na competição não valiam pessoas que tivessem feito a famigerada cirurgia de redução de estômago. Isto era, sem dúvida, o quesito de grande peso, e que realmente desclassificaria o candidato neste concurso. Soube depois que alguns dos competidores passaram em churrascarias para dar um toque em seus pesos.
Olha, só sei dizer que a festa toda foi um charme e uma alegria só. No entanto não pudemos apreciar a competição do Momo mais momo pelo fato de falta de espaço no bar. Para vocês terem uma idéia do ocorrido, só podia entrar um competidor de cada vez no recinto. Primeiro por que os candidatos eram enormes e segundo por que o bar é minúsculo. Mas isso são apenas detalhes, e detalhes que marcaram nossas vidas naquele dia. E a música? Veja; o maestro Matoso mandou todos seus músicos tocarem até que seus lábios inchassem, ou até que seus dedos ficassem tremendo, ou até que suas baquetas quebrassem, ou ainda, até que todos os sacos estourassem... Ã... De certa forma isto foi uma paródia do que aconteceu no tal do Titanic, onde... Ah, deixa pra lá. Só sei dizer que aquilo foi melhor para nós por que tínhamos música a todo instante, e ainda, foi ótimo para embalar os goles de chope que escorregavam goela adentro.
Lá pelas tantas me deu vontade de urinar, de tanto chope que ingeri. Aí que surgiu o problema; como estava tudo tão tumultuado, filas para fazer isso, para fazer aquilo e aquele outro resolvi ir embora. Poderia fazer minhas necessidades na porta de alguma loja, caso quisesse, claro. Mas a situação do lugar estava impraticável, tinha tanta gente na festa, mas tanta gente que havia fila até nas portas das lojas para o ato da micção. Não sobrou um único lugar vago sequer para mijar. Teria de esperar um longo tempo para executar meu intento, e como não tenho paciência para esperar resolvi me retirar da lá. Preferi isso, pois, se fosse esperar por uma mijadinha eu realmente iria dar a tal mijadinha nas calças. Daí não vale. O Odil certamente me entenderia, mesmo porque acredito que ele também tenha feito isso num certo momento. Por que suspeito disto? Simples, teve uma hora que ele simplesmente sumiu de lá, e ninguém sabia da existência dele. Mas tudo bem.
Continuando; a volta para casa não foi nada fácil. O ônibus no qual me encontrava não parava de sacolejar, minha bexiga, cheia até não poder mais, deixou-se aliviar por entre os acentos vagos do lotação. Por sorte, dos passageiros, claro, eu era o único que estava na condução além do motorista. Caso contrário iria ser uma reclamação atrás da outra para meu lado. Dado um momento eu toquei a campainha para descer. Afinal de contas eu teria de descer uma hora. Só não sabia que hora teria que descer. Mas tudo em nossas vidas pode ter um lado interessante, e às vezes, até um lado bom. Por que disso isso? Que sei lá eu, oras. Mas é isso. Deixe-me cuidar das tais calças que acabei urinando no dia da festa. Sei que já devia de tê-la lavada, mas a preguiça é realmente uma coisa. Por conta disto a casa tem fedido feito não sei o quê. Por que a Olga não reclama? Ainda está viajando.
Aqui um dos conhecidos clientes que ao bar do Distinto costuma ir, cantou, riu, gritou, pulou, aloprou até não poder mais e depois, quando não se aguentou de vontade de urinar, foi embora por não ter um lugar adequado para fazer suas necessidades. Tudo bem.
Ps: A insistência dos tolos me comove e comove a todos os outros tolos com suas tolices e insistências. Este blogue, por exemplo, transita tranquilamente entre esses dois mundos. Tanto é que está de volta, na mais comovente e absurda versão, que é a mesma de sempre.
Mario Bourges 00:15 [+]
Terça-feira, Dezembro 19, 2006
Versão: Olga Ferro
Tenho visto muito pouca coisa acontecer por esses dias, muito pouca mesmo. E percebi também que o Baltazar anda sério demais para meu gosto. Está certo que ficou enterrado vivo por alguns dias, e isto deva ter influenciado nas atitudes ou na falta delas para ele. Até fiz um pequeno agrado, preparei-lhe um delicioso pudim... Se bem que faz tanto tempo que não faço deste doce que nem sei se ficou bom. Porém, poderia ter ficado bom ou ruim que tanto fazia para o Baltazar, pois seus pensamentos estão distantes demais para que ele perceba que está em algum lugar conhecido, ou esteja um delicioso pudim à sua espera.
No entanto, como ele vive num mundo que não sei qual é por estes dias não conseguiu se dar conta de que o doce era para ele. E quando ligou um fio ao outro em seu cérebro já era tarde; o cachorro, aquele lambão, deu um jeito rapidinho na iguaria... Não, o gato não come dessas coisas, prefere tomar cervejas. Tanto que está até com cirrose. Mas, continuando; quando se deu conta do sumiço do tal pudim olhou para o cão e chutou-lhe a bunda e deu um suspiro. Nada mais.
Lá pelas tantas ele se levantou de onde estava com cara de tanto faz, calçou os chinelos e foi para fora. Na certa foi ganhar as ruas... Talvez rever os conhecidos, ou entrar em algum botequim... Talvez... Ou quem sabe... Entrar em algum botequim mesmo... Ah! Que vá, pensei. Contudo, aquele pé de plástico que puseram nele não me inspira confiança, pois parece que já vai quebrar pelas calçadas esburacadas ou derreter neste calor infernal que tem feito por esses dias. Enfim; dê o que for para dar, pois o pé não meu mesmo. Agora vou me preparar para a limpeza dos montes de bosta que o vira-lata largou pela casa toda, e ainda, passar um pano com detergente forte para tirar as manchas que se formou embaixo do lustre que o Pereirinha adotou como dormitório.
Versão: Baltazar Ferro
Cansei de tudo que era chato. Cansei de fazer charme e cara de que tudo está bem para aquelas coisas que sempre me incomodaram. Vi o cachorro comer meu pudim, lógico, mas não falei nada, não gritei nada e nem quis reivindicar alguma coisa depois que o bicho deu a primeira abocanhada no doce. Já era tarde para qualquer coisa mesmo. Então, nem liguei. Em vez de destrinchar o animal na paulada dei-lhe apenas um carinhoso chute. Só para que ele se lembre de mim, nada mais. Resolvi então dar uma caminhada pelas redondezas, espairecer a mente e me livrar do ranço acumulado em meu lar. Sabe, tudo ficou diferente em casa. A televisão nunca teve um lugar em meu coração, e pelo jeito nunca terá... Isto é bom. Não suporto a idéia de ficar babando em frente a este estúpido aparelho enquanto se assiste bobagens feitas por pessoas não menos estúpidas que a própria tevê. Maldita hora que alguém resolveu criar isto.
Continuando; antes de sair de casa passei pela cozinha para tomar um copo d¿água, pois estava com sede, depois olhei para cima com certo cuidado para evitar os torcicolos, e chamei o Pereirinha para ir junto comigo. Às vezes fico espantado com a destreza que o Pereirinha possui. Desta vez, ao sair do lustre onde ele agora costuma ficar, deu um rodopio e se lançou como se fosse um projétil disparado e ricocheteou pelas paredes que chegou a me dar vertigem. Mas tudo bem, logo passou. A vontade de sair pelas ruas era tamanha que tal tonteira não insistiu em continuar. E, se por um acaso continuasse com a tontura eu sairia assim mesmo.
O primeiro bar mais ajeitado que encontrei não tive dúvidas, me joguei para dentro. O Pereirinha? Jogou-se junto. Porém, uma pequena diferença entre nós dois, com apenas um salto ele alcançou do meio da calçada um banco lá no fundo à beira do balcão. Quanto a mim, tive de caminhar um tanto para alcançar o assento. Sem problemas, pelo menos consegui chegar. Então, sentadinhos nos devidos banquinhos, pedimos umas cervejas para degustarmos. E a bebida desceu miraculosamente agradável por nossas gargantas, digo, pela minha garganta, pois nem sei como foi que a bebida desceu pela garganta de meu amigo. E olha, nem me interessa saber também.
Bebemos algumas cervejas e a sensação de satisfação havia chegado a seu ápice, ou seja, já estava pra lá de satisfeito. Poderia dizer até que estava empapuçado de tanto beber desta bebida, e, apesar das babas escorrerem sem freio pelo queixo, mangas, mãos, barriga, pernas e balcão de tanta satisfação, estava me sentindo maravilhosamente bem. O Pereirinha também se sentia bem, podia ver isto em seus olhos negros e miúdos. Só quem não parecia estar gostando da situação era a proprietária do bar. Não, não era por causa da bebida, e sim pelo fato das moscas que por lá voavam sem parar.
Sabe, ao longo dos dias em que fiquei enterrado aprendi a conviver com este inseto nojento. Mas nem por isso eu aprendi a gostá-las. E enquanto eu me babava de cerveja junto com o Pereirinha, a dona se abanava com um pano de prato sujo para se defender das moscas que queriam pousar insistentemente em sua cara gorda, sebenta, suada e com alguns tufos de pêlos espalhados de maneira desordenada naquela aberração que costumam chamar de face. Nome este, aliás, que dão para qualquer coisa que possa servir de apoio aos olhos o nariz e a boca. Tudo bem, não dou bola para coisas que ficam apoiadas ou dependuradas nas faces alheias. Mesmo por que também fiquei com coisas estranhas na minha cara durante o período em que fiquei enterrado feito morto.
Bom, só sei que deixei de olhar para aquela cara cheia de gotículas que iam brotando na testa, bochechas, nariz, lábios, buço, queixo e em sua ligeira papada que se debruçava sobre suas mal torneadas clavículas, para prestar atenção em outra coisa, meu copo vazio e que poderia tornar-se cheio novamente, por exemplo. De resto foi isso, sem muito mais que foi dito aqui. Contudo, antes de pagar a conta e me abraçar com o velho Pereirinha que rolava no balcão feito sei lá o quê, um cidadão, sentado numa cadeira que rangia as pernas, ao lado de outro tipo que quando abria a boca sem dentes emitia apenas uns chiados e uns pios, disse-me algo que não consegui entender, assim sendo não lhe dei atenção, não estava com vontade para tal. Assim sendo me agarrei com o Pereirinha, levemente alcoolizado e esbugalhando seus micro olhos para ver se enxergava alguma coisa, e fomos embora, pois já estava tarde.
A proprietária do boteco nem percebeu nossa saída, ficou lá, rodando o pano como se fosse um ventilador. Tudo para espantar as moscas que certamente queriam se alimentar daquela gordura que brotava quase em estado gasoso de sua própria gordura. Posso dizer com certeza que não era um espetáculo primoroso de se ver. Então, continuando, fomos cambaleando pelas calçadas tortuosas em direção de casa. Eu cambaleava mais ainda pelo fato de ter um pé de plástico, e ele, inclusive, já estar um pouco derretido pelo enorme calor que tem feito por esses dias. Olha; na verdade o problema é que não estava acostumado com tanta coisa junto. Primeiro caminhar, depois beber e beber por um tempo, e para encerrar, ficar observando as moscas dando rasantes sobre a face gordurosa da dona do bar, e ainda, um velho com cara de bêbado falando coisas sem sentido para mim, ou sem importância para mim, ou para o outro que piava. O melhor mesmo foi quando cheguei em casa e me joguei no sofá. Pude dormir até não sei que horas. Êta, coisa boa.
Versão: Pereirinha
Já estava de saco cheio de ficar ali, naquele lustre, pendurado, dividindo um espaço maravilhoso que tem uma geladeira perto com uma infinidade de coisas para comer e para beber. Além da visão extraordinária que tenho de lá de fora. Contudo, tem uns morcegos que, por serem abusados, não me deixam em paz. Tudo bem, não dou a mínima para a cara deles. Só fico pensando como foi que descobriram este lugar, pois não tenho conhecidos que sejam morcegos. Bom, não me incomodando já está bom.
Agora voltando à minha narrativa sem muita alegria, poderia dizer até que é aborrecida, mas, que vá lá. O Baltazar, depois daqueles dias todos sumido, digo, morto, ou se fingindo de, convidou-me para uma volta etílica. Deveria recusar, sei disso, mas o calor estava tanto que, como estou perto do teto da casa o calor estava ainda mais insuportável que em outros locais da moradia. Então por que continuei lá em cima? Sujeito; tua falta de tato em perguntar tais bobagens me assusta... Ora, não sei que fazia eu lá em cima. Apenas fiquei um tempo, depois mais um tempo até que gostei de ficar lá. Só isso.
Continuando; chegamos num bar pé-sujo e fomos logo pedindo uma cerveja bem gelada. Como disse; o calor estava para lá de insuportável. Então bebemos, e bebemos, e bebemos até que aquela coisa toda também encheu o saco e a barriga de líquido. Deveríamos voltar logo pelo fato de eu estar com princípio de labirintite, isso quer dizer que me perco facilmente. E como sei que o Baltazar é um perdido por natureza o forcei a parar de beber o quanto antes para que pudéssemos voltar ao lar... Pelo menos a salvo, por que são; não estávamos mais.
Porém, tinha um sujeito estranho, com a feição triste, aborrecida, embriagada, tentando chamar nossa atenção para alguma coisa. Mas, não sei o motivo para isto, e também, nem queria saber dessas coisas. Meus olhos já estavam frouxos de tanto beber. Isso queria dizer: "vamos embora logo por que vamos nos perder". E foi bem isso que fizemos, quero dizer, que fiz, com puxões e apertões e beliscões e convenci o velho Baltazar a descolar a barriga daquele balcão para o nosso próprio bem. A sorte é que ele é um sujeito pacífico, apesar de ranzinza. Quanto ao sujeito; deixamo-lo por lá mesmo. Ele devia estar bem onde estava. Tinha um sujeito que imitava passarinhos ao seu lado. Sabe; o som da natureza é algo que impressiona e nos deixa mais calmos para enfrentar os problemas do dia-a-dia.
Versão: Eustachio
Costumo tomar minha cervejinha todas as tardes. Bebo aos montes, sou acostumado com isso, e tenho esperança de que vou ficar ainda mais resistente se com esta atividade continuar. Tenho minha mesa cativa neste bar, pois venho nele todas as santas tardes, ensolaradas ou não, sempre estou aqui. Sei que a visão desta gorda se abanando com o pano, ou com a faca, ou com guardanapo, ou com a tampa do pote de margarina para afastar as moscas que atacam sua cara não é a melhor visão do mundo. Creio até que está muito longe de ser também. Mas o fato é que me sinto bem nesta espelunca, pois as cervejas estão sempre na temperatura que gosto de consumir. Sendo que tal temperatura não posso precisar qual seja pelo fato de eu não ser um termômetro.
Então vi, numa cálida tarde onde os asfaltos se derretem de tanto calor, um velho com um pé de plástico acompanhado por um ser que, desconsiderando o grau alcoólico em meus pensamentos, mais as idéias tolas e furtivas que me bombardeiam frequentemente, poderia jurar ter a aparência de um macaco, entrou no bar com dificuldades e se largou impacientemente na banqueta em frente ao balcão. Entranho; pensei. Que vieram esses dois fazer num boteco mal visto como este, tomar suquinho de beterraba com banana? Continuei pensando.
Gostaria de poder, talvez, trocar algumas idéias com esses tipos, pois já estava cansado de transformar minha linha de pensamento, da qual eu compartilhava com um banguela que piava feito um passarinho, em monólogo. Feito que este sujeito, que só me olhava, piava, arrotava chocho e cheirava a oxidantes ainda tinha a pachorra de arregaçar sua boca e mostrar o vácuo composto pela ausência total de dentes... Deprimente tudo isso. Mas como ficar dentro de casa é igualmente horrível prefiro me afundar nesta cadeira que range e, consequentemente, afogar-me com algumas dúzias de cervejas.
Não acredito, minha sapiência fora posta no lixo, e meus pensamentos idem. Por quê? Cá estou a beber feito um porco, sentado ao lado de uma múmia que tem um vazio na boca e no crânio, pela falta de cérebro. E quando vejo um tipo que talvez possa me satisfazer com sua arrogância típica de quem já está com o saco cheio de tanto viver, sujeitos estes que geralmente tem alguma coisa para dizer além de palavrões e resenhas de novelas ou de telejornais vão embora sem dizer um simples "vai se ferrar". Simplesmente não creio nisto. Enfim...
-- Dona Jurubeba! É! A senhora mesma. Quer parar de rodar este pano nojento para me trazer mais uma cerveja? Estou sedento... Preciso beber para esquecer da vida, esquecer deste banguela estúpido que está aqui do meu lado, e obviamente, esquecer da senhora também, pois não suporto mais vê-la.
Versão: Dona Jurubeba
Ai, ai! Não agüento mais me desviar dessas moscas. Ai, ai, que calor! Vou derreter, vou morrer, vou virar banha. Pelo menos assim. Não consigo me concentrar, preciso urgentemente de um ventilador, ou de pega-moscas, ou de um repelente... Que será que aconteceu no capítulo da novela de ontem? Ai, ai, como posso pensar nessas coisas quando tenho de me ocupar minha mente em como livrar meu corpanzil sebento e repleto de gotículas de suor que brotam como se fossem chafariz de meus poros largos? Realmente não consigo pensar em outra coisa...
-- Alguém quer mais alguma cerveja?... Ei, você! Pare de vomitar aí no chão. Vá fazer essa nojeiras lá no banheiro, e depois dê a descarga, pois não pago a diarista para ficar limpando coisas que bêbados têm o hábito de fazer quando estão bêbados.
Ai, ai, penso que deveria comer algo, minha barriga ronca feito porca velha... Talvez aquele resto de paçoca que deixei a semana passada em cima da caixa registradora venha a calhar neste momento. E se meu marido não vier me buscar hoje? Como farei para voltar embora lá naquele cafundó. Um dia encho a cara de coragem e saio de casa para algum outro lugar... Mas que moscas chatas! Sabe, preciso parar de usar este pano para matar esses bichos, mais tarde terei de enxugar os copos para os fregueses que vêm no final da tarde... Mais bêbados... Ai, ai, é muito bêbado para uma mulher só.
Mario Bourges 00:05 [+]
Segunda-feira, Dezembro 04, 2006
Versão: Olga Ferro
Tinha tudo ao meu alcance, coisas boas e ruins para me deleitar. As crianças, sempre perto de mim a me adular... Por certo em busca de algum troco... Normal. Se isto é ruim ou bom? Ainda não sei o que dizer sobre isto, mas veja... Realmente... Ã... Não sei o que dizer. Agora, continuando com o assunto que, por sinal, nem era este, mas, enfim, que seja então. Meus sonhos com o Baltazar não paravam um instante, tinha-os sem parar, parecia até que ele queria dizer algo para mim, pois a todo o momento surgia a imagem dele nas paredes do apartamento, incluindo aí as do banheiro. Só não me perguntem por que disto. Mas tudo bem.
Certa vez cheguei a acordar com um peido alto vindo da cozinha. Imediatamente pensei que fosse do falecido, mas aí lembrei que era o Pereirinha que costuma peidar enquanto dorme. Agora me pergunto: por que este sujeito não vai dormir na cama como todo mundo costuma fazer? Fica aí pendurado no lustre da cozinha junto com uns morcegos e mais uns bichos estranhos... Se o Baltazar estivesse aqui com certeza tocaria todo mundo de lá para suas próprias casas... Mas... De onde estes morcegos? Ah, sei lá. Mas... Estes sonhos me intrigam profundamente. Tenho de averiguá-los.
Decidida a resolver isto de uma vez por todas fui ao cemitério com as crianças, mais o Pereirinha saltando esplendorosamente de um túmulo ao outro durante o trajeto do portão do lugar até o jazigo onde foi enterrado meu marido. O Azambuja, que estava visivelmente perturbado por não conseguir endireitar os túmulos como ele queria, e o Adalberto aterrorizando a todos com as músicas estranhas que seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves capta pelo mundo a fora. Certamente com uma trupe dessas nenhum malandro que tem o hábito de dormir pelo cemitério se atreverá a me atacar. Sinto-me até aliviada com essa gente numa hora dessas. Mas deixo bem esclarecido que tão só apenas numa hora como esta.
Estávamos todos lá esperando o miserável do coveiro voltar do banheiro, coisa esta que já passava de uma hora, para então podermos abrir o jazigo de meu marido e assim confirmar que ele, realmente, está tranqüilo neste lugar. Parece até loucura este tipo de coisa, mas desde criança ouço histórias de coisas que aconteceram sobre mortes prematuras e coisa e tal que fico até arrepiada em descobrir que o Baltazar estivesse enterrado sem que estivesse morto de verdade. Bom, o fato é que abrimos tudo, depois de um longo período de espera, pelo fato do tal coveiro, e vimos o meu marido lá, sentado, todo estropiado e falando sozinho enquanto batia com o osso do fêmur de um defunto vizinho na tampa do túmulo pelo lado de dentro.
Quase tive um treco quando vi a cena. Quase morri de susto. Quase... Sei lá. Já o Azambuja se jogou para dentro e foi arrumar o resto dos cabelos do Baltazar que estavam todos emaranhados. O Pereirinha deu cinco saltos triplos de alegria em cima da cruz do meu amado, digo, do meu marido. Já o Adalberto não fez nada, ficou simplesmente lá, procurando uma outra estação no rádio, pois aquela estava fazendo muito barulho, chiado e outras coisas que não sei bem o que eram. Bom, só sei dizer que o tiramos com esquife e tudo de dentro do buraco e levamos para um hospital para ver se estava tudo bem. Afinal de contas o Baltazar ficou vários dias fechado sem ter o que comer... Se bem que, pelo que me lembro, o osso do defunto que ele se utilizava para bater estava limpinho, branquinho... Mas... Sei lá. Agora ele está de novo ao lar. Concordo que está um pouco estranho, meio perdido e com a mente e o olhar longe. Mas acredito na recuperação do meu velho.
Versão: Baltazar Ferro
Aconteceu tudo aquilo que aconteceu, mas não verdade nada daquilo que aconteceu tinha, na realidade, de acontecer. Dias depois do fatídico acontecido descobri que estava deitado dentro de alguma coisa que não sabia o que era. Fazia frio, fazia calor, fazia de tudo e acontecia quase nada ao longo do tempo que por lá fiquei. Estava escuro, úmido, quieto, e, ao mesmo tempo, barulhento. Era estranho explicar o que era aquilo, o que tinha aquele lugar. Contudo, fiquei na minha, tranqüilo, eufórico, desesperado e perturbado. Bom, tirando o lugar do qual me encontrava, coisa que até então não sabia qual era, não havia mudado em nada a minha maneira de agir e pensar diante das variadas e enfastiantes situações que o cotidiano pode e consegue nos oferecer.
Um tempo depois eu praticamente me arrebentei por inteiro. Havia uma coceira e uma ardência fora do comum nos meus pés, pernas e barriga, mas tive de procurar esquecer da tal coceira por que simplesmente não conseguia alcançar tais membros. Bom, quanto à barriga eu podia vez por outra coçá-la, mas esta atividade também me aborrecia por completo. Sabe, sentia-me cansado da situação em que me encontrava, sem contar que minhas cordas vocais estavam pra lá de desgastadas pelo fato de eu não parar por mais de uma hora sem gritar. Além, é claro, de ainda estar com dores no saco, pois levei um baita chute daquele coveiro maldito dias atrás. Continuando; alguém deveria de me tirar de lá, o fedor de carne podre e urina e bosta era tamanha que... Sei lá.
Sem poder ver as horas, coisa que, aliás, nunca me fez falta, mas por estar ali, naquele lugar ermo, sem comunicação com ninguém, aquele detalhe de poder olhar inutilmente para o relógio me fazia falta. Mas aquilo, por sorte, não permaneceu por muito mais tempo. Num espaço de tempo que nem imagino quanto passou fui socorrido por um alguém que certamente por lá passava. O sujeito não me disse seu nome e também nem queria saber desta bobagem. Eu estava era louco de vontade de sair de lá, de onde estava. Do lugar que não sabia direito qual era.
Lembro-me ainda do estranho momento que estive lá no que dizem ser céu... Que grande bobagem esta, enfim; vou sentir falta da cerveja que bebia à larga no tal do paraíso. O tal sujeito que diz ser Deus confessou que eu era bacana e divertido, mas infelizmente não poderia ficar por que algum tolo engano confundiu a mente do porteiro, ou daqueles bananas que atendem os arquivos... Ah, estes tipinhos que não entendem nada de informática e ainda mentem descaradamente em seus currículos. Burocratas imbecis! Ah! Esses burocratas. São todos uns imbecis. Pensam que estão fazendo um bem para a empresa que trabalham, mas no fim acabam é fazendo cagadas. Isso sim. Pensei desta maneira, impaciente, com minhas nádegas e costas amortecidas de tanto tempo deitado neste pequeno espaço. E ainda, com minhas pernas ardendo e coçando sem parar.
Então, como ia dizendo; alguém abriu, digo, escancarou a tampa da coisa onde eu estava e me pôs para fora. Disse-me que era hora de eu cair fora de lá, mas nem fez questão de se identificar. Talvez isto nem fosse o caso também, pelo fato de ter em sua face milhares tipos de vermes e outros bichos estranhos. Tudo bem, não vem ao caso agora. Além do quê, tal visão me causa enjôo. Porém, não conseguia as forças necessárias para tirar a tampa de cimento que me cobria naquela escuridão sem tamanho. Tenebroso, eu diria para qualquer um que perguntasse qual foi a sensação que tive naquele momento tão único em minha vida. Sabe, tive uma lembrança de casa na hora, mas era falha, perdida, fragmentada. Lembrava de meu lar como que por esquecimento entende? Não? Pois é, nem eu. Mas que importa isso também.
Na verdade eu estava meio perdido no tempo, na vida, mas depois alguém arrebentou com uma marreta, pelo menos foi com isso que me pareceu terem usado para destruir aquela tampa de cimento. Então, como em um passe de mágica, a luz se fez em meus olhos tão embotados, tão alegres, tão pueris, tão salgados e tão sem parâmetros. Depois disso me arrancaram de lá de dentro e me tacaram dentro de um carro e me levaram às pressas para um hospital... Creio eu, ou para um outro purgatório... Sei lá. Estou tão confuso por estes tempos. Mas tenho certeza que conseguirei entender o que me aconteceu ao certo. Só sei que, das minhas pernas não sobrou muita coisa. Fora toda comida pelos mais variados bichos, e agora parece que vou ter de usar uma bengala para me apoiar, além das espumas que enxertaram na pele para fazer um pouco de volume. Tudo bem, nem ligo para tais detalhes depois de tudo que me aconteceu.
Como disse; das minhas pernas pouca coisa sobrou inteiro, então resolveram fazer umas trocas. Fiquei sabendo que um dos pés estava carcomido na parte de cima, e deste jeito não poderia ficar, disseram os especialistas. Casos que colocaram no lugar um pé feito de plástico, ou de borracha, e com o que sobrou eles acondicionaram bem direitinho e enviaram para um supermercado na Alemanha. Segundo os médicos aquele povo costuma consumir membros deste tipo... e pagam caro por isto. Assim sendo deixei que o levassem para a venda. Pelo menos assim ganharei uns trocos em Euro com a tal venda. Ótimo.
Mario Bourges 16:37 [+]
Segunda-feira, Novembro 20, 2006
Olga Ferro (inspirando-se no marido pois é a herdeira direta deste blogue... grande herança esta)
Com o falecimento de meu querido... Quero dizer; do Baltazar, tudo mudou em nossas vidas. Não tenho mais com quem brigar. Por conseguinte, ando estressada, entediada, aborrecida e com mais uma coisa que não sei o que é. Dos netos vejo, vez por outra, uns sorrisos tolos, no entanto, a mais tola das coisas consiste nas lágrimas que saem de seus olhos nos momentos de lembrança, ou de fraqueza. Da sobrinha, desta, exclusivamente, pois temos outras mais, as reações não são muito diferentes de quando tudo aconteceu; choros, lágrimas, suspiros, risos, ainda que tolos, e mais uma outra sensação que não consigo identificar. Mas esta só acontece quando ela vê as fotografias de um rapaz que não sei quem é.
Agora, o mais interessante de tudo isso, se é que tal coisa seja considerada interessante, que este episódio, o da morte do meu companheiro, não afetou apenas a nós, membros diretos da família. O cachorro uiva todas as noites do dia em que é paga a aposentadoria do Baltazar. Por quê? Que sei lá eu, oras? Bom, quanto ao gato consegui curá-lo de suas intermináveis diarréias, porém, não pára mais de tremer. Estranho isso. Mas também basta das a ele uns goles de cerveja que a enfermidade cessa quase que num passe de mágica... Acho isso muito estranho.
Puxa vida, como escrever é chato. Por isso meu velho vivia reclamando das coisas. Isto realmente aborrece de verdade. Mas preciso continuar, pois se ficar parando para tomar cafezinhos, e comer bolachinhas, e assistir aos programas de fofocas que passam na tevê, e olhar a vizinhança fofocando nas janelas ou andando feito baratas tontas pelas ruas certamente me dará vontade de cuspir nela, e aí, então, não escreverei nada. Coisa esta que também não fará diferença alguma na vida de quem ler ou deixar de ler isto que escrevi.
Sabe, a vida está passando sem grandes diferenças, quero dizer, até está, pois agora quem está saindo nos cafés sou eu. Logicamente que acompanhado pelas crianças e por minha filha e seu marido, sim, aquele trambiqueiro que vivia se envolvendo em... Trambiques, claro, e sempre que podia avançava no dinheiro do Baltazar. Mas tudo bem, deixa para lá. Agora a vida tomou rumos diferentes... Ai, ai... Bom, deixe-me pular esta parte senão meus olhos ficam marejados. Ah, voltei a bordar umas toalhinhas. Estão ficando lindas, apesar de serem horríveis, pois as ganhei de uma conhecida do mesmo prédio onde moramos... Uma chata, isso sim.
Olha, já não sei mais o que escrever, esgotou todo o assunto, esgotou todo meu vocabulário. Estou esgotada, sem ação, sem emoção, sem o Baltazar e com umas lágrimas insistindo em cair... Diabos! Que grande bobagem isto, chorar pelos outros. Realmente não faz meu estilo. Sei, sei, sinto saudades dele, concordo. Principalmente por que ele era o único que eu podia bater gostoso com qualquer coisa que tivesse em minhas mãos que não reclamaria. Chiava vez por outra, mas era divertido ver as cenas, as poses, ou sei lá o que mais que surgiam ao longo dos espancamentos. Mas é isso, cansei, definitivamente cansei de escrever. Contudo, certamente nos encontraremos mais vezes. As crianças querem aparecer também, coisa que o meu velho não permitia por se tratarem de jovens. E jovens tinha o mesmo significado de coisa burra para ele. Tudo bem... Não concordo plenamente com este tipo de pensamento... Mas... É isso. Até qualquer dia.
Mas querem saber de uma coisa? Ando sonhando com o Baltazar constantemente. Parece até que ele está vivo, ou coisa parecida, sei lá. Noite dessas escutei alguma coisa arranhando os vidros da sala, e quando fui averiguar vi o gato saltitando todo alegre de um lado para outro como se... Ah, sei lá. Está certo que tem algo estranho no ar, e não é do cheiro dos peidos do Pereirinha que dorme pendurado no lustre da cozinha junto com alguns morcegos, borboletas, moscas e mais uns bichos que não sei que devam ser. Mas... Tudo bem. Ah, tem outra coisa; sabe que a polícia estava bisbilhotando sobre a morte do meu marido? Especulavam sobre eu ter envenenado ele e coisa e tal. Olha, na verdade, o que talvez tenha causado um colapso em seu intestino tenha sido a seção de lambidas que deu em toda a minha cara quando tinha acabado de passar um creme à base de um ácido com não sei o quê. Coisa de mulher sabe? E agora fica essa gente xeretando, mas sabe o quê? Que se danem todos.
Estas figurinhas surgiram no meu sonho noite dessas para procurar alguma coisa perto da lápide do Baltazar. Muito estranho.
Aqui, o bichano, após as seções de arranhadas nos vidros da sala, da cozinha, na porta da geladeira... não consigo entender este bicho. Parece louco. Só se dava bem com meu marido... realmente muito estranho.
Mario Bourges 21:14 [+]
Quinta-feira, Novembro 02, 2006
Os dias passaram, a semana passou, tudo passou, menos eu. Fiquei a semana inteira deitado, ruim do estômago, da cabeça, dos pés, dos pensamentos. A vida passou pelas minhas ventas enquanto ventava com meus peidos ventosos. Meu quarto exalava a chope, a cachaça, a uísque, a vodca, a rum, a vinho, a água tônica com limão e a urina, fora o aroma intenso de vômito espalhado pelo cômodo. Um horror. Sem visitas, ligações ou insultos para me importunar a vida. Ainda bem. Falando em vida, ela parecia estar se esvaindo pelas minhas entranhas mal lavadas, e, por conseguinte, mal cheirosas também. E isto estava bastante perceptível, tanto por mim quanto para os de meu lar. Um horror.
Sentia-me assim, meio podre, meio mole, meio bundão, mas tudo bem.
Aromas se misturavam sem o menor pudor no quarto e no apartamento. O cheiro de canja que faziam para mim se misturava ao do peido, do feijão se misturava ao do pé-de-moleque, e assim por diante... Um horror. Quanto a mim; deitado, imóvel, quase imperceptível pelos outros naquela casa. Um horror. Vez por outra eu ouvia choros, risinhos e risadas vindo de outros lugares de meu lar. Merda! Será que ninguém respeita os outros aqui? Gritei não sei para quem. Aliás, ao longo desses dias havia mais conversas, risos, choros e anedotas por todos os lugares. Decididamente; não havia respeito naquela morada. Devia ser uma, ou uma dúzia daquelas fofoqueiras amigas da Olga que não paravam um só instante de matraquear.
A fofoca rolava solta pelas bocas moles de fofoqueiras.
Falando em Olga, dia desses senti um cheiro de aspargos vindo da cozinha... Nem veio me oferecer um pouco. Ninguém veio me oferecer nada. Ninguém me oferece nada. Jamais me oferecerão alguma coisa. Pensei em chamar algum dos meus amigos para uma visita. Assim, quem sabe, eu me distraia um pouco com aqueles malucos. Sabe; já estava cheio daquilo tudo; o aroma podre que se desprendiam dos meus sapatos, o azedo encalacrado nos lençóis, nas cortinas, na minha pele, na minha alma. Enfim, em todos os lugares tinha meu cheiro... Ainda bem, pelo menos conseguia me identificar com alguma coisa.
Aromas fortes, aromas fracos... enfim; aromas.
Tudo soava diferente, tudo soava estranho, tudo soava indecoroso, tudo soava destoante. Nada daquilo que eu via espalhado pelo quarto era meu. Assim que me indignei a observar, isso depois de horas e horas olhando o nada acontecer, digo, as moscas e as aranhas e me roerem diminutamente, percebi que estava trajando uma roupa, que até então não eram minhas. Pensei que fosse algum presente, mas depois pensei que fosse alguma roupa emprestada depois da bebedeira lá no bar do Odil. Mas isto também me pareceu estranho, pois ninguém veio cobrar a tal roupa emprestada... Mas e a minha roupa, o que aconteceu? Preciso informar que esta eu não gostei. Decididamente não gostei disto. Muito larga... Muito estreita também... Muito clara, ou talvez muito escura... Muito... Ah! Não gostei... Quero outra. Que vão trocar na loja, pois não gostei. Decididamente não gostei. Um horror.
Com uma roupa dessas você quer o que também? Logicamente que se eu pudessa tirá-la de mim assim o faria, mas...
Estava eufórico, estava enojado de tudo aquilo. Não conseguia me mover. Miseráveis! Ninguém vem me visitar é? Pensei aos berros enquanto tentava coçar o vão dos dedos do meu pé esquerdo. Vai ver foi alguma daquelas malditas moscas que cagou no meu pé. Continuei pensando. Diabos! Por que será não consigo me mover? Aquela situação me deixou muito, mas muito pensativo. Vez por outra ouvia rojões estourando nas ruas. Festa? Algum gol feito? Por quem? De quem? Perguntas surgiam sem parar em minha clausura inexplicável.
Eu sentindo frio, deitado, sentindo coceiras contínuas no meu pé esquerdo. Maldita coceira. Contudo, lá pelas tantas senti um cheiro mais forte de peido. Pensei que fosse meu cunhado, aquele metido a inglês, que come aquelas salsichas enormes com mostarda preta e outras coisas densas, saborosas e medonhas. De repente surgiu na minha frente um sujeito vaporoso dizendo umas coisas que não consegui entender no início, mas depois de alguns ajustes nos compreendemos... Quero dizer, não entendi nada. Falava ele de coisas que nem de longe faziam sentido para mim. Enfim; falava ele só de asneiras. Deve ser típica de sujeitos vaporosos.
Assim, deste jeito o tal veio até mim para me buscar. Sinceramente; medrei.
Disse-me ele, depois de muitos arrotos com aromas de lingüiça frita e cerveja quente:
-- É meu velho, você se ferrou mesmo heim! Disse-me assim o tal sujeitinho com voz arrogante enquanto ouvia uma música que tinha ares de Taj Mahal.
-- Que cheiro é este? Perguntei-lhe assim, deste jeito.
-- Ora meu velho Baltazar, este é o aroma que te aguarda. Puro, simples, sem frescuras... Gosta de voar? Imitar passarinho e coisa e tal? Perguntou-me assim o sujeito enquanto coçava seu saco enorme.
-- Não sei, nunca voei, nunca imitei passarinhos... Mas que merda de papo furado é este? Estava ficando eufórico com tudo aquilo.
-- Nada não, deixe pra lá. Respondeu-me assim o tal tipinho enquanto trocava de música, pois aquela outra já estava enchendo as paciências tanto minha quanto dele.
-- Veja que coisa boa; não precisará ficar mais aqui aturando essa gentalha toda. A vida, digo, a morte é muito mais que isso. Você poderá ouvir, se quiser, toda a minha coleção dos Beatles, ou do Tom Waits... Se quiser, é claro.
-- Como assim, morte? Categoricamente falando, aquele papo soava estranho por demais. Mas continuei investigando, dentro da minha capacidade de compreensão. -- Diga-me, você é Deus? Perguntei assim, sem rodeios.
-- Oh, não! Quem dera. Sou apenas um mensageiro dele. Disse-me assim todo pungido.
-- Sei, sei... Então não quero nada disso que me ofereceu. Só aceito se for do próprio Deus. Estranhamente respondi assim. Digo estranhamente por que tanto fazia este ou aquele na situação em que me encontrava. Contudo...
-- Valha-me então... Porra! Disse assim uma voz grossa, rouca, e cheirando uma mistura de algodão doce com churrasco. -- Ei, Baltazar! Falou-me assim a tal voz que vinha não sei de onde, e ainda, acompanhada de um cheiro de peido mais forte que a do mensageiro.
-- Pois não! Mostrei-me solícito, esperando com que tudo aquilo fosse um mero engano, ou sei lá o quê. No entanto, não conseguia disfarçar meu asco pelo forte cheiro de repolho azedo misturado com ovos pelo quarto.
-- Tudo bem, estou aqui. Qual é o galho? Você não me queria aqui? Pois cá estou, mas... Espere um pouco... Só mais um pouquinho... Ah, tudo bem. Esta é a melhor parte da música que acabei de ouvir. Sabe, agora estou ouvindo umas músicas em mp3... Mas não me desfiz de minha infindável coleção de vinil. Está toda lá, na minha casa. Devo ter uns 50.000 discos, sei lá. Foi um chute. Na verdade quem cuida, cataloga e coisa e tal é um anjinho meio boiola, tipo CDF, incumbido por mim, para esta missão. Mas... Quer um licor... Um vinho... Uma cerveja então... Que tal? Se quiser venha comigo, mesmo por que você não tem outra opção além desta. Teu negócio é me acompanhar. Teu tempo aqui, neste mundinho de merda já acabou meu caro. O lance agora é outro. Explicou-me assim, o todo poderoso.
Enquanto isso a folia em casa ultrapassava todos os limites. Até a polícia baixou por lá para amansar o pessoal que estava ensandecido. Uns gritavam de paixão, de falta, de saudades, de amizade e de amor, e outros gritavam de alegria pelo momento tão especial, no caso: a minha morte. Malditos! Espero que os quitutes que estão comendo façam mal em suas barrigas flácidas, pensei assim. Mas depois mudei de pensamento... Quis que realmente eles ficassem mal da barriga mesmo; com hemorragias internas e coisa e tal. Com dores que os fizessem se contorcer todos. Seria minha vingança.
Mas espera aí; estou morto!!! Porra! Como isto é possível? Pensei. O que fiz de errado para isto acontecer, continuei pensando nesta maluquice toda. Só posso estar sonhando, ainda pensando fervorosamente sobre o assunto. Daqui a pouco acordarei e tudo terá passado, insisti neste pensamento incompreensível. Um tempo depois alguém veio me ver deitado. Era uma criança imbecil com um sorvete imbecil pingando imbecilidades nos meus pés só para ver se acontecia alguma coisa. Sinceramente falando; quis esganar este pestinha. Ai, que raiva. Não poder fazer nada enquanto os outros abusam de uma incapacidade irreversível.
-- Como é Baltazar, vem ou não vem? Deixe este teu corpo moribundo apodrecer junto com este povo moribundo também. Eles não prestam. Você é melhor... Então deixe isto para lá, esqueça, pois é tudo uma grande besteira. Tudo isto já era, é passado. Disse-me assim Deus enquanto se inclinava para, discretamente, emitir um singelo peidinho apertado e sufocado. -- O lugar para onde vai agora é muito melhor. Portanto, erga esta cabeça um tanto quanto carunchenta e acabada, e venha comigo. Você certamente vai gostar. Tem uns caras que fazem um rock da pesada lá no meu pedaço. Ah, tem também uns mestres cervejeiros que te deixarão boquiaberto com tanto sabor que colocam nessas bebidas maravilhosas. Mas... Tem que vir comigo, e agora. Insistiu o bam, bam, bam dos bam, bam, bans.
-- Bom, neste caso, tudo bem... Tem charuto por lá? Sabe, isto de vez em quando vai bem. Expliquei-me para Ele.
-- Ora, claro. E dos melhores também. Tudo coisa boa. Mas agora dê cá a tua mão para seguirmos caminho. Porém, antes vista este traje. É necessário que você vista esta roupa, ela é própria para este fim. Evita que você se queime ou se congele ou tenha piripaques e transtornos desnecessários. Zicas estas que me aborrecem por demais.
-- Tudo bem, eu visto, mas cá para nós... Ela é ridícula. Botas prateadas, calças amarelo-limão fosforescentes, blusa cor-de-rosa, luvas cheias de graxa e um boné todo colorido parecendo um dançarino de funk, break, ou sei lá que merda de estilo musical isto pareça ser. Mas, se é para me proteger de tais problemas, vestirei esta coisa. Mas peço para que pare de rir de mim. Acabei de morrer, tenha respeito, oras. Esbravejei assim a Ele.
O cara é esperto mesmo, se aproveitou da minha fraqueza por coisas boas para me conquistar. Tudo bem, eu valido esta idéia.
Enquanto isso, na sala de casa, o Azambuja arrastava as cadeiras de um lado para outro freneticamente. Além do horroroso costume, era nítido seu nervosismo. Afinal de contas fomos amigos por um longo tempo. Já o Pereirinha chorava de cabeça para baixo, dependurado junto com os morcegos, borboletas, moscas, pernilongos e sei lá que mais tinha no lustre da cozinha. Aquela minha garrafa de uísque de quinze anos já estavam bebendo sem o menor pudor. Malditos. Eu nem cheguei a provar desta garrafa. Mas tudo bem, espero que passem mal por isso algum dia.
Lá pelas tantas chegou uma equipe de televisão para noticiar minha morte. Disseram que iriam fazer uma grande reportagem, mas no final das contas não filmaram nada e ainda, terminaram de matar a tal garrafa de uísque quinze anos. Depois comeram uns salgadinhos e caíram fora sem se despedir de ninguém. Tudo bem, em outro momento farei o automóvel ridículo deles capotar em alguma curva. E para completar chegou a turma da funerária cheia de pressa. Queriam a todo o custo me colocar no caixão e levar o quanto antes para o cemitério. Alegaram terem de ir à festa anual dos agentes funerários mais tarde. Também farei de tudo para eles se ferrem em algum momento de suas tolas vidas.
O que você faria se visse um pessoal estranho consumindo tuas coisas boas sem pedir permissão? Eu já nem sei mais o que faria.
Mas tudo bem, não tinha mais nada ali para eu fazer mesmo. Além do mais, estava ansioso e até eufórico para provar das magníficas cervejas que o mestre dos mestres me propagandeou. A pressa me impulsionava a abandonar o mundo que vivi todos os meus dias loucamente sem muito pestanejar. Por outro lado via tristeza nos olhos de meus familiares e amigos. Coisa esta que me deixou com dois tipos de sentimento; o primeiro deles animado por saber que ficaram assim pela minha morte, e o segundo ligeiramente triste por saber que tinha morrido de fato. Mas isto também já não me importava mais. O impacto inicial consegui vencer, que foi o susto, ou o medo, ou sei lá. Depois a idéia foi absorvida com certa complacência.
-- Então Baltazar... Pare de olhar para as bundas das ninfetas celestiais e vamos embora. Você olha demasiadamente para os lados, isto o faz tropeçar a todo instante. Sorte tua que não se machuca mais, por que senão estaria com os joelhos todos esfolados... Eia, bundinhas! Este aqui é o Baltazar, o velho Balta... Meu chapa. Cuidem bem dele heim. Disse assim Deus, aos berros, às meninas serelepes que saltitavam com suas roupas sumárias pelas nuvens. E eu, em festa. Com um enorme caneco de uma inigualável cerveja nas mãos e ouvindo um pessoal tocando umas músicas de primeira, paquerava aquelas safadinhas que rebolavam ao meu redor. Decididamente aquilo sim é que é vida, pensei. Quanto aos outros que ficaram no mundinho... Um dia voltaremos a nos encontrar. E quando isto acontecer faremos outra baita festa por aqui. E logicamente, regada com a melhor das cervejas.
A festa estava para começar. Ai, ai, que coisa boa.
Porém, no antigo cenário de minha vida a história estava complicada. O sol ardido era um prenúncio de chuva, e o pessoal se alvoroçava nos corredores do cemitério, se acotovelavam sem parar. Bom, azar o deles. O Azambuja, por não conseguir arrumar as tampas dos túmulos quando os encontrava mal encaixados urrava feito doido. O Pereirinha saltava de um túmulo a outro como se estivesse em máquinas de teletransporte. O Adalberto com seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves ouvia em bom volume umas músicas dos Tindersticks para embalar o cortejo. A Olga, os netos e a sobrinha choravam feitos não sei o quê. Que bobos. O Odil mais o pessoal do Distinto distribuíram chope para a moçada que lá estava. Os músicos do bar desta vez não tocaram... Isto por que a administração do cemitério não permitiu. Que bobeira não permitir este tipo de coisa. Enfim, o que fazer numa hora como esta.
Bom, nem preciso dizer que mais fogos estouraram pelas ruas no instante de me largarem no buraco. Até o prefeito e o ex-prefeito de Curitiba vieram prestar suas últimas homenagens. Pura coisa de político que não tem o que fazer. Mas tudo bem, não veria mais esta gente mesmo. Então, sem problemas. Contudo, depois que o cortejo fúnebre se desfez em sepultamento e coisa e tal todos foram embora ao som de choros, risinhos. Além das mazurcas piradas que tocavam no rádio do Adalberto no momento da derradeira despedida. Emoções fortes à parte era tempo de se desligarem de mim. Arre. Que encheção de saco tudo isso.
Após todos saírem num bloco compacto de trajes negros o coveiro se atirou sobre meu esquife e rebentou o cadeado que tinha na tampa. O motivo era simples, tirar toda a minha roupa. Se assim o conseguisse seria ótimo, pois não gostei dela mesmo. Parecia até roupa de defunto. Porém, o ignóbil ser fuçador de terras não alcançou seu intento pelo fato de estar costurada em meu corpo. E por isso, tomado de uma ira incontrolável chutou meu saco, deu um tapa na minha cara, além de cuspir em mim... Miserável. Um dia te pego. Ô coisa horrível esta que os pobres de espírito têm. Por esta, entre outras coisas, nunca vão sair do lodo onde se encontram. E tem mais, o dia que tentarem sair desta situação não deixarei também. Pode apostar nisso.
Mesmo depois de morto os outros não nos respeitam... mas que bosta.
Uma pausa insignificante para um café sem gosto... um riso sem alegrias.
Uma rápida passadinha pelo purgatório... sabe que até me deu vontade de permanecer naquele lugar, mas segundo o chefão seria melhor continuar com a viagem. Tudo bem.
Uma nova vida surgia em algum canto do mundo para acalmar os ânimos.
Quanto a mim; estava plácido. Despedi-me de meu mundo sem fazer alardes. Despedi-me de todos e saí. Saí pela porta dos fundos, para não fazer barulho.
FIM
Mario Bourges 01:14 [+]
Terça-feira, Outubro 24, 2006
De molho estava eu por uns dias afinco, por causa dos tantos outros dias que fiquei enfiado no mato, na montanha, no fim do mundo. Bom, a recuperação desta minha aventura estava difícil, afinal de contas, chutar flores, correr de abelhas e outros modelos de animais, além de apedrejar árvores, formigueiros, cupinzeiros e sei lá mais o quê, deixou-me enfastiado e exausto. No entanto coisas boas me aguardavam nos dias seguintes, ainda bem. Meus amigos, eufóricos, ligavam-me sem parar, mas como não tenho o hábito de atender a telefonemas nem os atendi. Mas isso também foi por uma simples conseqüência. Nada pessoal. Como descobri que eram eles que ligavam sem parar? Contaram-me mais tarde enquanto enchíamos a cara, ou quando eu lhes contava sobre meu isolamento de tudo e todos, sobre meu desenvolvimento como pessoa, sei lá.
Continuando; momentos após os incessantes telefonemas alguém tocou a campainha. Logicamente que não a atendi, assim de primeira. Gosto de fazer um pouco de suspense... Na verdade não gosto de atender à portas, ou à telefones, ou à janelas, ou qualquer coisa do gênero. Fato é que fui obrigado a atender desta vez por que não tinha mais ninguém em casa além de mim, do gato e do cachorro. Impressionado fiquei em saber que quem tocava a campainha e já partia para os murros e ponta pés na porta era o Odil... O velho Odil. Estava ele, parado, ali, com um sorriso largo e os olhos também parados a me convidar para a festa do quarto aniversário do Ao Distinto Cavalheiro.
Como ele sabia que eu tenho um pequeno problema com localizações ele mesmo se dispôs me pegar em casa. Assim sendo eu pedi um tempo para me aprontar e rumar com ele para o boteco. Tinha de aproveitar a ocasião porque não é sempre que o dono de um estabelecimento vem à minha casa para me levar à festas. Deixe-me agora encurtar um pouco desta história, pois ainda estou cansado das minhas aventuras. Chegamos todos (eu, o proprietário do Distinto, o Pereirinha, o Adalberto, com seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves, e lógico, o Azambuja) no bar dentro do super, hiper, duper e equipadíssimo carro do Odil. Aliás... Deixa pra lá.
Veja; o bar estava a ponto de explodir, de tanta gente que estava por lá. Políticos de todos os níveis hierárquicos faziam suas demonstrações beberrônicas naquela animadíssima tarde sem precedentes, além dos velhos companheiros de copos e dos habitués. Veja só que coisa interessante: neste ano, para comemorar mais um de existência do Distinto na vida dos que apreciam um belo chope, o Cirque du Soleil, aproveitando a passagem e quantidade exorbitante de dinheiro que arrecadou no Brasil, resolveu dar uma esticadinha e uma canja em Curitiba. Mais precisamente na festa do boteco. E ao som estonteante da banda de fanfarra eles fizeram suas mirabolantes apresentações.
Enquanto o pessoal babava, tanto de olhar as peripécias dos artistas circenses que pulavam de um prédio a outro feito pererecas gigantes, quanto de tanto beber. Falando em babar de tanto beber; muita gente ficou assim pelas calçadas, incluindo os artistas mais tarde. A festa desta vez terminou diferente, e com chave de ouro também. Sabe desses aviões que são utilizados para apagar fogo? Pois então; foi usado para despejar chope na moçada que estava espalhada pelo quarteirão. E quando deu um vôo rasante abriu as portas da aeronave e, literalmente, lavou a alma de quem estava por lá. Uns, inclusive, quase entraram em coma alcoólico de tanto chope que ingeriram. Para os jornalistas internacionais que lá estavam certamente publicarão que houve neste dia um verdadeiro dilúvio. Já os artistas foram embora com a onda de chope que foi gerada pelo avião. Menos mal, não agüentava mais ver aquele povo voando, e pulando e saracoteando pelas localidades. Ai, ai, mas é isso. Preciso tomar uns remedinhos para o fígado, estômago, cabeça, circulação do sangue e não sei mais o quê. Desta vez o day after foi assustador para mim. Agora preciso pegar um táxi aqui, neste hospital, que me leve para casa. Até semana que vem.
Estava todo mundo tão bêbado que até as mulheres resolveram mostrar que entendiam de malabarismos e coisa e tal. No entanto elas demontraram tais habilidades nos dois sanitários do bar. Trancadas. Logicamente que essas demonstrações inebriantes nos impediram de aliviar nossas bexigas, que, aliás, estavam cheias de pressões.
Como já estava todo mundo doidão de tanto beber, as únicas alternativas para aliviar tais pressões urinárias foram os parques e praças. O espaço mais disputado no dia foi o Parque Barigui, que ficou lotado de clientes do Distinto, todos fazendo seus xixizinhos ao ar livre. Ô coisa boa.
Enquanto o pessoal ouvia o grupo que tocava as músicas sem parar, e todos se acabavam de tanto tomar chope os tipos do tal Cirque du Soleil faziam suas apresentações... olha, foi até pena de ver, pois os gringos não conseguiram "bater" nos nossos artistas... esses adoráveis músicos que sempre vão ao Distinto para nos animar .
Mario Bourges 01:07 [+]
Sexta-feira, Outubro 20, 2006
As pessoas andam carentes de coisas boas em suas imprestáveis, maculadas e indirigíveis vidas. Percebo facilmente este tipo de coisa assim que vejo suas caras amarrotadas e empapuçadas de desgosto pendendo para os lados a lamuriar. Pensando nisso, e aproveitando o enorme sucesso de vendagem da Cartilha do Bom e do Mal Entendedor da Prática do Bem-viver resolvi escrever mais uma encheção de saco, digo, mais um livro aos ávidos por novidades... Àqueles que acumulam as porcarias nas prateleiras de suas enfadonhas casas como se estivessem guardando relíquias.
Bom, voltando ao tal livro; o título desta obra... Se é que isto possa ser chamado assim... Ã... É: "Anime-se, erga o queixo e cuspa para fora... Mas tenha cuidado para não sujar a casa". Concordo que o título ficou um pouco longo, mas reflete bem o significado dos meus pensamentos, e certamente fará com que o leitor também reflita sobre o significado de seus próprios pensamentos. Isto se tiver algum significado, ou mesmo, pensamentos em suas cabeças bolorentas também.
Veja; com tantas preocupações e ocupações de tempo sem sentido mostrarei, a partir de agora, alguns itens que compõe o tal livro. Mas também não divulgarei tudo por motivos de segurança... Minha segurança. Econômica, pelo menos. Por que senão todo mundo lê o que eu escrevo gratuitamente e eu não ganho nada com isto. Se bem que, tanto faz também. Nunca ganho nada mesmo. Então aí vai:
Item 1) Ao acordar cedo procure voltar a dormir o quanto antes para não se arrepender amargamente mais tarde. Isto por ter levantado naquele horário e ter deixado de aproveitar mais o conforto de seu admirável e confortável leito. Local este que costuma venerar e descansar. Agora tem uma coisa; se por um acaso você não pensar assim mude de leitura imediatamente e não me faça perder tempo em escrever isto aos que desejam contestar meus pensamentos;
Item 2) Se comer coisas boas é para você, um gourmet nato, algo fantástico, mas lhe privam de tal atividade frequentemente com desculpas de que vai engordar e vai morrer e vai explodir e qualquer coisa mirabolante deste gênero tente fazer assim: continue comendo, digo, degustando. Afinal de contas esta atividade é assaz prazerosa, e só tem efeito naqueles que realmente entendem de comida, e não de comilança. Porque aos comilões desejo, a todos eles, para irem se danar. Ã... Bom; continue degustando de seus preferidos, mas tenha cuidado para não te verem atacando a geladeira, ou o fogão, ou qualquer outro lugar onde possam estar os quitutes de sua preferência. Mas, se por um acaso te flagrarem com as mãos afundadas na comida diga-lhes que você escorregou e se apoiou na primeira coisa que surgiu na tua frente. Agora se o alimento estiver guardado, e muito bem guardado, invente uma outra desculpa. O importante é não dar o braço a torcer, pois é justamente disso que os futriqueiros se servem. Consecutivamente tal atitude fatalmente servirá de motivo para caírem no teu lombo e te fazer esboroar moralmente.
Veja; poderia aqui mencionar muitos outros itens. Discorrer sobre eles se assim fosse preciso, e se assim os quisesse também, mas passaria a escrever, quem sabe, muitas escatologias e outras coisas que talvez nem fosse sobre o mesmo tema. Assim sendo, detenho-me em apenas informar sobre a publicação de tais escritas, tais ensinamentos, tais descomunais e insólitas besteiras. E para completar gostaria de avisar que já cansei disso tudo. Vou é me sentar na velha e podre poltrona e abrir uma lata de cerveja. Quero me deliciar com esta bebida sem ocupar minha mente com coisa alguma... Você quer saber mais sobre o livro? Ora essa; nem quero saber das tuas dúvidas.
Esta foi a "bonitinha" que tentou organizar o tumulto formado na fila durante a noite de autógrafos.
Este foi o sujeito que estava agenciando meu livro. Mas não gostei dele. Depois que, com muito custo, foi vendido o décimo livro ele sacou de minha cerveja, abriu e bebeu tudo alegando que tal situação merecia festejar. De certa forma ele até teve razão, pois das sete horas que ficamos na livraria foram vendidos apenas quatorze exemplares, e ainda assim um foi por engano. Talvez a péssima venda tenha sido pela pouca divulgação... é isso. Só pode ser isso.
Ps: Quanto ao tumulto na fila que mencionei anteriormente, cujo a "bonitinha" suou para tentar resolver tal problema, explicarei agora: as pessoas, durante todo o momento que estivemos na tal livraria, pensaram que fosse alguma empresa farmacêutica oferecendo remédios aos transeúntes que se batiam feito moscas nas portas de vidro na rua.
Mario Bourges 18:13 [+]
Terça-feira, Outubro 10, 2006
Parte II... e final também
Não demorou muito, pelo menos assim penso eu, para conseguir carona. Como eu estava parecendo um xaxim ambulante, pelo fato de ter rolado uma montanha inteira, e ficar com os braços, e as pernas, e a cabeça, e as costas e o peito cheio de mato, grama e algumas flores... Odeio flores... Ã... Mais o cachorro urinando de quando em quando nas minhas pernas, e ainda, uma porção de abelhas querendo fazer uma colméia embaixo de uma das minhas axilas um carroção do circo me catou e me jogou no fundo do veículo para, na certa, fazer-me de atração em seus espetáculos. Ora essa! Que coisa mais absurda esta, pensei. Assim é que não posso ficar, continuei pensando. O que fiz? Como estava protegido pelas plantas tratei de me jogar do tal carroção para a estrada.
Por sorte minha o infeliz do cachorro estava agarrado nas minhas pernas, e quando caímos fui amortecido pelo animal. Bom, ninguém mandou fazer isso comigo. Continuando; lá pelas tantas eu lembrei de quem eu era e em qual sociedade eu vivia... Quase chorei por isso. Mas também logo passou esta vontade. Ainda bem, pois o vira-lata já estava com seus dentes à mostra para meu lado. Acreditei que isto não fosse nada bom, principalmente na situação em que me encontrava. Portanto, para manter o ânimo do bicho e mostrar a ele quem deve ser respeitado, dei-lhe um chute em sua bunda. Desta maneira ele continuaria andando, bem animadinho por sinal, e ainda, saberia quem é quem nesta história toda. Coisa esta que, aliás, não tem a menor importância também.
Só sei que lá pelas tantas, só não sei a quantas foram, consegui chegar em minha casa. Logicamente que estava acompanhado pelo tal cachorro. Na verdade, um grude, pois não me largava de jeito nenhum. E sabe que tive de conversar muito para conseguir convencer o porteiro do prédio de que eu era realmente eu mesmo. E que este vira-lata era o mesmo vira-lata, apesar de eu ter minhas dúvidas a respeito. Se bem que, como disse em outro momento, cachorro é tudo igual. Poderia ser qualquer outro que estaria valendo do mesmo jeito.
O problema é que minha senhora, a Olga, que saiu desesperada daquele lugar com meu fusca, não quis ficar com este cachorro. Disse que não era o mesmo, estava estranhando o gato, rasgando as cortinas, cagando pelos cantos do apartamento, urinando por tudo quanto é lugar, destruindo os chinelos e avançando em todo mundo que por ele passava. E o pior; ordenou com que eu devolvesse este monstro para seu devido lugar e resgatasse nosso antigo guapeca. Eu sinceramente não percebi muita diferença deste que estava com a gente do daquele outro que ficou lá na montanha. Enfim, eu é que não queria discutir com ela. Difícil é encontrar este vira-lata novamente. Bobão do jeito que é já deve ter virado sabão em alguma fazenda da redondeza, ou virado comida de algum gato do mato, ou sei lá o que pode ter acontecido a este infeliz. De qualquer maneira espero encontrá-lo logo por que não agüento mais esta situação vexatória.
Estes malditos animais foram os causadores de tamanha confusão em meu lar. Mas tudo bem, consegui resolver esta parada com certa facilidade.
Mario Bourges 22:32 [+]
Parte I
Cansado de gritar, cuspir e correr de um lado para outro sem motivos plausíveis, lógicos ou mesmo ilógicos, e ainda, xingar tudo quanto era ser que vivia naquele inóspito lugar, além de apedrejar tudo quanto era coisa que se mexia ou permanecesse imóvel, decidi que era momento de voltar para meu lar. Aquela situação me deixou irreconhecível até para mim mesmo. Os insetos, que outrora me se aproveitavam de meu sangue e de minha carne, também desistiram de mim. Estava tudo tão chato que não vi mais graça ficar lá, no meio do mato, no meio da montanha, no meio do nada. A única coisa, digo, os únicos seres que ainda ficaram lá foram as pulgas do cachorro. E veja, até o vira-lata, que logo na primeira semana de estadia naquele fim de mundo, sumiu de perto de mim.
O primeiro passo para a minha saída era realmente sair definitivamente de lá, e sem demora. Pensando desta maneira peguei todos os meus pertences; uma escova de cabelos, que servia tanto para pentear os fios solitários e conservadores tanto para escovar meus próprios dentes, quando assim lembrava de fazer. Meu surrado e praticamente esfacelado casaco que servia para me agasalhar durante as frias noites, e meus sapatos, que estavam praticamente em igual estado de conservação que o casaco. Resumindo; eu parecia um eremita, ou, um favelado mesmo.
Como estava sozinho não tinha ninguém que decidisse por mim. Eu podia fazer o que quisesse. No entanto, isto me causou pânico em alguns momentos. Numa proporção de quase todo o tempo que estive lá, pois não sabia direito o que fazer, nem como fazer, quando precisava fazer. Nem por isso deixei de me divertir, quando conseguia, e espantar meus fantasmas, que, aliás, eram muitos. Agora o que me deixou pensativo foi o fato de eu não saber como voltar. Mas a vontade deste ato era tão grande que o medo não me impediu de que eu realizasse meu intento.
Apesar da dúvida de como voltar eu me aventurei nesta empresa. E quando estava com a coragem sob meu peito inflado de paixão pela aventura meu cachorro voltou feito um desesperado da mata. Está certo que estava tudo diferente; latido, tamanho e cor da pelagem, mas como parto da premissa de que todo vira-lata é igual nem liguei, fiz vistas grossas para a distinção deste caso. Então, agarrado às minhas tralhas e dispondo de uma louca vontade de cair fora do morro onde eu me encontrava parti, junto com o novo animal de estimação, rumo à civilização. Percebi que necessito de humanos para rir melhor, pois esta raça me desperta tal vontade sem muito esforço.
Bom, logo no primeiro passo para descer a tão detestável montanha eu resvalei num cocô de passarinho e rolei morro abaixo. E quase um dia inteiro rolando aquela porcaria sem parar eu fiquei desacordado por algumas horas, ou dias, ou semanas talvez, sei lá. E quando acordei era dia, e fazia um sol danado, e queimava tudo, e aquilo me enfurecia muito, e eu não sabia o que fazer, e eu não sabia quem eu era direito. Isso queria dizer também que eu estava perdido. Mas tudo bem, sabia que em algum tempo eu recobraria minhas lembranças elevadas, e ao mesmo tempo, opacas.
Aqui ainda tinha a companhia da Olga, mas esta desistiu rapidamente de minhas tortuosas atividades como o selvagem da montanha.
Mario Bourges 22:24 [+]
Quinta-feira, Setembro 28, 2006
A montanha se revelava ótima para mim. Podia fazer coisas que até então nem sabia que podia fazer, como: gritar para todos os lados, ficar sem banho e peidar alto. Se bem que, a única coisa que não costumo fazer desta lista é gritar para todos os lados, pois o resto, para mim é normal. Continuando; a interação era total entre mim e a natureza. Quando acontecia de eu tropeçar e cair, coisa muito fácil de acontecer por sinal, nada de grave acontecia comigo além das tradicionais escoriações, arranhões e as grandes quantidades de mato encontradas diariamente em meus bolsos, ouvidos, olhos e boca. Enfim, acontecia tudo como planejado, salvo algumas poucas variações. Mas isso eu sempre tiro de letra.
Sabe; estou tomando predileção pela montanha. Aqui posso ser eu mesmo, não preciso mentir para conviver em harmonia com as pessoas. Sim; mentir. É de mentira que as pessoas se nutrem, elas adoram isto para serem feliz. Nunca vi alguém adorar um outro alguém quando este lhes conta as mais puras verdades. Esta história de lealdade não passa de bobagem. Conto da carochinha. Aliás, falando em carochinha; mulheres feias são abominadas pela sociedade, mas no íntimo todos querem ter um pé na feiúra, no abominável, no ridículo. Está no sangue dos seres ditos humanos.
Bom, enquanto acumulo raiva das pessoas ignorantes e burras eu fico aqui, sentindo o vento soprar na minha cara e a sentir o cheiro forte de mato e de bosta dos estúpidos animais que vivem na floresta. Além das incessantes picadas de insetos desmemoriados, feito à maioria dos seres humanos. Oras! Não sou humano, sou eu... Baltazar. Estou acima desta raça. Na verdade nem sei por que me indigno em comentar minha vida, estou de saco cheio de tudo. Quero ficar aqui na montanha para o resto da vida... Desses insetos, claro. Afinal de contas preciso de cerveja, uísque, conhaque, cachaça, vodca, licores e o que mais existir de quando em quando. E aqui, no meio do mato essas coisas não existem.
Preciso de chocolate, pudim de leite, algumas frutas, cerveja, uísque... Ah, já falei disto. Então, deixe-me continuar; resolvi ficar uma tarde dessas jogando pedras em alguns urubus que queriam comer as orelhas de uma cotia. Depois joguei pedras na própria cotia. Odeio tudo que seja burro, estúpido, quadrúpede, ou bípede. Portanto me transformarei num espécime com megapodes (pés poderosos). Quero chutar tudo, todos, com a força que não existe. Que ninguém conhece. Só para ver tudo e todos voarem longe após levarem meus ponta-pés. Mas por que estou dizendo isto? Que sei lá eu? Estou enojado de tudo, quero me isolar do mundo dos pseudovivos. Dos que pensam pensar. Dos que pensam existir. E principalmente daqueles imbecis que usam a indolente teoria de que se alguém pensa logo existe.
Vou gritar até o mundo não mais me agüentar. Arrancarei das entranhas da terra, todas essas estúpidas formigas organizadinhas feitas sei lá o quê. Cansei de ver o sol nascer num horário e se pôr em outro todos os dias. Cansei de ver tudo, cansei de sentir tudo. É tudo sempre igual. Características próprias inexistem neste contexto estranho e sem explicações plausíveis. Estou revoltado... Já rasguei todas as minhas revistas de mulher pelada. Toquei fogo no rabo daquele gato imbecil que rouba minhas cervejas. Ô, bicho escroto, nojento e mal-educado. Parece até com aquelas vizinhas fofoqueiras que a Olga as tem como amigas. Se é que posso chamar aquela relação estranha de amizade.
Na verdade o que eu queria fazer era xingar tudo quanto era coisa que se mexesse neste fim de mundo. Depois ouvir Tom Waits num volume ensurdecedor para eu poder gritar junto, em seguida ler Bukowski e xingar tudo mais ainda do que estava para fazer. Rolar na terra e no mato faria parte de minhas atividades insanas diárias. Arremesso de pedras em árvores, pássaros, borboletas e outros seres estranhos seria um gozo... No entanto, e mesmo que a Olga esteja pensando em fazer o mesmo que eu, não posso por em prática minhas idéias originais. Minha senhora se prontificou em marcar minhas pernas com uma vara de pescar que foi quebrada sem querer por mim enquanto eu a agitava para derrubar um beija-flor. Sabe, odeio flores.
Estou incomunicável, estou insuportável. Quero poder voar para cagar na cabeça de todos lá embaixo. Infelizmente não posso fazer isso por que não sei voar... E enganam-se todos ao pensarem que pássaros são livres por conseguirem voar. Aquilo não é liberdade, e sim condição. Mas, basta disso tudo. Não quero mais me enfastiar com pequenices do cotidiano. Voltarei para a leitura deste tal de Zaratustra do Nietzsche. Quem sabe não sou eu o super-homem que ele tanto menciona. Hum, talvez não, mas que importa isto agora também? A mim, nada. Então, se melhor me convier, voltarei na semana que vem com mais um de meus relatos semanais. Até.
Vista nº 1: De longe eu avistava os seres humanos se movimentando aflitos em busca de explicações. Porém, a pequenês da raça não permitia que a encontrasse. Por isso preferi me esconder de todos.
Vista nº 2: Não obstante, os tais humanos, mesmo sem entender do que se tratava aquilo no meio do nada em seus cérebros atrofiados, decidiram tomar posse de qualquer maneira. E eu, cansado de tanto conviver com aquelas pessoas ria sem parar enquanto chutava as flores dos bosques e apedrejava os beija-flores multicoloridos. Por isso preferi me esconder de todos.
Mario Bourges 16:34 [+]
Terça-feira, Setembro 19, 2006
Cansado de tudo e de todos resolvi dar um tempo no alto de alguma montanha. Cansei de ter de dividir minha cerveja com o gato de casa. Miserável! Ele bebe mais que eu e não fica tonto... Apenas com diarréia. Bom, azar o dele. Cansei também do meu cunhado metido à besta. Com pose de homem educado e cheio de pompa ele arranja mais confusão que pobre em fila de doações. Fiquei de saco cheio de ir ao café. Só dá velho naquele lugar, e um mais chato que outro. Passam a tarde inteira falando mal dos outros enquanto coçam seus imensos sacos que ficam amarrados nas próprias panturrilhas. De bares não me cansei, apenas não encontrei um bacana aqui perto de casa. E do Odil ainda não consegui encontrar, e meus amigos não sabem direito como faz para chegar aqui no meu novo apartamento. E se eles não sabem chegar aqui, consecutivamente não sei chegar ao centro da cidade. Táxi? Não quero dar dinheiro aqueles tipos bigodudos, carrancudos, abelhudos que transformam seus veículos em uma extensão de seus lares, e que têm um "q" de algum programa do chato do Silvio Santos, ou do chato do Faustão, ou do chato do Gugu, ou da chata e detestável da Hebe Camargo, ou de qualquer porcaria do gênero.
Assim sendo resolvi sumir por algum tempo. Até consegui convencer a Olga de sumir comigo para algum lugar. No caso, o topo de alguma montanha. O diabo que os mosquitos, pernilongos, borrachudos, vespas, abelhas, muriçocas, aranhas, baratas e sei lá mais o que me perseguem todas as vezes que saio da cidade. No entanto isto não me importou, pois comprei um estoque de repelentes. Justamente para evitar que viessem me importunar com seus zumbidos, zunidos, gritos, ruídos, picadas, mordidas, arranhões, beliscões e toda a sorte de infortúnio por parte desses míseros animais. Falando em animal, o único que trouxe junto com a gente foi o cachorro. Mas só trouxe por causa de um trato que fizemos, eu e ele, claro. Que trato foi este? Simples. Prometi-lhe que todas as vezes que ele estivesse perto de mim eu colocaria minhas pernas, relaxadamente esticadas, em suas costas macias. E o que ele ganharia em troca? Oras! Ficar em minha companhia. No meu ponto de vista isto já é bastante coisa.
Bom, e depois de ter subido o morro o que faria eu? Pensava constantemente. Certamente iria coçar meu saco que está amarrado nas minhas panturrilhas também. Iria tacar pedras nos passarinhos nas horas vagas, que, aliás, deveriam ser muitas. Iria cuspir para cima e esperar que um avião passasse bem baixo e carregasse minha saliva com seu vento. E se isso não acontecesse? Azar da saliva. Continuando; ira beber uma cerveja atrás da outra até não agüentar mais. Iria ouvir as lesmas cochicharem umas para as outras que os pêlos das minhas orelhas estão maiores que suas antenas. Iria arrotar o mais alto que pudesse. Iria chutar as bundas das borboletas enquanto elas tivessem comendo e defecando sobre as flores. Ah, iria chutar as flores também. Iria fazer o diabo na montanha. Que montanha escolhi para ficar? Não sei. Subi na primeira que o motor do meu fusca agüentou. Depois mais, assim que minha labirintite permitir, procurarei descobrir qual montanha é esta. Mas também se não descobrir qual é não vou me desesperar por esta falta de informação. Vou ficar aqui até quando encher meu saco de ficar aqui; sem bares, sem amigos, sem vizinhas rebolando com suas bundinhas arrebitadas, sem... Sei lá o que mais. Contudo, estas coisas não me importam neste momento. Vou ficar por aqui mesmo, talvez resolva virar adubo, ou coisa parecida. Ah! Tanto faz.
Uma das minhas atividades lá no alto da montanha era fazer isto: atrair os pássaros até minhas mãos, e depois dar um peteleco em cada um deles. A Olga não gostava de ver, mas também estava de saco cheio de tanto encher meu saco.
Depois que passava meus dias fazendo o que não se deve eu ficava sentado, junto da Olga, a observar o mato, os mosquitos, as borboletas se acabando nas flores espatifadas e pisoteadas por mim, e o cachorro a se coçar e a enterrar seus cocôs explosivos e lamacentos pelo terreno.
Mario Bourges 21:06 [+]
Terça-feira, Setembro 12, 2006
Dia desses estava eu lendo o livro "Assim Falou Zaratustra", do Nietzsch, na minha empobrecida e degenerada poltrona enquanto a Olga assistia aquele estúpido programa "De Olho No Insano" que passa em não sei qual canal. Enfim, uma chatice, pois de quando em quando vai um pessoal metido a intelectual para falar besteiras. Desta vez foi um sujeito para falar, mais uma vez, da criação de uma máquina de tele-transporte. Que daria certo, que não daria certo, que o invento seria importante para a humanidade, e depois, logo em seguida, ele se desmentia dizendo que tal invento seria ridículo e coisa e assim por diante.
Nisso, enquanto eu lia meu livro, comecei a escutar barulhos fortes de motor dentro de casa, além da ventania sentida pelo corredor e na sala onde estávamos. Meus olhos, que estavam derrubados sobre as páginas do livro se ergueram, e com um pouco de dificuldade conseguiram enxergar o motivo de tanto alvoroço pela casa. Era a Esquadrilha da Fumaça fazendo evoluções aéreas nos céus de meu bairro. Percebendo que se pudessem tirar proveito das janelas do prédio onde moro daria um efeito interessante à apresentação, e ainda, economizaria uns segundos essenciais para completar o tempo da acrobacia. Portanto não pensaram duas vezes. Enfiaram-se com suas máquinas voadoras para dentro de casa.
Até aí sem problemas, bastava apenas não se levantar dos lugares onde estávamos sentados que tudo estaria tranquilamente bem. Tirando pelo fato de a fumaça lançada pelos pilotos incomodar um pouco nada se alterou dentro de nosso lar. A Olga assistindo ao estúpido programa e eu com meus olhos escorregando pelas linhas do livro, ainda que sem enxergar nada pela fumaceira deixada no local. Agora quem estava realmente incomodado com os aviões entrando e saindo de casa era o cachorro e o gato, que por mais uma vez este fora acometido pela diarréia. Maldita diarréia; preciso dar menos cerveja para o gato. Penso que se continuar assim o bichano não ficará muito bem. Mesmo por que ele anda consumindo mais cerveja que eu ultimamente, e isto não é bom... Para mim. Se continuar desta maneira o gato vai querer, daqui a um tempo, tomar minhas garrafas de uísque também. Ora essa! Isso é que não pode acontecer.
E durante meus importantíssimos devaneios sobre gato, cerveja e uísque os aviões continuavam a se utilizar de meu apartamento para completar suas estúpidas manobras aéreas. Malditos sejam. Aquele monte de aviões passando pelos cômodos de casa estava me incomodando. Muito barulho, muito vento, muita fumaça. Continuava com os olhos se dependurando pelas páginas do livro, mas já não conseguia entender aqueles pensamentos confusos e romanceados do Nietzsch. Aliás, creio que nem ele mesmo conseguia às vezes entender o que escrevia, ou ainda, se fazer entender através de suas escritas alucinadas.
Enfim; depois de quase uma hora com aquela bagunça toda no meu apartamento resolvi dar um fim nesta bagunça toda. Levantei-me pacientemente e enfiei os pés nos chinelos. Dirigi-me então até a janela do quarto por onde entravam essas máquinas voadoras. Posicionei-me lá com cara de mau, com cara de quem está com o intestino ressecado durante uma semana, e fechei a dita janela na cara de um dos aviões. Em seguida corri, e corri muito... Como pude, claro, para a janela da sala para fechá-la. E sem dó nem piedade fechei a outra janela impedindo o tráfego besta de aeronaves no meu lar. Percebendo que a folia aérea havia terminado naquele lado da cidade os pilotos rumaram para outro lugar. Ainda bem, pois eu já começava pensar em lançar sobre os aviões aquela minha deplorável poltrona.
Bom, para terminar com isto de uma vez por todas, resolvi dar uma volta na quadra. Respirar um pouco de ar puro, ou quase puro serviria para ajudar meus pulmões a expelir aquela maldita fumaça que fedia à gelo seco, à chulé, talvez por causa de meus chinelos suados que ficavam bem no trajeto dos aviões, à merda, proveniente do gato que estava com diarréia, e à urina, tanto minha quanto do gato, além, é claro, da minha velha poltrona velha. Quanto ao programa que a Olga assistia, para variar não deu em nada. Os convidados que lá vão nunca conseguem concluir nada.
Este era um dos pilotos que estava voando dentro da minha casa com seu estúpido avião.
Aqui as moças... as soldados, ou as soldadas, sei lá, fizeram um desfile gracioso diante das câmeras e do Presidente of Republic du Brésil.
Mario Bourges 18:42 [+]
Terça-feira, Setembro 05, 2006
Dia desses fui a um bar, por convite de um vizinho abobalhado que mora no mesmo prédio que o meu. Como não tinha nada para fazer resolvi topar o convite, mas para não ter problemas com sorrisos forçados, pois odeio sorrir forçadamente, ainda mais para vizinhos, ou ter conversas cansativas e desnecessárias sobre qualquer assunto, chamei meu cunhado para nos acompanhar. Desta maneira ele serviria de barreira natural entre eu e o tal vizinho. Não estou bem acostumado ao novo bairro em que estou morando, então dependíamos do sujeito para nos guiar pelas ruas, ruelas, avenidas e as possíveis picadas existentes na região. O Odil talvez nos esperasse em seu novo e imenso bar naquele dia. Pelo menos é o que penso, mas preciso saber como me virar sem ajuda de ninguém por aqui antes de me aventurar novamente pela cidade.
E lá estávamos nós, acompanhando um tipo que mal sabia quem era pelas calçadas tortuosas, onde eu tropeçava aqui e acolá em movimentos constantes e ritmados. Parecia até algum passo de dança. Já meu cunhado, cheio de pompa com sua, agora, inseparável bengala, não apresentava problemas para caminhar sobre aquela quase pista de motocross. Realmente ele tem muito estilo, ainda que seja, de quando em quando, muito chato. Bom, continuando; a nossa sorte que ele, o sujeito, parecia ser camarada. Até confiável, desde que não fosse exigir muito desta confiança.
Então, depois de caminhar um bom tanto chegamos num bar onde, a princípio, nada tinha de especial. Sentamo-nos em uma mesa perto de um pequeno palco e pedimos uma cerveja cada um. Sem demora a conversa tímida fluiu como se fosse entre mortos em seus túmulos; a mudez nos assolava impiedosamente naquele momento. Assim sendo eu aproveitei para sonhar, pois já me encontrava dormindo mesmo, e há muito tempo. Estava cansado de tanto caminhar e tropeçar. Contudo, depois de um tempo acordei e vi um monte de gente espalhada pelo boteco. Todas conversando e esperando a música começar.
Uns minutos mais e meu cunhado viu um dos músicos subir ao palco trajando o kilt (tradicional saiote usado por escoceses e irlandeses) acompanhado de um violino e mais um outro instrumento que parecia ser uma flauta. Mais tarde descobri que o nome do instrumento era tin whistle. E assim que o viu começou a saracotear na cadeira. Meu parente estava eufórico, queria xingar o sujeito, não sei por quê. Nem o conhecia. Enfim; a música começou a ser tocada pelos vários integrantes do conjunto. Violão, tin whistle, violino, acordeão, contrabaixo, bateria e um tal de didgeridoo (instrumento usado pelos aborígines do continente australiano - informação esta cedida pelo próprio músico que o tocava na apresentação) tocados com alegria e muita bagunça.
Mesmo vendo meu cunhado surtar pelo fato de tocarem músicas irlandesas em vez de inglesas eu resolvi fazer minha própria festa. Peguei minha garrafa de cerveja quente e fui pular, ou pelo menos penso que fui pular, diante do palco. A partir deste momento não vi mais nada nem ninguém. Logo mais acordei num quartinho onde ventava uma barbaridade. Era de manhã. Estava frio. Era dia seguinte. De repente vi o porteiro do meu prédio a me observar do lado de fora do tal quartinho. Como já disse, estava frio, então ele queria esquentar sua marmita num pequeno fogareiro que tinha no pequeno cômodo.
Neste momento fiz o que tinha de fazer; espreguicei-me e procurei me ajeitar, mas como já havia acordado resolvi me levantar e rumar para meu apartamento. Afinal de contas meu lar era melhor do que onde eu estava. Pelo menos tinha uma cama decente. Quanto à bronca que levei da Olga? Oras, nem ligo mais para isto. Além do quê, dentro do conceito dela já faço parte da "prata da casa". Virei peça de decoração... Um bibelô. E no meu entender um bibelô precisa ser cuidado, muito bem cuidado. Pena que o entendimento da Olga em relação a cuidados com bibelôs seja diferente do meu. E esta divergência me deixou marcas de havianas nas pernas... Mas nem ligo... O que aconteceu com meu cunhado e o tal do vizinho? Que sei lá eu? Meu cunhado depois que levou um sopapo se aquietou no canto. Quanto ao meu vizinho, não faço a menor idéia.
Aqui era o conjunto todo reunido para uma inspirada fotografia diante do público no bar.
Mario Bourges 22:52 [+]
Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Ao longo de nossas vidas procuramos métodos eficazes ou simplesmente maneiras agradáveis de viver a vida da melhor maneira possível. Pensando desta maneira resolvi criar uma cartilha, e assim surgiu a "Cartilha do bom e do mal entendedor para a prática do bem-viver". Bom, talvez não tenha tantas dicas assim a ponto de pô-las em uma cartilha. De qualquer maneira, sei lá. Mas pelo fato de existir alguma coisa a respeito já serve de alento. Assim sendo, você, leitor, homem, sabido, ou que pelo menos pensa ser sabido, poderá, de próprio punho, escrever tais dicas em qualquer canto de sua casa. Quer um exemplo? Atrás da porta do sanitário é ótimo para anotar o que tenho a vos dizer, ou se preferir, em qualquer parede da casa. Então, sem mais delongas, vamos a elas:
Dica nº 1: Ao acordar pela manhã, coisa que não precisa ser muito cedo, por que senão poderá caracterizar que você está com a idade avançada, e aí estes ensinamentos não adiantarão em nada, pois dedico esta cartilha, ou seja lá o que for isto, a jovens... Ã... Continuemos então; onde foi que parei mesmo? Ah, sim; assim que acordar não saia da cama. Aproveite melhor o que ela, a cama, tem a lhe oferecer. Mas se ainda assim quiser se levantar então faça, mas faça com dignidade e não lave o rosto quando for ao sanitário. Pude comprovar ao longo de minhas experiências que tal atitude agride demais a pele. Por conseguinte, agride também o magnífico despertar do ser humano para o dia que o espera. Além do quê, agride com violência os pensamentos, ainda que sejam turvos e pueris.
Dica nº 2: Procure abolir a prática de dizer Bom Dia aos outros. Por quê? De que adianta isto? Logo mais tarde, a pessoa para qual disse "bom dia" inventará alguma mentira sobre você, ou até mesmo te xingará. No entanto, se a sua educação insistir nesta bobagem, faça isso só se for para melhorar o seu próprio dia. Neste caso faça diante de espelhos.
Dica nº 3: Ao fazer o desjejum procure não comer demais, ainda mais se tiver o hábito de acordar tarde, ou adquiri-lo depois que ler estas dicas. E o motivo é simples, para não dizer, óbvio; na hora do almoço poderão conter pratos dos quais você gosta. Mas, se por um acaso não tiver nada de bom para comer, procure furtar algumas frutas, iogurtes, bolachas ou qualquer coisa que tenha na cozinha para saciar sua fome. Se bem que, para o bon vivant não existe a palavra fome, e sim, apetite. De qualquer forma procure ser mais esperto, por que senão outro que mora com você certamente será.
Dica nº 4: Se por um acaso der vontade de sair às ruas para passear simplesmente, não se envergonhe disto, pois é normal tal vontade. E se ainda, neste passeio, der vontade de se embebedar, siga em frente com seu plano. Não há nada de bom em passar vontades. Porém, se você for daqueles que gostam de entornar canecos tome cuidado. Seja precavido. Anote num pedaço de papel seu nome, endereço, telefone (seu, de parentes, de amigos e de quem mais vier em sua mente, ainda sóbria), mais um dinheiro para voltar de táxi. Mas não fique chateado se os teus familiares, amigos, ou seja lá quem mais, não quiser te receber em casa. Às vezes tal reação é normal.
Dica nº 5: Quando for passear no centro da cidade e algum engraxate quiser engraxar seus sapatos não se faça de rogado. Deixe que ele tenha o prazer de te fazer um agrado, ainda que você só use tênis. Agora o importante é não mostrar os dentes para essa gente. Isto poderá significar fraqueza da tua parte. E se, por um acaso, o tal engraxate pedir algum dinheiro pelo serviço, finja procurar pelos bolsos. Certamente ele entenderá se você disser que não tem trocados para lhe pagar. Agora, se não entender o teu lado e começar a gritar, e a se espernear, e a gritar novamente, se faça de desentendido e caia fora desta situação vexativa o quanto antes. Não costuma ser bom o resultado de um enfrentamento como deste tipo.
Dica nº 6: Ao encontrar com amigos, os verdadeiros de preferência, procure ser sincero. Mas não seja muito sincero senão poderá perder tais amizades, pois sabemos que nem todos têm estrutura psicológica para entender todas as sinceridades. Além do que eles são muito poucos circulando por aí, no entanto com muita paciência para te agüentar.
Dica nº 7: Quando for escalado pela "patroa" para ir ao mercado ou à feira fazer compras, uma inocente desculpa de que você não pode ir naquele momento não faz mal a ninguém. Mas se for fazer isto mesmo faça de maneira convincente, e tenha uma boa desculpa para dizer à ela de que não irá nestes lugares, por que se ela descobrir que isto é apenas pretexto para cair fora das obrigações, ou seja lá que nominação se dá para estas besteiras, o cabo de vassoura poderá cantar na tua cabeça, ou arder no teu lombo.
Dica nº 8: Compre pães de vez em quando. Isto não afetará sua masculinidade como dizem por aí. Mas lembre-se de levá-los para casa, claro. Sua senhora sentirá orgulho desta atitude. Logicamente que isto lhe renderá créditos para dar as famigeradas escapadelas com direito às bebedeiras de praxe com os amigos e fazer feio no boteco. Daí a importância de cultivar amizades. (Vide dica nº 6).
Dica nº 9: Se você for convidado para assistir televisão na casa de algum conhecido, seja categórico e diga-lhe que não poderá naquele momento, seja qual for o momento, é mister que se evite tais convites. Comentários ferinos poderão surgir a respeito da programação assistida. E muitas pessoas poderão não entender teu ponto de vista sobre o maldito programa de tevê.
Dica nº 10: Festas de aniversários são sempre bem-vindas. Porém, saiba selecioná-las para não entrar em apuros. As melhores são as infantis por revelar as fantásticas quituteiras perdidas no bairro onde você mora. Contudo estas festas são um inferno. Crianças correm de um lado para outro até que uma delas tropeça nos teus pés e se arrebenta adiante. Notadamente perceberão que você não teve culpa, mas ficará marcado pelas mães dos pestinhas pelo resto da festa por alguma razão que desconheço. Já as festas de adultos não tem esta gritaria peculiar que a anterior possui, nem incessantes correrias, nem doces largados na cadeira aonde você vai se sentar. Por outro lado nesta não tem nem doces nem salgados decentes. Tudo vem de uma empresa qualquer, e feita de qualquer jeito. Em compensação tem bebida grátis e música que pode soar decente nos ouvidos. Qual o lado ruim disto? Precisa-se engessar a cara com um belo sorriso amarelo e fingir que está tudo bem. A sociedade gosta de ver pessoas com sorrisos amarelos.
Bom, poderia eu aqui ficar escrevendo mais algumas dicas para vocês, mas já estou me aborrecendo com esta história toda. Mesmo por que preciso urinar, tomei cerveja demais. Minha bexiga está a ponto de explodir. E desta maneira não consigo me concentrar. Então, neste exato momento, traçarei o melhor trajeto de como chegar ao sanitário sem derramar urina pela casa. Mas também se urinar pela casa não é culpa minha. Aliás, nunca é. Mas tudo bem, isto não vem ao caso agora. Até a próxima semana.
As pessoas depois que leram as minhas dicas ficaram assim, sorridentes. Agora falta saber se ficaram contentes ou abobadas.
Mario Bourges 17:26 [+]
Terça-feira, Agosto 22, 2006
Todos já perceberam como estão o rádio e a televisão nesta época, uma chatice sem tamanho por causa das propagandas dos candidatos a presidência, a governador, a deputado federal e estadual. Ainda sou eleitor, claro, e por isso tentei por uns poucos dias assistir a esses programas gratuitos que, na minha opinião, deveriam ser pagos para ser veiculado nesses meios de comunicação, porque daí talvez as coisas fossem feitas com mais seriedade. Coisa que até agora não vi, nem dos candidatos considerados sérios, muito menos daqueles que não tem nada haver com a ocasião.
Bom, o caso foi que acabei assistindo uma coisa dessas, e não gostei do que vi. Muita palhaçada é dita nestes horários destinados a coisa séria. Na verdade até que gostei, mas foi justamente das palhaçadas ditas, pois me fez passar as horas de maneira tranqüila. Rindo até, de quando em quando, principalmente assim que vi os presidenciáveis com suas promessas furadas, onde, logo nos primeiros dias de propaganda, um candidato desmoraliza o legado que um outro, do mesmo partido inclusive, acabou deixando para o populacho num passado não muito distante. Isto é a guerra pelo voto, não importa o que se diz para convencer os desmiolados e ignorantes que se engessam diante do aparelho de TV para assistir às incessantes novelas e os telejornais que, ao invés de explicar uma notícia confundem ainda mais as mentes fracas dos ditos "orelhas secas", ou os "bocas de burro". Mas infelizmente esta classe não tem culpa, pois tudo isso faz parte da estratégia dos que estão no poder; confundir é melhor e mais fácil do que explicar tudo direitinho. Promessas fazem o candidato ganhar, e mostrar o trabalho realizado não dá garantia de vitória.
Contudo, não estou hoje para expor meu ponto de vista em relação à política. Estou aqui é para contar o que me aconteceu de interessante, ou divertido, ou curioso, ou... Sei lá. Deixe-me seguir em frente com esta narrativa então. Estava eu pra lá de despreocupado em relação à vida ou qualquer outra coisa que exista na face da Terra quando escuto a campainha tocar. Certamente não fui atender. Não sou homem para perder meu tempo com atendimento de portas. Deixo esta atividade enfadonha e sem graça para as outras pessoas. Meus familiares, por exemplo.
Após muito tocar esta maldita campainha alguém se indignou em atender a maldita porta; era meu cunhado. Aquele pseudo-inglês. O sujeito tinha ido até em casa para me convidar a um imbecil e inútil passeio pelas plagas que nos rodeiam. Eu, por incrível que pareça aceitei. E lá fomos nós flanando pelas calçadas tortuosas como nossas adoráveis caras de tédio. Eu com meu chapéu todo estiloso, e ele, metido que só ele sabe ser, usando um chapéu coco além da bengala com cabo de madre-pérola. Tudo para fazer inveja a quem quer que fosse. Se bem que hoje em dia ninguém mais sente inveja de tais adereços. Em todos os casos lá estávamos nós tropeçando pelo caminho.
Lá pelas tantas passamos em frente a uma loja que dizia no anúncio da placa tratar de todos os problemas existentes no nariz. Que faziam desde limpeza com higienização completa até tratamento de beleza com direito a polimento e borrifadas de aromatizantes, além do embelezamento com purpurinas coloridas. Logicamente pensamos que fosse brincadeira. E crentes de que fosse isso mesmo adentramos na loja para ver que tipo de brincadeira era aquela. O proprietário era o senhor Angus O' Nareba; sujeito velho, barrigudo e narigudo... Muito narigudo. Então, continuando, aquilo que tinha entre seus miúdos e infantis olhos azuis parecia ser uma grande batata a ponto de brotar pela face enrugada, oleosa e carunchada que se encontrava perdida em meio a uma cabeleira vermelha, esbranquiçada e desgrenhada. Bem coisa de irlandês doidão. Falando em irlandês, assim que meu cunhado viu o velho arrastando a pança e o nariz pelo chão do imóvel começou com a zombaria. Bem coisa de inglês mesmo.
No entanto, a coisa ficou feia. Houve trocas de ofensas, tapas, puxões de cabelos e tudo mais, bem coisa do povo celta e do povo viking mesmo. E antes que meu cunhado matasse o velho à base de bengaladas no nariz, e o velho matasse meu cunhado à base de canecadas de chope eu puxei meu quase parente pelo colarinho até sairmos da loja. Não queria servir de testemunha para lado nenhum nesta peleja. Odeio confusão deste tipo. E após toda esta confusão resolvemos voltar para casa. Caminhar pelas ruas já estava chato demais, ainda que depois deste episódio eu começasse a rir da cara de meu cunhado. Coisa esta, aliás, que o deixa colérico. E isto o torna ainda mais engraçado.
Contudo, o fim estava por vir, e em grande estilo. Quando chegamos em casa havia um grupo de manifestantes usando placas, faixas, canções de protesto e outras coisas mais que me deixaram emputecido, e ao mesmo tempo lisonjeado, por pedirem para que eu participasse das eleições como deputado estadual ou federal, governador, ou até mesmo como presidente. Porém, disse-lhes que isso seria de... De... De dar no saco. Que não queria isso para minha vida. E depois de ter dito isto mandei todo mundo à merda por que estavam atrapalhando o trânsito na rua, além de me deixarem com dor de cabeça. E se por um acaso a polícia aparecesse para averiguar que tumulto era aquele mandaria prender todos que lá estavam. Realmente falando, não gosto de tumultos.
Mario Bourges 23:59 [+]
Sexta-feira, Agosto 11, 2006
Procurando por novas aventuras estava eu, com meus pensamentos voltados não sei para qual lado do mundo andava pelas ruas até que me encheu o saco disso tudo. Cansado de andar a manhã inteira, que começou às 10h e terminou às 11h25, estava pronto para tirar a tarde para descansar no sofá, ou na cama, ou na mesa da sala, ou até na minha destemida e horrorosa poltrona. Aquela que sempre me acompanha desde quando o Brasil passou a ser comandado pelos militares, mas isto não importa neste momento, nem a maneira que tal móvel chegou até mim, pois isso era coisa dos militares da época.
Então, depois que decidi em que lugar sentar tirei os sapatos e, apoiados com meus pés nas costas do cachorro deixei-os descansar enquanto este animal estúpido, lambão e desorientado emocionalmente, porém fiel, também descansava. Fazia bastante calor por esses dias, principalmente neste dia do qual estou narrando. Por isso resolvi pegar umas latas de cerveja para melhor passar minha tarde. Assistir aos programas que passavam na tv não estava nos meus planos, mas na falta de coisa melhor para fazer tive de me contentar com as porcarias que passavam no momento. Logicamente que não pude agüentar por muito tempo. Primeiro por que a vizinha do andar de cima não parava de arrastar aqueles malditos móveis, e segundo por que a programação é imbecil demais para qualquer ser humano suportar. Se bem que existe imbecil demais no mundo, e assim sendo, os programas que passam são ideais para essa gente.
Os fracos adoram ver os outros fracos mostrando suas fraquezas, por isso, imbecis assistem programas que também são imbecis. É justo. Mas que bosta! Odeio tudo isso. Veja só: nem a cerveja estava descendo bem desta vez. Havia algo de errado com a bebida, ou com meu paladar. Não sabia ao certo dizer o que era. Por isto ou por outras coisas que também não sabia dizer o que me causava indignação, resolvi ganhar as ruas. Talvez fosse melhor espairecer a mente com um pouco de ar... Abafado, seco, pesado e poluído. No entanto não me deixei acabrunhar com tais interferências, acendi um charuto e pus-me a caminhar tranquilamente por aqui e por ali sem que houvesse tempo para enfiar pensamentos absurdos em meu baú mental, ou na minha cachola, como queiram.
Acontece que a diversão é algo que não podemos ter sempre, mesmo por que é difícil de encontrar motivos para tanto, pois a maioria das pessoas são aborrecidas e mal-educadas, além de burras, tem um outro tanto de pessoas que são apenas burras. Agora, o tanto seguinte, o que restou, são bem agradáveis mentalmente falando, porém, acabam encalhando no quesito educação. Sentem-se donos da verdade, além do quê, enquanto falam com alguém, qualquer pessoa, imaginam-se como se estivessem no alto de alguma montanha e cuspindo para baixo, para acertar nas cabeças alheias. Só por pirraça. Portanto não devemos depender delas para nos divertir. Sendo assim, procuro evitar contato com pessoas ditas almofadinhas, aborrecidas, mal-educadas e burras. Como tenho raiva de gente burra. Tenho até vontade de apagar meu charuto no olho de alguém que pertença a esta raça altamente execrável.
Bom, mas enquanto fico aguardando poder apagar meu charuto no olho de alguém sem que isso me cause problemas vou por aí, caminhando pelas calçadas e pelas ruas atrás de um bar decente onde eu possa encontrar pessoas também decentes para se trocar idéias, ou qualquer outra coisa, desde que decente. Sabe; sinto falto do bar do Odil e de meus amigos, mas como não sei onde fica nem o bar nem a casa de cada um deles tenho medo de me perder pelas localidades. Pelo menos por ora. Dentro em breve, e espero que seja mais breve do que o breve costuma ser, saberei me localizar neste novo bairro, cujo nome ainda não consegui descobrir. Mas tudo bem, isto não é uma coisa que me faça perder a cabeça.
Tem vezes que perdemos a cabeça por algumas coisas que... sei lá. Desta vez me irritei com pessoas burras, e mal-educadas. Coisa que no final dá na mesma. Ah, mas afinal quem se importa com isso mesmo. Sabe, às vezes temos a impressão que procuramos trocar idéias com seres que não existem ou... deixa pra lá.
Mario Bourges 10:25 [+]
Quarta-feira, Agosto 09, 2006
Em busca de rumos saí de casa numa tarde dessas. Frio, fazia um pouco de frio sim. Ventava gelado na tarde em que resolvi me aventurar pelas ruas desconhecidas que compõem o bairro de minha nova morada. Nada mal, pensei. Encontrei duas panificadoras, uma quitanda, da qual se extorque até os últimos centavos de nossas algibeiras puídas, várias clínicas onde podemos ver, em uma simples tarde, dúzias e dúzias de velhos fazendo filas para se consultarem com os médicos que lá atendem. Além dos vários estacionamentos feios e mal estruturados com seus manobristas inexperientes que só fazem barberagens, e cometem os absurdos mais absurdos que se pode ter conhecimento. Logicamente que há, em todas essas ruas, um monte de maloqueiros que se auto-intitulam guardadores de carros. Normal.
Agora o mais importante para um bairro não é nada disso. O item mais importante para mim, e que compõe um bairro é certamente um boteco. E como estava conhecendo os lugares resolvi adentrar num dos infindáveis estabelecimentos maravilhosos desses que estão espalhados por todos os lugares. Então lá estava eu sentado num daqueles horríveis banquinhos de bar, olhando para vários pontos do ambiente, mas sem fixar o olhar em nada. E para completar esta cena estúpida pedi uma dose de cachaça ao leão marinho que estava atrás do balcão. Digo leão marinho por que parecia mesmo; um sujeito barrigudo, alto, com olhos miúdos e inexpressivos, que aparentavam estarem tristes ou mortos por serem divididos pelo nariz horrivelmente avantajado e vermelho. Ah, a voz do tipo estranho era algo muito estranha também, fazia jus ao porte do dono dela. Agora o bigode... O bigode era de lascar. Volumoso feito dois espanadores de pluma, um para cada lado obviamente, e ainda, comprido feito cipó.
Veja; pedi a tal cachaça mas não bebi, dei tudo para o santo. Quando veio o copo da bebida esqueci até de mencionar a vocês, mas o pequeno e quase insignificante bigode do tal barman estava embebido no meu pedido, como se fosse para melhor conservação das cerdas de seu adorno corporal. Já digo corporal por que realmente aquilo chegava a esconder o corpo de qualquer um. Parecia até uma saia daquelas havaianas que dançam hula-hula. Bom, caso este que não me apeteceu em dar uma bicada sequer no copo, que, aliás, estava todo engraxado. Parecia que tinha saído de uma churrascada ou algo parecido, de tão engordurado que se encontrava. Diante desta situação o homem, ou o barman, ou o leão marinho olhou para mim e, como se tivesse imaginando que eu não fosse pagar a conta sacou de mais um copo engordurado e pôs no balcão. Olhou-me friamente nos olhos sem dizer uma palavra sequer, depois esticou um de seus braços grossos e extremamente peludos para trás e pegou a garrafa com a mesma cachaça que eu havia pedido.
Bom, para resumir esta história grotesca; serviu-se de três ou quatro doses caprichosas sem abrir o bico para dizer um "a". Assim sendo me levantei com cuidado daquele banquinho que insistia em me derrubar, pelo fato de estar totalmente bambo, e fui-me embora em busca de coisa melhor. Ora, para completar esta enfadonha descrição acabei me perdendo no bairro só para variar. Como não sabia o nome da rua onde passei a morar, nem o número do telefone de casa pois ainda não temos uma linha telefônica, fiquei andando de um lado para outro até que cheguei num outro bar. Lá eu bebi umas doses de whisky e cachaça, conversei com bêbados, bêbadas e simpatizantes, crianças que iam lá para comprar bolinhas de gude e fios químicos, maridos e esposas indignados em ver seus respectivos cônjuges se afogando na bebida, e também conversei com quem mais estivesse por lá. Além de ouvir um disco inteiro do Fairport Convention numa juke-box velha. Para finalizar de vez com esta aventura, alguém, que não lembro quem, me levou para casa. O resto dos acontecimentos já é conhecido por vocês.
Talvez pareça sugestivo, ou simpático, tomar uns tragos com um sujeito desses para quem o olha pela primeira vez, mas depois que fica perto dele por um tempo tal vontade acaba se perdendo rapidamente.
Mario Bourges 23:50 [+]
Lá estávamos nós, um dia antes de amanhã, e um dia depois de ontem e depois de anteontem, eu de um lado, no meu novo apartamento, e do outro lado o tal vizinho imenso de gordo. Ambos debruçados na janela e se olhando. Talvez esperando que as crianças resolvessem sair no pátio para começarem a seção de tapas, socos, arranhões, pontapés e xingamentos entre eles mesmos. Estava tudo bom, não tinha sol... Queimando minha retina, ainda. O prédio do gordão estava fazendo sombra naquele momento. Então abri a geladeira e peguei uma lata de cerveja, pois estava bem quente na área de serviço. Local este em que me encontrava. E posso dizer com certeza que é o pior lugar para alguém ficar; apertado a ponto de dividir espaço com a máquina de lavar roupas, o tanque, os armários que guardam um monte de bagulhos e o monte de vassouras. Além de quente, claro. E para completar esta horrível lista, posso admirar, sempre que quiser, a visão panorâmica de um gordão e seu bigode de espanador debruçado no peitoril da janela.
Assim sendo olhei para aquela mancha enorme espalhada na janela do vizinho, que por sinal era o próprio vizinho fazendo o mesmo que eu, ou seja, nada. Bom, talvez existisse aí uma pequena diferença, a lata de cerveja que havia aberto. E continuávamos nós ali, firmes de fortes sem fazer absolutamente nada, apenas estancados cada um em sua janela parecendo dois gárgulas. A diferença que um era muito experiente, bem vivido, mal-humorado e bonitão, por exemplo, eu. E o outro que era gigante, e que não cabia nele mesmo, e que não se mexia nem para peidar. Coisa esta que por sinal era bem barulhenta. E quando acontecia uma dessas barbaridades a vizinhança toda saía na janela para reclamar. Muito chique esta situação; ver de camarote uma ópera bufa.
No entanto tive de sair imediatamente da janela da qual estava. E isto por motivos óbvios. Como estou morando agora perto do aeroporto um avião se preparava para aterrissar. Sendo assim ele baixou o trem de pouso e veio na direção do prédio, que fica entre seu objetivo e ele. Então aquilo veio baixando, baixando e baixando até que entrou na janela da área de serviço do meu apartamento e saiu pela sala acompanhado de um som ensurdecedor. Além da ventania que, se eu não estivesse bem agarrado não sei onde, teria ido junto com ele. E assim que me levantei para ver o estrago acabei vendo o gordão e seu bigode espalhado, tipo espanador, esparramados no sofá, ambos tirando um cochilo. Vai ver já está acostumado com esses absurdos.
Bom, quanto às crianças; não apareceram nesta semana. Talvez estejam se curando das escoriações sofridas na semana passada, ou qualquer coisa parecida. Só sei que estou me sentindo abatido, mesmo tendo algumas novidades para ver. Mas quem sabe eu me anime para sair passear mais tarde ao redor da quadra onde moro. Ainda não me aventuro a me desgarrar por aí, tenho um pouco de receio de me perder e coisa e tal. Por aqui tudo parece ser hostil; a vizinhança, os prédios, os vira-latas e os carrinhos de pipoca. Todos parecem estar sempre me vigiando. Até os malditos pombos que cagam nas capotas dos carros mal estacionados em cima das calçadas. Porém, esta história de pombos deixarei para outra oportunidade, se assim convier. Portanto, creio que seja isso. Até a próxima.
Este aqui é o pai de uma das crianças que costuma se estapear com uma outra que mora sei lá onde quando as tardes ficam quentes e insuportáveis.
Mario Bourges 23:32 [+]
Estava eu no meu novo lar tranqüilamente enquanto via tudo, digo, nada acontecer, só para variar. É, bairro novo, prédio novo... Quero dizer, nem é tão novo assim, ruas novas, pessoas diferentes, incluindo aí nesta lista de novidades as fofoqueiras que, além de serem novas, são diferentes e são inusitadas. Por que são inusitadas? Oras! Fofoqueiras sempre são inusitadas. Bom, a panificadora diferente que faz coisinhas boas para nos fazer engordar, e, por outro lado, minha vida que não sofreu grandes transformações. No entanto, como é tudo novo eu posso andar de pijama e chinelo na rua que ninguém vai reclamar. E também, se reclamar, não estou nem aí para as reclamações. Mesmo por que ninguém me conhece neste lugar mesmo. Portanto, se quiserem falar que falem.
Bom, depois que o pó assentou depois da mudança que nos deixou muito cansados, e estressados, e esbaforidos, e alucinados, e envenenados, e enfurecidos e envelhecidos de tanto que andamos de um lado para outro sem parar no apartamento e na garagem do prédio antigo, e depois no pátio, na garagem e no apartamento do prédio novo até que ficamos exaustos, enrugados, carunchados, enfadados e embotados. E ainda assim não conseguimos organizar tudo como deveria. Há coisas espalhadas por todos os cantos do apartamento ainda. Caixas e caixas de sapatos em cima da mesa de jantar, uns três ou quatro jogos completos de dentaduras na parte do congelador na geladeira... Não sei fazendo o quê, e mais uma sacola de inutilidades femininas que vez por outra é chutado da sala para o banheiro, do banheiro para um quarto, deste quarto para outro, e assim por diante.
Claro que a lista de nossas coisas não se resume apenas nessas que acabei de citar, tem muito mais porcaria que qualquer um consegue imaginar. Porém, já conseguimos dar um jeito nisso. Um pouco conseguimos guardar nos seus devidos lugares, um outro pouco foi oferecido entre nós mesmo para ver se um queria o objeto do outro e vice-versa. De mim ninguém quis nada... Tudo bem, é uma opção deles, mas também não quis nada de ninguém. Minhas coisas são muito melhores que de qualquer outra pessoa. Bom, o restante das coisas foi levado em caixas pelo porteiro, pela síndica, e por uma dúzia de crianças para a rua, para quem quisesse levar as coisas mesmo... Passaram-se três dias e ninguém levou nada ainda das 38 caixas espalhadas pela calçada. Sei disso porque tenho acompanhado a movimentação das pessoas que transitam pela região.
Veja só as coisas; ontem foi o quarto dia que estava em novo lar e já vi umas coisas que me fizeram alterar de humor variadas vezes. O vizinho de cima adora arrastar a mesa de um lado para outro. Não obstante arrasta as cadeiras também. Parece até com alguém que conheço... Depois vou perguntar se o nome desta pessoa não é Azambuja... Ah, não é. Sei onde ele mora. Continuando; não contente com a posição escolhida ele, ou ela, sei lá, trás de volta toda a mobília de onde tirou. E isso fica praticamente o dia inteiro. Já o vizinho do andar de baixo gosta de martelar, de vez em vez ele saca de sua ferramenta e taca-lhe na parede, ou no forro, ou no chão, ou na cama, ou no vidro... Um verdadeiro doidivanas. Isso realmente me deixa enfurecido, isso me tira do sério.
Por sorte tem coisas que me fazem rir entre uns absurdos destes, ontem na parte da tarde estava eu andando pelado pela casa, pois, fazia muito calor, quando escutei uns gritos chorosos e infantis vindo de fora do prédio dizendo:
-- Ah, larga... É meu. Dizia um.
-- Ai! Larga... Pára de morder meu braço. Dizia o outro.
-- Ah, larga... É meu. Dizia o primeiro.
-- Ai! Larga... Pára de morder minha orelha. Dizia o segundo.
Enquanto se desenrolava este assunto tão cheio de argumentos avistei ao longe, numa das janelas de um prédio ao lado, aquele ser que, no meu ponto de vista era para ser o pai de um deles dizendo... Nada. Ele simplesmente não dizia nada. Era um gordo muito gordo... Na verdade era imenso, e que apenas observava as duas crianças se morderem, se estapearem, se degladiarem, se arrancarem, se chutarem sem fazer absolutamente nada. Logicamente que eu fiz o mesmo. Debrucei-me na janela a fim de ter uma visão melhor dos acontecimentos. Contudo não pude ficar por muito tempo pelo fato de que o sol estava queimando minha testa, meus ombros e minhas orelhas imperdoavelmente. Mas tudo bem, pelo jeito vou ter muitas coisas para ver no decorrer dos dias.
Os tapas ecoavam no vazio das garagens... um som parecido com os desmiolados e suas cabeças ocas batendo nas paredes.
Mario Bourges 23:27 [+]
Terça-feira, Julho 18, 2006
De tempos em tempos precisamos fazer exames para ver se estamos com a saúde em dia. Bom, pelo menos é o que os médicos dizem. No entanto, como daqui uns dias vamos nos mudar, pois já encontramos nova morada (ainda bem), resolvi ir a um desses profissionais da medicina e coisa e tal. Precisava saber como é que meu corpo iria se comportar durante este evento tão perturbador e penoso quanto é o da dita da mudança. O diacho de tudo isso é que sempre, eu disse: sempre, os médicos pedem aquelas malditas coletas de urina e fezes. Mas como tinha de fazer... Fiz. Até por que cagar, mijar ou sei lá o que mais, não são coisas muito difíceis para mim fazer.
Então estava eu, dia desses, enchendo os potes que me foi dado, com as substâncias e quantidades necessárias para realizar os tais exames. Substâncias estas, aliás, coletadas em jejum. Mas até aí, sem problemas; fiz o que tinha de fazer... Com cuidado de não trocar os frascos na hora de fazer a arte, porque senão os resultados poderiam não ficar lá muito bons. Depois de tudo isso escolhi uma roupa menos chamativa para me vestir, e ainda, uma sacola decente para que eu pudesse carregar os materiais sem despertar curiosidades na população.
Enquanto o pessoal de casa corria atrás de toda a papelada necessária para satisfazer a imobiliária e suas ranhetices burocráticas, eu resolvia meus casos de ordem médica. Assim sendo, depois que fiz as tais coletas, e decidida a roupa para a ocasião, fui até o laboratório de análises indicado, munido de meus espécimes, e perfeitamente e carinhosamente acondicionados hermeticamente em potes de plástico devidamente esterilizado, logicamente. E todo este cuidado serviu para que nada em meus queridos exemplares, tanto o líquido quanto o sólido, sofressem qualquer alteração causada pela água, ou pelo ar, ou por respirações, ou pelas digitais de dedos curiosos.
Bom, lá pelas tantas, eu estava caminhado pelas ruas de um lado para outro no centro e já nem tinha mais lembranças do que fora fazer pela região, e ainda, carregando uma maldita sacolinha toda colorida nas mãos. Porém, assim que olhei para o meu relógio, afim de saber as horas, claro, percebi um pequeno aviso escrito: "levar meus apanhados reais ao laboratório de análises clínicas". Então, de volta à realidade estava eu, e o pior de tudo que já estava com fome e ainda tinha de entregar meus negócios no endereço indicado logo, pois tinha horário específico para entregar o material. E como não tinha muita escolha, já que gostaria de saber sobre minha saúde, pus-me a caminhar até o tal laboratório, mesmo com fome.
Contudo, no tal caminho, enquanto eu olhava uma vitrine de uma loja qualquer e coçava minha bunda por dentro das calças, um moleque passou por mim, em grande velocidade, e arrancou a pequena sacola com meus potinhos de minha mão e levou embora. Para onde levou não sei, mas com certeza o produto carregado deva ter causado uma grande surpresa. Ainda mais se o produto fosse para dividir com outros membros da gangue. Na verdade eu até gostaria de ver o moleque apanhando dos companheiros por ter roubado merda. Sabe, até consigo ouvir a gozação dos outros: "seu ladrãozinho de merda". Mas isso, claro, depois da surra e da mijada que deram. Mas daí, depois disso, como não tinha mais nada para fazer, por já terem eliminado uma etapa de meu dia, fui até o café para fazer meu desjejum. Eu estava realmente faminto naquela manhã.
Esta foi, sem sombra de dúvidas, a reação que o tal sujeitinho teve quando soube que roubou os potes de urina e de merda de um velho... digo, de uma pessoa com larga experiência na vida.
Mario Bourges 01:44 [+]
Quinta-feira, Julho 06, 2006
Esta semana que passou foi totalmente eufórica para mim, e acredito que até para o pessoal aqui de casa, decidimos nos mudar. De novo? Não! Na outra vez quem decidiu mudar foi a Olga, mais os netos e a sobrinha. Desta vez até eu quero sair daqui, encheu o saco ficar neste mesmo lugar. Não há nenhuma vizinha gostosa para se olhar, babar, ou dizer coisas insinuantes, ou algum vizinho bacana para conversar. Isto é por demais cansativo, tanto a mudança, assunto principal, como continuar morando no mesmo lugar, pois aqui tudo é chato. Mas prefiro me cansar fazendo mudanças que cansar à toa neste bairro idiota. Nada tem de interessante pela redondeza além de um bando de velhos xeretas e caquéticos, que contam vantagens, uns para os outros, sobre suas doenças que são: ou mais fortes, ou incuráveis, ou que não incomodam, ou que não são doenças.
Então, cada um de nós fez sua parte para agilizar na tal mudança. A Olga saiu com o neto para procurar casa, ou apartamento em outro bairro. A neta e a sobrinha saíram para outro lado, também a procura de mesma coisa. Quanto a mim; fiquei aqui em casa mesmo, estava de saco cheio de olhar para todas aquelas pessoas que saem às ruas. Sinto-me enojado com tudo isso; olhar para rostos que se deformam assim que passam por mim realmente me causa repulsa, pois todos trazem, em seus semblantes, desgostos, falsidades, tristezas, embotamentos e enfados piores que os meus. Além de grandes falsidades grudadas em suas bocas moles cheias de negócios brancos, do qual têm o hábito de chamarem de dentes.
Bom, como não tinha nada que fazer até a espera de alguma notícia sobre um possível imóvel encontrado, fui até a sacada do meu apartamento para fumar um charuto e tomar um brandy. Só para passar o tempo. Mas a sensação de tédio e nostalgia me tomou por completo. Fiquei a pensar coisas sem sentido, só para variar, até que me decidi acabar com tudo isso. Tomei num gole só aquele brandy, e apesar de ter me engasgado com aquele golão senti aquilo maravilhoso. E depois de ter ficado com os olhos vermelhos, tanto pelo efeito do álcool como da fumaça do charuto, ri, gargalhei até, mas claro, sem motivos para tanto. E sem mais para o instante sorvi o charuto até onde deu, em seguida arremessei aquele toco lá para baixo. Quis ver o salto livre do tabaco até se espatifar no solo de lajota.
Contudo, aquele toco continuava aceso e queimando. Com isso comecei a ver, com um pouco de dificuldade, algo queimando além do charuto. E aquilo que queimava parecia ser um fardo de papel que estava amontoado perto do muro. Vendo toda aquela fumaça resolvi pegar um balde com água para dar um jeito nisso. Com dificuldades consegui levar o balde cheio d¿água até a sacada do apartamento. Com um esforço sobre humano joguei a água para baixo. Porém, além da água o balde também se foi, e ambos foram dar na cabeça de um enxerido que saiu na janela para ver por que, ou pelo que, ou por quem saia aquela fumaça toda.
Mais que depressa eu me escondi. Claro, não sou bobo. No entanto não voltei mais à janela, ou sacada, ou qualquer outra coisa até chegar o final da tarde, que era quando eu estava com vontade de dar uma voltinha a pé pelas ruas. Foi aí que soube, quando passei pela portaria, de uma reclamação da família do sujeito que ganhou um banho de água e em seguida uma bordoada de um balde velho na cabeça. Logicamente que me fiz de surpreso com tamanha agressividade, e me ofereci, no que fosse preciso, para encontrar o desalmado que fez isto, mesmo que ainda tivesse feito sem querer. Os familiares, o porteiro e o síndico do prédio não entenderam minha colocação... Ainda bem, mas assim mesmo me agradeceram pela boa intenção. Logo após esta minha prestatividade furada que esbocei, fui dar minha voltinha pelo bairro. Mas como estava muito chato acabei voltando logo para casa. Falando em casa, tenho que tirar um dia qualquer da semana para ver se concordo ou não com a escolha feita pela Olga. Se bem que, tanto faz eu concordar ou não com tal imóvel escolhido, por que se ela gostar e quiser não tenho alternativa senão ficar quieto e efetuar o pagamento. Torço apenas para que não seja um outro lugar parecido com este que moramos. Mas é isso.
Veja se não tenho minhas razões para ficar apreensivo quanto as escolhas que o pessoal aqui de casa faz em se tratando de imóveis. Uma dessas moradias aí foi escolhida pela Olga e pelo neto... um tanto quanto tapado. Está certo que fica no litoral, até que gosto da idéia de morar no litoral... são ajeitadinhas mas... desconfio que não sejam adequadas para uma família como a nossa.
E este amontoado de coisas, da qual os construtores consideram como sendo um imóvel, foi escolhido pela neta e pela sobrinha. Ah! Elas têm uma mania de ver ou adquirir coisas modernas. Quanta besteira.
Mario Bourges 09:15 [+]
Sábado, Julho 01, 2006
Numa dessas tarde modorrentas onde não se sabe se está frio ou calor estava eu em um ônibus, com uma tremenda vontade de ir ao banheiro, por que minha barriga, impacientemente, demonstrava sua potência sonora para que todos do lotação pudessem ouvir os chiados, ruídos, estrondos e reclamações que ela podia e conseguia fazer. Logicamente que os outros passageiros acabaram me isolando num canto após ouvirem minha bizarra sinfonia e sentirem os baixos aromas de minhas obscuras produções. E não os condeno por isso, pois a coisa não estava nada agradável naquele momento.
Por sorte, de todos, que eu já estava perto do ponto onde iria desembarcar. Contudo, não esperei que o ônibus parasse por completo para descer. Simplesmente me joguei lá de dentro direto no asfalto. E aproveitando a velocidade pratiquei; como diriam por aí... Oras! Não sei quem diria o que por aí. De qualquer maneira eu fiz uma corrida contida até o prédio onde moro. Mas não me senti habilitado para chegar a tempo até meu apartamento, tive de emprestar o sanitário da portaria. Fato este que me deixou, mais tarde, como tema principal de reunião entre os outros condôminos. Tudo bem, pensei, azar o deles. Por quê? Simplesmente por que a portaria ficou interditada por mais de uma hora. Disseram que foi por causa do tal aroma baixo que produzi. Claro que tudo isso era mentira desse povo, mas, nem me importo sobre isso também. O povo sempre fala demais.
Então, quando finalmente cheguei em casa, continuando com minha narrativa, resolvi ler um livro qualquer. Sim, decidi-me pela leitura por que o futebol, pelo menos do Brasil, não está com nada. O assunto pelo qual havia me interessado era sobre a possibilidade de um homem voar... Não de avião, com asas nas costas ou jatos propulsores, ou qualquer coisa assim. A maneira de voar tratada neste livro era do estilo super-heróis, flutuando e coisa e tal. Impossível? Talvez ainda seja cedo para confirmar qualquer coisa sobre este assunto. Difícil? Certamente que sim. Tanto que, após uma dúzia de tentativas eu ainda não havia conseguido alçar vôo algum. No entanto, meus joelhos, cotovelos, pés, mãos, barriga, testa, queixo e nariz já apresentavam diferenças, visualmente falando. Mas a dificuldade, segundo os ensinamentos descritos no tal livro, faz parte do processo. E a impossibilidade, pode ser tranqüilamente possível e aceitável em casos como este.
Bom, se é possível voar eu ainda não comprovei, se a pergunta for: doeu? Com ampla experiência no assunto posso dizer que sim. Se eu continuaria com estes testes absurdos? Olha; digamos que não. Afinal de contas meu físico não permite testes tão duradouros e persistentes quanto estes. E ainda por cima toda esta bobajada me encheu o saco. Pensando assim resolvi pegar umas latinhas de cerveja e um pacote de amendoim para me sentar naquela minha poltrona deprimente e assistir um programa qualquer na televisão. Talvez esta ação pudesse fazer com que eu esquecesse das dores que adquiri durante aquelas tentativas de vôo pra lá de estúpidas.
A capa do livro trazia a imagem de alguém voando pelos lugares plenamente como se fosse tudo muito fácil. Porém começo a suspeitar quanto a veridicidade do fato.
Mario Bourges 20:52 [+]
Segunda-feira, Junho 26, 2006
O que tenho para contar desta semana passada me ocorreu na terça ou quarta-feira, não sei ao certo quando isto aconteceu, mas foi o seguinte: estava eu sonhando com um bando de anjos, ou anjas, sei lá, bom; eram todas ninfetas e russas... Bizarro? Você não viu nada. Elas, as anjas, ou anjos, trajavam umas togas, ou sei lá o que eram aquelas coisas, de cores muito claras, e feitas de um tecido bem leve e brilhante que se esvoaçavam lindamente quando eu soltava meus peidos estupendos.
Estava tudo maravilhoso, elas cantavam para mim canções em latim, grego, esperanto e, obviamente, em russo. Tudo com o acompanhamento de uma dúzia de balalaicas para dar a base, umas trombetas enormes que chegavam a arrepiar os pêlos das orelhas quando tocadas, duas cítaras fazendo arpejos majestosos, e para completar esta balbúrdia sonora tinha uma dessas anjas, ou anjos, tocando uma viola (a viola citada aqui é a erudita, e não a caipira) efusivamente enquanto girava no mesmo lugar. Com isto a saiazinha dela se erguia toda e deixava suas partes à mostra.
Não bastasse isso, ainda tinha coreografia durante as apresentações. Duas ou três integrantes deste bando de anjos dançavam diferentes estilos, sempre acompanhando a música que era executada. Parecia até programa de auditório. Bom; o primeiro deles, se não me falhe a memória, foi um daqueles usado nas festas do nordeste brasileiro, o segundo ritmo dançado era aquele bonito, porém chato, da dança barroca, um outro estilo era a dança dos cossacos, mas penso que talvez não fosse bem isso. No entanto, a polca tocada e acompanhada pela dança não parecia ser coisa de russo, ou dos povos daquela região. Parecia coisa de irlandês, ou algo semelhante. Sei lá.
Para encurtar um pouco a história, mesmo por que nem lembro direito o que aconteceu, o clímax do sonho se deu quando surgiu, não sei de onde, quatro marmanjos vestidos com uma roupa muito estranha e se posicionaram em diferentes lugares, onde dois deles ficaram no alto de uma escadaria, um de frente para o outro, ambos com duas tochas acesas nas mãos, e os braços abertos como se estivessem imitando o formato de uma cruz, ou pelo menos alguma coisa que lembrasse isto. E então, depois que ficaram se ensebando com aquelas coisas acesas nas mãos, cena esta que lembrou de uma dupla de assistentes de um mágico qualquer nas tradicionais firulas, os outros dois integrantes que haviam sumidos apareceram novamente dançando lambada enquanto seguravam uma tigela de vidro cheia de tomates bem vermelhos. Pra que isto? Eu é que sei? Sonho é sonho oras. Ninguém sabe explicar estas bobagens.
E daí, depois que eu havia sentado em uma pedra verde, que se mexia de vez em vez, a explicação dos tomates veio diante de meus olhos estupefatos com tantos disparates ocorridos em pouquíssimo tempo. Mas veja; penso até que seria perfeito ficar apenas com as moças tocando e dançando suas músicas insossas, mas como não podemos interferir nos sonhos, e às vezes nem acordar, apenas acompanhei os acontecimentos que se desenrolavam absurdamente. Então, voltando ao sonho; aqueles dois que dançavam lambada ficaram segurando a tigela de modo que continuassem um de frente para o outro, até que os outros dois com as tochas vieram serpenteando e arrastando um dos pés apenas até chegarem perto dos que estavam com o artefato de vidro cheio de tomates. E quando eu pensava que aquela ensebação nunca mais fosse terminar, os que estavam com as tochas tocaram fogo na tigela com os tais tomates.
Aí foi um deus nos acuda. A porra toda pegou fogo e voou tomate assado para todos os lados do céu, ou do inferno. Sei lá. Continuando; Os nego gritando sem parar corriam por mim atrás de alguma coisa que ninguém sabia o que era. As ninfetas gostosinhas corriam de um lado para outro a procura de água para apagar o fogo de suas roupinhas brilhantes e delas mesmas. Mas aí o fogo delas era outro, nada tinha haver com esta bagunça toda. Bom; sei dizer que foi uma confusão dos diabos. Foi aí que acordei gritando, assustado, suado, melado e enrolado no lençol enquanto o pessoal de casa também corria de um lado para outro no apartamento para ver onde é que uma velha, que estava de bobeira na calçada lá embaixo e foi apanhada pelo temporal repentino, ia parar depois que o tufão doido que estava soprando ficasse mais fraco.
Contudo, a natureza foi generosa desta vez, pois a ventania não parou. Fato este que nos proporcionou grande alegria. Foi até bonito de ver. A velha rodopiava no ar feito pião, por causa dos fortes ventos que encanavam pelas ruas alagadas. Mas ela estava agarrada firme a sua bengala que, por sua vez procurava algo para se agarrar também. Mas, a única coisa que a bengala pegou foi em um dos cabos de alta-tensão da rua. Depois disto foi tiro para todo o lado. Foi um verdadeiro show pirotécnico. Parecia até uma panela de pipoca estourando. Falando em pipoca... Contando toda esta história absurda para vocês me abriu o apetite. Então vou atrás do que comer. Até mais.
Aqui estão as anjas, ou anjos, não sei como diz para essas coisinhas. Só sei que estavam se requebrando desta maneira no meu sonho.
A velha da qual falei não foi mais localizada. Talvez pelo vestido que usava, coisa que mais parecia um balão dessas festas de São João, São Pedro e por aí vai. Ela estava tão alto que nem a força aérea conseguiu capturá-la. Contudo, para vocês terem uma idéia de como foi a ventania, aqui está uma pequena amostra.
Mario Bourges 19:17 [+]
Terça-feira, Junho 20, 2006
Dia desses estava eu tranqüilo, sem vontade de fazer nada, apenas ficar sentado na minha desoladora poltrona enquanto via uma aranha tecer sua teia que ligava meu nariz ao dedão do pé. Horas se passaram e eu ali, firme na minha decisão de fazer nada. Afinal de contas, por que deveria eu fazer alguma coisa se podia simplesmente ver aquele ínfimo animalzinho de oito pernas me enrolar todo e transformar-me em sua casa. De repente o telefone tocou, mas eu, como sempre, nem liguei para este estúpido aparelho. Coisa que, aliás, sempre faço, ou melhor, não faço. Odeio ter de atender o raio do telefone. Porém, só para variar, ninguém veio atender a este aparelho gritador. Então, com certa dificuldade pude me desvencilhar das teias que já cobriam minha cabeça para saber quem era ao telefone.
-- Alô? De onde falam? Perguntou assim um paspalho qualquer.
-- Para quem você ligou, com quem quer falar, e por que quer falar? Arremessei-lhe esta batelada de perguntas assim, mas com educação, apesar de quase nem poder falar direito, pois minha boca estava quase que completamente fechada com a maldita teia da aranha.
-- Ã... Eu liguei para a residência do senhor Baltazar Ferro e gostaria de falar com ele se possível. Disse-me desta maneira, apesar de falar tais palavras com sofreguidão. Creio que o nervosismo do sujeito impedia que falasse como gente. Parecia até o motor de um carro pifando.
-- Olha. Disse-lhe assim então: -- Você deu azar, o senhor Baltazar não se encontra neste momento. E pelo que sei não voltará tão cedo, ele foi convidado a participar de um jantar muito importante. Olha. Continuei: Pelo que fiquei sabendo só voltará na semana que vem, pois depois do tal jantar ele irá até um desfile de moda onde, por convite também, entrará na passarela acompanhado de duas beldades. E depois, pelo que pude saber, fará um passeio no barco do Primeiro Ministro britânico. E aí, quem sabe, voltará para sua residência após ser agraciado com alguma outra inútil comenda. No entanto, isto não é tudo; depois ele voltará tão metido, mas tão metido que não irá dar atenção a reles pessoas. Pessoas estas como, por exemplo: você. Agora, se ainda assim quiser deixar um recado eu... Puxa vida, heim! Você é um sujeito de muito azar. Não estou encontrando o bloco de papel nem a caneta para anotar a bobagem que você quer dizer-lhe. Sendo assim sugiro a você que ligue daqui umas semanas, ou daqui uns meses, ou ainda, daqui uns anos. Sapequei tais palavras sem o menor remorso. E ainda assim fui gentil com ele. Na verdade eu queria mesmo era ficar quieto e prestar atenção no trabalho da aranha. Mas como a oportunidade surgiu... Como quê oportunidade? Oportunidade é oportunidade. Não se pode perder. Continuando; ã... Bom, eu aproveitei. Não deixei de dizer umas verdades ao camarada. Mesmo por que ele tinha me tirado a concentração. E não gosto quando me tiram a concentração.
Contudo, vejam só vocês, meu corpo permanecia imóvel. Eu, por descuido, acabei todo enrolado na teia deste bicho idiota. Vai ver a tal aranha pensou que eu poderia ser um ótimo lugar para construir sua moradia. E ainda, dois locais para pegar alimentos já preparados para quando ela estivesse com preguiça de caçar aquelas moscas imbecis. Você quer saber que locais seriam estes? Oras, o nariz e o ouvido. Aliás, neste último ela até já fez umas incursões. E numa dessas incursões ela saiu carregando uma bolinha de cerume em suas costas. Mas antes de sair com o produto ela conversou com não sei quem lá dentro do meu ouvido. A minha sorte que logo a Olga voltou para casa. E quando ela retornou me viu passando por alguma dificuldade de sair daquela situação. O que ela fez? Ela simplesmente pegou a vassoura e me varreu. Já a aranha não gostou da desapropriação. Vi quando o bicho começou a xingar minha senhora, pelo que pude ouvir. Mas isso também não durou muito tempo, pois na próxima vassourada que levei na cara este animalzinho sumiu, e nunca mais a vi. Mas tudo bem.
Meus ouvidos podem ser ótimos lugares para aranhas, pulgas ou percevejos, em termos de refeições, ou em termos de morada também.
Mario Bourges 00:39 [+]
Terça-feira, Junho 13, 2006
Nesta semana resolvi fazer umas coisas diferentes para ajudar a passar meu temo. Como a copa do mundo ia começar na sexta-feira, um pouco de exercício físico seria uma boa idéia. Assim poderia gastar meu tempo mais facilmente, e ainda, ficar em forma... De que ainda não havia decidido. Bom, deixa pra lá. Continuando; no primeiro dia de minha empresa acordei muito cedo, tipo nove horas, por exemplo. Fiz meu desjejum, dei uma areada nos dentes, um tombo nos pouquíssimos cabelos que me restaram e parti para longas caminhadas... Pela sala, cozinha, quartos e banheiros. Logicamente que tal atividade física deveria ser feito com moderação. Então, de quando em quando eu parava de caminhar feito barata tonta para tomar uma lata de cerveja.
Contudo, esta história de andar de um lado para outro me cansou a beleza. Decidi, sem pensar duas vezes, que no dia seguinte não faria mais esta bobagem. E enquanto pensava o que fazer no dia seguinte, já sentado na cama e enrolado nos cobertores, a Olga, armada de um sorriso desigual e maroto trouxe-me duas paçocas de amendoim de presente. Estranhei, pois normalmente, digo, quando acontece de me trazer alguma coisa ela sim0lresmente arremessa, seja o que for, para mim. De qualquer maneira aprovei a medida. Mesmo que desconfiando de sua atitude. Porém, não fiquei pensando por muito tempo. Estava cansado de tanto caminhar pela casa. Ô atividade mais sem graça esta que arranjei para fazer. Mas tudo bem.
Na manhã seguinte acordei todo poderoso, e pelas quatro paredes do quarto ribombou num ricocheteio só o pequenino peido que soltei. Mas até aí sem problemas. E assim que consegui livrar meus olhos daquele mar de remelas juntei minhas forças para me levantar e ir até o banheiro. Quinze minutos após me decidir por acordar eu consegui chegar ao tal banheiro. Se estava longe? Qual nada. É que, como havia caminhado muito minhas pernas ficaram doloridas e pesadas. Por este motivo me demorei um pouquinho para sair da cama e me deslocar, por meio dos chinelos que se arrastavam descoordenadamente, até o cômodo desejado. Fiz minha toalete e prossegui com minhas atividades. Porém, moderadamente. Que foi que fiz? O trivial, claro. Sentei-me em frente ao televisor, mas não liguei o aparelho. Preferi o silêncio. Apenas tomei umas latas de cerveja enquanto deixei meus pés apoiados nas costas do cachorro. Como ele também estava cansado fizemos um pacto; ele deixava eu apoiar minhas pernas nele e eu deixava ele ficar perto de mim. E assim passamos mais um dia.
Mais uma dessas intermináveis manhãs se passou, e eu, quanto às dores, me sentia melhor. Já com as pálpebras não podia dizer o mesmo, pois eu ainda sentia dificuldades para abri-las. Meus olhos faziam um esforço incrível para enxergar através de toda aquela remela encrustrada. No entanto, uma boa lavada facial na pia do banheiro bastou para que tudo voltasse ao normal. Está certo que depois de tanto esfregar a cara com esponja e sabão ela tenha desbotado um pouco, mas depois que comi mais duas paçocas a coisa voltou ao normal. Aliás, não estava entendendo o por que dessas paçocas. Contudo, não iria perguntar o motivo. Às vezes perguntar ofende.
Ó, o negócio é o seguinte: chegou o momento da copa do mundo, porém, não consegui ver a abertura dela, nem os dois primeiros dias de jogos. Fiquei sabendo, mais tarde logicamente, que o dia dos namorados seria na segunda-feira, que por sinal foi o dia em que a Olga me agarrou. Dia este que que aliás quase morri de tanto brincar com ela. Onde? Oras, por cima da cama, do sofá, das mesas da sala e da cozinha, em cima do computador e da geladeira também. Resumindo; um dia selvagem e memorável... Para o gato e para o cachorro que nunca viram tamanha movimentação pela casa.
Um momento de romance é sempre bem-vindo.
Mario Bourges 20:08 [+]
Terça-feira, Junho 06, 2006
De tempos em tempos acabo me deparando com coisas divertidas de se fazer. A prova dista aconteceu esta semana quando, em um dia qualquer, eu até já pensava em me enfurnar em casa, pois havia imaginado que a semana seria nula e enfadonha, surgiu o convite, e o tal convite era para assistir a uma apresentação de um grupo do qual já tive a oportunidade de ver, o Loaded. E ainda por cima, vejam só vocês, era a apresentação de lançamento do primeiro disco. Fato este que deu mais tempero neste molho.
Deixe-me então relatar como foi tudo desde o princípio. Estava eu semi-deitado na minha mofada poltrona, sendo que eu, também, já começava adquirir a forma de mofo, quando recebi a visita do Pereirinha, do Azambuja e do Adalberto. Como fazia algum tempo que não via nenhum dos meus amigos fiquei ansioso em recebê-los em minha adorável morada, mesmo que fedendo à urina de gato e cachorro. Além, é claro, dos pernilongos que resolveram transformar os vasos dessas horríveis plantas, que a Olga possui, em maternidade.
Bom, o Pereirinha como é despachado entrou todo cheio de habilidades em casa. Assim que abri a porta ele deu pulo e se agarrou no lustre do corredor do andar e, como uma manobra de tirar o fôlego ele se jogou com um salto em parafuso até adentrar meu apartamento onde aterrissou na cristaleira. E para finalizar a obra, coisa que certamente deixaria até os trapezistas do Cirque Du Soleil se mordendo de inveja, ele deu um mortal quádruplo que voou por toda a sala até se assentar em uma das cadeiras da cozinha.
Como fiquei babando com tanta destreza nem falei nada para os outros que ainda estavam do lado de fora. Apenas os fiz entrar para que eu pudesse fechar a porta. Porém, estranhei quando vi o Azambuja com as mãos amarradas. Pensei até em perguntar, mas ainda me faltava ar nos pulmões de tão extasiado que me encontrava. Contudo, com o passar do tempo, percebi o real motivo de velho general ficar com as mãos atadas. E a razão para isto consistia em controlar suas manias de deslocar de um lado para outro os objetos (qualquer tipo de objeto) que se encontram espalhados pela casa (qualquer casa). E veja: assim mesmo eram notadamente perceptíveis os movimentos contorsivos e doentios que seus dedos faziam em busca de alguma coisa para deslocar.
Agora; o mais normal dos três nesta visita foi o Adalberto... Se é que posso chamar o Adalberto de normal. Ele quase não fala com ninguém só para grudar seu ouvido no rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que tem. Objeto este que povoa meus sonhos de quando em quando pelo fato de fazer parte de minha predileção. E creio que isto não é nenhuma novidade. Assim sendo, continuemos então com a narrativa. O chato dessas histórias que conto são as viagens que faço na hora de contar os ocorridos, mas procurarei encurtar este episódio. O Adalberto, mesmo com suas estranhesas, foi o único que informou sobre o show de lançamento do disco deste grupo chamado Loaded. Então, dados os cumprimentos de praxe entre amigos, ainda que certa dificuldade de cumprimentar o Azambuja por ele estar com as mãos amarradas, partimos todos, e rapidinho para o local da apresentação.
Lá estando, pudemos todos nos divertir. Os rocks e as baladas que tocaram com vitalidade serviram para libertar o jovem existente em mim. Agitei-me todo. Diverti-me muito, pelo menos até o momento que pisei em uma garrafa de cerveja vazia e fui ao chão. E neste inocente tombinho eu quebrei a cara, a garrafa na qual pisei, mais umas que estavam em cima de algumas mesas enquanto procurava me agarrar e evitar o tombo. Mesmo assim tal acontecimento não impediu que minha festa continuasse, porém, com menor intensidade. E depois, bem depois, fui levado ao pronto socorro para que meu rosto fosse remendado. Mas isto também já é assunto para, quem sabe, uma outra história.
Esta é a moçada do Loaded fazendo o lançamento de seu disco.
Mario Bourges 19:53 [+]
Segunda-feira, Maio 29, 2006
Dia desses, passeando pelas ruas da cidade resolvi, depois de muito tempo caminhando igual à uma barata tonta, me sentar num dos bancos da Praça Santos Andrade para ver os pombos dar suas rasantes e, se tivesse sorte, ver alguém, que não eu, receber a carga na cabeça de uma dessas aves porcas e estúpidas. Porém, depois de um tempo gelando os pés com o vento encanado um sujeito chegou perto de mim e pediu uns trocados. Logicamente que nem dei bola para ele. Eu queria mesmo era ver um desses transeuntes sair com a roupa cagada por esses bichos. De repente:
-- Ô, seu doutô! Qué qui eu dê uma engraxada nos sapato? Perguntou assim o camarada para mim. E eu, que estou sempre disposto a ajudar ao próximo com ofertas de trabalho ou uma palavra amiga disse:
-- Se quiser pode engraxar... Mas tem que dar brilho também. No entanto, meu caro ignóbil ser, não tenho trocados, e não estou disposto a trocar meu dinheiro graúdo só para pagar essa mixaria de valor que irá me cobrar quando este servicinho de terceira ficar pronto. Disse-lhe assim, muito gentilmente.
Ele, parecendo-me um estouvado de primeira, me olhou com aqueles olhos fundos que se assemelhavam com duas ameixas secas e, sem entender o remoque, pôs-se a executar a tarefa da qual ele é condicionado a fazer. Lá pelas tantas, quando nós já estávamos nos interagindo, à nossa maneira, onde ele se esforçava para puxar assunto e eu nem aí para suas tolices, o tal engraxate, sempre curioso, aliás, curiosidade esta que deve fazer parte da genética destes profissionais. Ã... Continuando; então ele perguntou:
-- Ô, doutô; que sujeirada é esta aqui nos sapato? Lama ou comida? Perguntou desta maneira o cidadão com a pulga atrás da orelha.
-- Meu caro jovem engraxate enfarador e bisbilhoteiro, esta sujeira nada mais é que uma maravilhosa golfada. Expliquei-lhe com toda a paciência do mundo, e ainda, escolhi com cuidado todas as palavras para que o ignaro pudesse, dentro de sua capacidade, compreender facilmente o que eu quis dizer. Porém...
-- É... Tão, tá. Só que este negócio tá difícil de saí, e acho que teus sapato não tem mais recurso, tão estragado. Olha; o senhor tá dizendo que isto é uma tal de goulfada, não entendo muita das coisa, mas acho que é vomitado mesmo. De qualquer jeito, tudo bem, eu limpo. Disse-me assim este exemplar de pessoa que tem todos os quesitos para compor a humanidade no futuro.
-- Então está bem, faça o que tem de fazer e não me aborreça com esses comentários vis. Ouvindo isto ele sorriu e se apressou para concluir seu afazer o quanto antes, pois alguns outros senhores o aguardavam para que os sapatos fossem limpados das sujeiras dos pombos.
E depois que terminou este servicinho chinfrim acabei por me comover, dei-lhe os parabéns por ter deixado limpos os meus sapatos sem sujar as meias, e ainda, dei umas balas para adoçar-se, e completando a lista de presentes, ou premiações, cedi-lhe uma moeda de cinqüenta centavos, pois nem só de doces vive um homem.
Mario Bourges 20:32 [+]
Sexta-feira, Maio 19, 2006
Acabrunhado vi o Adalberto num desses dias passados. Estava ele sentado sobre seu magnífico rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves enquanto vertia de seus olhos chochos umas lágrimas baças. Em companhia a esta figura tão lúgubre estava o Azambuja e suas esquisitices que lhe são peculiares, que vez por outra arrastava umas pequenas pedras de um lado para outro, ou ainda, e o que me atacou os nervos assim que vi, mexendo com as madeixas do velho moribundo de um lado para outro. Como se fossem areias de uma praia donde o mar estivesse de ressaca.
Contudo não me atrevi interferindo nesta brejeirice. Poderia perder a magia, às avessas, de tal situação, coisa que os espectadores acompanhavam escarrapachados nos bancos da praça. Se bem que, toda esta situação foi de uma bizarrice só. Meus dois amigos meio que se estranhando por causas que desconheço, e um bando de velhos sentados com as pernas abertas nos bancos da praça, para secar suas micoses talvez, a observar outros velhos discutindo coisas que ninguém sabia o motivo.
Quanto a mim, como disse há pouco, não me intrometi. Enfiei minhas mãos nas algibeiras das calças e sibilei canções desconcertantes, destas que ninguém entende. E se ninguém entende, ninguém gosta. Então aos trôpegos continuei flanando pelas calçadas esburacadas até que, em um certo momento, eu desisti de ver pessoas feias passando por minha pessoa. Tal coisa estava realmente cansando minha beleza. E com um gesto cheio de classe acenei para o ônibus... Sendo que este só não passou por cima de mim por que eu estava na calçada. Mas tudo bem, esta ação não foi o bastante para me tornar colérico.
Contudo, depois de tantas outras vezes acontecendo as mesmas coisas, perdi as estribeiras, e na primeira oportunidade lasquei uma sapatada no pára-brisa do lotação. Sendo que depois disso o motorista parou seu meio de ganha-pão para proferir palavras de baixo calão. Mas eu não me indignei a trocar baixezas com este ignóbil ser que se auto proclamava profissional do trânsito, ou qualquer coisa parecida. Simplesmente rumei para o fundo do ônibus em busca de um lugar para me assentar sem que eu desse a mínima para o sujeito. Porém, enquanto procurava lugar para mim percebi algo de diferente. Olhei para o teto da condução e me deparei com o Pereirinha grudado lá em cima, todo faceiro. Então, pensei: este não passa por aperto. Conversamos um pouco, depois nos despedimos.
E lá fui eu para casa, me sentar na minha horrorosa poltrona, depois ingerir alimentos com poucos nutrientes, ou seja porcarias, e beber coisas que não costumam fazer bem à saúde, ou seja, álcool. Quanto aos outros dois que deixei na praça quase em pé de guerra... Oras, se bem os conheço, há qualquer momento eles poderiam se entender novamente. Além do quê, não costumo me envolver em assuntos dos quais não fui convidado para discuti-los. Ainda mais quando tais assuntos terminam sempre com o mesmo final, ou seja, com nada a acrescentar para nenhum dos interlocutores.
Mario Bourges 19:51 [+]
Segunda-feira, Maio 15, 2006
Esta semana que passou foi diferente. Aconteceram algumas coisas para temperar meus dias insossos. Veja: além de ficar mais frio, coisa que gosto bastante, fui convidado para duas festas de aniversário, uma de adulto, e outra de uma criancinha. A do adulto foi boa, mas foi normal. A da criança foi bem diferente... Divertida, apesar de complicada. Digo complicada por que foi mesmo, e creio que nem precisarei explicar o ocorrido, pois os fatos falam por si só.
A festa da criança dói feita na casa do Azambuja. E lá foi feita porque meu amigo é o avô da aniversariante. Bom; como eu tinha chegado cedo a casa dele procurei um bom lugar para ficar escorado. Talvez imaginando uma possível embriaguez. E também para Evitar que algum engraçadinho pensasse o mesmo que eu e escolhesse meu lugar antes de mim... ?! É, parece que é isso mesmo.
Continuando; definido o lugar, era só esperar a animação começar. Claro que a distribuição das bebidas fazia parte do quadro de animações. Então as surpresas foram acontecendo. E a primeira delas foi a montagem de uma cama elástica na garagem da casa, além das tochas circundando o equipamento, sendo que este estava lá por alguma razão, a de incrementar as emoções dos saltos no caso de alguém se arriscar a desempenhar tal atividade que pouco me diz respeito, por exemplo. Pelo menos foi assim que pensei sobre aquilo tudo.
As horas foram passando e alguém, que não eu, atendeu ao telefone que não parava de tocar naquele momento. Era, segundo a desesperada da mulher toda manchada de verde pelo creme de abacate o sujeito que viria até a casa para encher as bexigas, os pneus das bicicletas e, consecutivamente, encher nossos sacos com o já manjado para de que a situação está ruim por causa do governo, ou por causa da guerra no Iraque, ou por causa do Papa, ou por causa de qualquer outra causa.
Veja: como o Azambuja já está com o saco rendido, e o jardineiro que lá estava fazendo porra nenhuma não tem mais saco, por ter perdido em uma manobra radical com o aparador de grama, a tarefa de encher as bexigas sobrou para mim. Eu até concordei, desde que não precisasse encher os pneus das bicicletas. E claro, teria que ter só para mim uma garrafa de whisky. No começo o velho general torceu o beiço, mas depois concordou com a condição, digo, com as condições impostas.
Então, de posse da garrafa, comecei a encher aquelas porcarias. O fôlego ia bem, apesar das tosses intermináveis. O problema consistia no tato do ar que eu soprava, ele simplesmente estava sendo dividido. Deixe-me explicar melhor; enquanto soprava aquela coisa (bexiga) meus olhos se inchavam. E quando parava de soprar meus olhos murchavam, além das bochechas, claro. Mas tudo bem, ao final deu tudo certo.
Quando os demais convidados começaram a chegar consegui ouvir alguns comentários sobre minha aparência. No início não dei muita atenção, mas depois fiquei curioso para saber o que tinha acontecido comigo. Dirigi-me ao sanitário para verificar as irregularidades, caso houvesse algumas. Pasmo fiquei ao olhar-me no espelho. Meus olhos... Bom, meus olhos pareciam dois ovos moles que teimavam em fugir da órbita ocular, e as bochechas estavam escorregando de minha face. Logicamente que tinha mais coisa; minhas calças apresentavam uma freada nos fundilhos, mas tudo bem. Nada que um pouco de mais bebida para estes erros sumirem.
Lá pelas tantas, quando todos estavam festando, gritando, urrando, gemendo e bebendo sem parar, incluindo ai as criancinhas que lá estavam, resolveram, como medida emergencial de felicidade, saltar, todos, para dentro da tal cama elástica. Logicamente que o equipamento esmoreceu perante tamanha fanfarronice descabida. Todos; eu disse todos descambaram para um lado logo após o primeiro salto. E numa decolada fantástica o pessoal, visivelmente tomado pela ação do álcool, rolou na grama por aproximadamente trinta minutos sem parar. E também só pararam porque um dos indivíduos encontrou o saco perdido do jardineiro. Bom, daí o resto foi história para boi dormir, quero dizer, para bêbado dormir. Os únicos quase sóbrios no local eram as criancinhas, que não paravam de chutar as bundas dos pseudomortos que lá estavam.
Mario Bourges 18:15 [+]
Terça-feira, Maio 09, 2006
O frio começou por aqui. Muito bem, até aí sem problemas, e também não tem muito haver com o que tenho para contar, mas... Quando chega a época de frio me dá vontade de comer algo diferente. Coisa que não tenho certeza que chegue acontecer de fato; comer coisas diferentes, pois a Olga não anda com muita vontade de fazer nada para o pessoal comer, e as crianças ou não sabem fazer nada ou não querem simplesmente. De qualquer maneira é até bom que eles não façam nada, por que costumam bagunçar demais na cozinha com perda excessiva de mantimentos e coisas do gênero... O que tem eu? Nada oras. Quando estou decidido fazer algo para o povo daqui de casa comer eu faço coisa de primeira. Há quem diga o contrário, sei disso, mas é tudo intriga de gente que não tem nada para fazer.
Então, percebendo que ninguém quis inventar nada de diferente para comermos, digo, para eu comer. Porque com os outros não me incomodo. Agora vocês devem estar pensando que sou um sujeito malvado ou qualquer coisa assim. Mas não sou. Disse isso porque sei de uma coisa que ninguém sabe: assim que o bolo, ou a torta, doce ou salgada, ou o pudim, ou o sanduíche, ou o prato que for feito, em pouquíssimo tempo será exterminado, com ou sem autorização, pelos integrantes de minha família terrivelmente esfomeada. E tal situação se agrava quando o neto, ou sua irmã, ou ainda a sobrinha resolvem trazer seus amigos, ou amigas para tomar café em casa. Em fração de segundos, aquilo que há de mais gostoso sobre a mesa vira lembranças de um passado farelento sobre... A própria mesa.
Agora, deixe-me continuar antes que desista de contar histórias. Bom, a programação da TV estava um purgante, só para variar, e eu queria comer coisas boas. Até aí também nada demais, porque isso sempre acontece em minha vida. Tudo bem; então passemos adiante. Decidido que comeria coisas boas parti para a cozinha a fim de preparar minha especialidade... Que não sei qual é. Tive de procurar por toda a casa onde é que estava o caderno de receitas da Olga. E se por um acaso não o encontrasse teria de anotar qualquer receita dessas que dão através dos programas de televisão. Só para cumprir meu comprometimento comigo mesmo.
Sorte que encontrei uma receita qualquer numa gaveta qualquer de um armário qualquer da cozinha. Coisa que, aliás, é um dos poucos móveis da casa que não tem marca do gato ou do cachorro. Mas quem é quer precisa saber disto também, oras. Veja; farinha de trigo, açúcar, frutas, chocolate, sal, óleo de soja, ovos, fermento, condimentos... Bom, estava escrito lá. Contudo, alguma coisa estava faltando para eu poder fazer o quitute; música. Sem música não consigo fazer com que as coisas fiquem bem. Há quem diga que até com música eu faço as coisas parecerem estranhas e estragadas. Mas continuo afirmando que isso é coisa de gente que não tem o que fazer. Então ficam inventando estórias sobre minha pessoa. Posso até dizer que isso é inveja.
O rádio do Adalberto, mas que agora fica comigo por mais tempo que o comum, estava tocando numa rádio inglesa um especial do grupo chamado Kaizers Orchestra. Muito divertido, muito estranho, muito bacana. Porém, eu já tinha me esquecido de algumas coisas cozinhando, que não sabia o que era, na panela de pressão enquanto fazia meus comentários, para mim mesmo, sobre este conjunto. Veja; a lista de irregularidades seria longa caso a Olga não interferisse logo, pois desde o começo desta minha empresa estava tudo errado, só não sabia o que era. E pelo jeito jamais saberia que coisas eram essas que compunham a receita que me prontifiquei usar. De qualquer forma tive de me acalmar quanto à vontade de comer coisas diferentes. Admito que não estava inspirado para fazer a comida, e sim para comê-la simplesmente. Bom, o resto das músicas do tal conjunto não pude mais ouvir, pois eram constantemente interrompidas pela Olga com seus tradicionais ataques de cólera. Ah, essas mulheres.
Por sorte... da cozinha, que a Olga chegou em tempo de salvá-la de minhas garras. Após estragar algumas outras panelas com meus inventos, incluindo aí umas duas ou três panelas de pressão, esta era um outro tipo de panela que estava na minha lista de inutilizações.
Mario Bourges 23:09 [+]
Domingo, Abril 30, 2006
ANNO III
Estava eu, sentado em um detestável assento de ônibus enquanto desabrochava em mim uma sensação de ira por, vejam só vocês, ter de dividir minha individualidade, ainda que exígua, com um velho pançudo e jeito de rabugento que sibilava, descoordenamente, por entre seus fétidos e apodrecidos dentes, uma sinfonia ligeira, digna de quem não entende nada de música. Por sorte, tanto minha quanto dele, que desci logo do lotação, pois aquilo estava me amolecendo os ossos do corpo, de tanto que me perturbou aquele passa-tempo estúpido. Além de fazer, claro, minha cabeça latejar de dor.
Então, após minha fuga prematura do ônibus, por causa daquele ser horrendo que estava me incomodando, fui até o bar do Odil. Afinal de contas eu fui convidado para a festa que lá haveria. No entanto tive que andar umas quadras além do normal para alcançar meu objetivo, mas tudo bem, festa lá sempre ter um ar de... Um ar de... De coisa boa. E, visto que se tratava de uma festa, saberia que meus amigos estariam por lá sem dúvida. Eles também têm o hábito de participar das festas que lá acontecem. Sabe, é até bom que estejam por lá, pois assim eles podem me controlar na quantidade de bebida, pensei. Mas também se não me controlarem, que é o mais provável que aconteça, será melhor ainda. Continuei pensando enquanto salivava, de sede, e caminhava e tropeçava nas tortuosas calçadas que levam até o bar.
Lá chegando tratei de cumprimentar a todos e pegar meu copo de chope para começar os trabalhos técnicos. Porém, depois de tanto me estressar com aquele amaldiçoado baixei minha cabeça e acabei tirando um cochilo em cima de uma das mesas do boteco. E durante os festejos da inauguração de um tal Puxadinho, que na verdade é uma ampliação do bar, teve todo o tipo de grito que merece uma comemoração deste nível, e eu, como estava pra lá de cansado, encarnei num sono profundo, e com direito a um sonho maluco e tudo mais.
Algumas pessoas, que estavam sob a hipnose da boa música, e sob os efeitos entorpecentes do álcool, se esgoelavam e rolavam pelo chão, por cima dos móveis espalhados pelo local e por cima das cabeças daqueles que dormiam. E como eu era o único que praticava esta atividade sonífera, eles rolavam por cima de mim. Mas tudo bem, nem sentia nada mesmo. Já outras pessoas, se contentavam em tamborilar seus dedos sobre o tampo do balcão enquanto gemiam qualquer coisa só para acompanhar o ritmo das músicas.
Enquanto isso, num mar de alucinações eu estava nadando.
-- Sir Baltazar! Estou cá, por estas paragens, em busca de auxílio, pois as crianças e mulheres de minha vila foram nos surrupiadas. Então, eu e meus capitães viemos em busca de vosso socorro. E, se não for pedir muito, tua força, bem como a força do teu exército serão bem recebidos em nossas modéstias moradas. Dizia-me assim o príncipe das terras do norte com um ar de desalento.
-- Ficai descansado, e não te preocupai, oh, nobre senhor das terras do norte. No que eu, e meus homens puder fazer em tua ajuda, faremos. Disse-lhe assim com minha voz de trovão do alto de minha encardida poltrona que exala cheiro de urina de gato e de cachorro. Bom, se bem que minha voz não é de trovão. Mas talvez seja pelo efeito do arroto que dei por causa do balde chope que havia tomado naquele momento, e que ainda estava ao meu lado.
E durante minhas heróicas aventuras pelas terras do norte o povo do boteco saracoteava e sapateava e sambava e sacolejava por todo o lugar. Inclusive sobre minha cabeça. Mas incrivelmente eu não sentia nada. Ainda bem. No entanto, fizeram de tudo para me acordar, pois além de comemorarem a inauguração do Puxadinho estavam comemorando o terceiro ano de existência do meu blog. Particularmente falando eu estava me sentindo um cara importante, um nobre, um sujeito que pode até auxiliar príncipes nas batalhas contra sei lá quem.
Porém, eu ainda estava no mundo da magia.
-- Sai de trás desta moita para lutar e morrer como homem. Bradei assim para alguma coisa que se mexia por detrás deste tufo de mato. De repente saiu, feito um... Trovão?! Um monte de tampinha de garrafa de cerveja em minha direção. E depois elas me agarraram e me derrubaram, depois roeram minhas orelhas e chutaram minha bunda. Mas não agüentei ficar ali à toa, olhando aquela barbárie sem reagir. Levantei-me, pois sim, depois passei um lenço na cabeça para lustrar minha careca e cuspi para cima, a fim de refrescar minhas vistas com a saliva. Tal ato fez com que as tampas se enojassem do que viram, e aí saíssem voando em direção ao abismo sem fundo. Depois, em outra ocasião, quando o príncipe das terras no norte veio até mim para agradecer, disse que o nome deste abismo é o "Ó do Borogodó".
Tudo bem, pensei comigo mesmo durante uma coçada na minha virilha direita. Mas também não quis discutir a etimologia deste nome tão burlesco. E depois de vários cutucões na orelha, na nuca, na barriga, na perna e em tantos outros lugares eu acordei. Esbaforido, por certo, e babado? Evidente que sim, mas preparado para começar a festa. A minha festa. Então, me aproveitando da companhia do Adalberto, do Pereirinha, do Azambuja e de qualquer outro que por lá estava, bebemos até não agüentar mais. Claro que nesta história eu agüentei mais porque dormi mais da metade da festa, mas não tem problema. A diversão foi boa assim mesmo. Contudo, quando pensei que a bagunça já estava no final, o velho Odil escalou o balcão, que estava forrado de alguns bêbados dormindo, mas que, por costume, ainda insistiam em tamborilar no tampo do móvel, mesmo sem música.
Bom, como estava dizendo; o Odil subiu no balcão e, saltando num pé só gritou: viva o Puxadinho do Distinto e os três anos do blog do Baltazar. Todos gritaram para o primeiro brinde, já para o segundo muitos dos que lá estavam nem sabiam o que queria dizer blog... Na verdade nem eu sei ao certo o que quer dizer isso, mas tudo bem. De qualquer forma foi muito divertido. Principalmente quando somos requisitados, ainda que em sonho, por príncipes que vêm das terras do norte... Quanta honra... Bem, talvez nem seja tanta honra assim, mas tudo bem. Valeu a intenção, da minha mente, pelo menos. Então vou encerrar por aqui mesmo, porque a volta creio que nem seja assim tão interessante, ou melhor, até pode ter sido, mas se um dia eu souber como foi que voltei certamente contarei isso a vocês.
Aqui é o pessoal festejando pelo tal Puxadinho. Animação total. Pessoas e bebidas... combinação que sempre dá certo, mesmo que de maneira errada.
O bar do Odil é democrático. Sempre tem mulher por lá, nem que seja para tomar de nossos chopes enquanto estamos distraídos com a baba que escorre do canto de nossas bocas sobre o balcão.
Sabe, eu bem que poderia usar uma armadura destas enquanto dormia na mesa do boteco, certamente me daria mais segurança durante aquele pisoteamento descontrolado que recebi dos bêbados alucinados que por lá requebravam seus corpos flácidos e enferrujados em busca de mais chope, ou de sanitário, ou ainda, em busca da saída do bar. Bom, mas talvez isso fosse apenas frescura minha, sei lá. Ah! Pensando bem desta maneira também foi bom. Ah! Tanto faz também.
Mario Bourges 23:56 [+]
Segunda-feira, Abril 24, 2006
Passada a Páscoa eu ainda estava enjoado de tanto comer chocolate, e ainda, com uma vontade fora do comum para fazer alguma coisa. A estagnação, através de confissões, disse que quer me deixar maluco. Sabe, a situação dentro de casa, sinceramente falando, começa a me deixar maluco, pois já estou falando com fechaduras das portas e janelas, e a contar piadas para os bichos aqui de casa. Nada demais ou coisa que eu considere realmente sinais de maluquice, mas se tais sintomas persistirem, possivelmente terei problemas num futuro próximo. Mas também não muito próximo.
Então, pensando desta maneira preparei a minha bagagem e convidei a todos de casa para irmos ao litoral. Este é o único lugar que lembro existir quando estou precisando de umas férias. Às vezes sentimos a necessidade de um lugar mais agradável para desanuviar nossas mentes. Agora voltando ao assunto; depois que convidei a todos logicamente tive de levá-los junto comigo. Mas isso não me incomoda porque sei que a Olga se aproveita deles por lá para ajudarem na louça e na limpeza da casa. Ainda bem que minha senhora é esperta. Ela sabe que se depender de mim para limpar uma casa certamente o imóvel perecerá sob meus cuidados, e ficará semelhante a uma cripta, ou qualquer coisa assim.
Contudo, levei todos para o litoral porque, creio eu, seria o melhor a se fazer no momento. Queria dar a eles um tempo para o lazer. Odeio olhar para as pessoas o dia inteiro na rua com aquelas caras de bunda, e depois ter de chegar em casa e ver minha família com as mesmas caras daqueles que me deparei durante uma tarde. Verdadeiramente falando isto é um saco. Porém, procuro contornar a situação com algo paliativo, ou seja, praia. Imagine só: sol... Queimando a pele... Deixando vermelho... O mar, bonito, com água gelada, com ondas poderosas que nos derrubam, água salgada entrando na boca... Hum... E a areia então; farelenta, pegajosa depois que saímos da água, entrando na boca, no olho... Ainda mais depois de uma ventania... Sei não, mas começo a pensar de maneira diferenciada quanto ao lugar de refúgio.
Pensei melhor. Desisti da praia. Fiz com que todos de casa desistissem da praia. Fiz a praia desistir de mim também. Como consegui esta façanha? Ah, sei lá. Falei qualquer bobagem para eles e acreditaram em mim. Mas não posso precisar o que foi dito a eles. No entanto, pelo que conheço de minha família, e da praia, eles (familiares) não estavam com tanta vontade de ir ao litoral, nem o litoral estava com vontade de me ver, porque senão fariam de tudo para me convencer de ir para lá, nem que fosse para molharmos os pés, ou salgar os sacos, ou qualquer coisa assim. De qualquer maneira aguardo, por esses dias, coisa melhor que certamente irá acontecer. Até a próxima.
Mario Bourges 19:24 [+]
Quinta-feira, Abril 20, 2006
A semana passou muito rápido, pelo menos para mim. Normalmente isso é difícil de acontecer quando não se tem nada a fazer. Mas não me incomodei com tal detalhe, pois queria de fato que os dias passassem como passaram porque esperava receber, na Páscoa, alguns ovos de chocolate. E ainda, se assim fosse possível, receber outras coisas de presente. No entanto, para receber tais coisas seria preciso esperar. Coisa que, aliás, sei fazer muito bem.
Bom, os dias iam passando de maneira anormal, ou seja, rápido demais. Assim mesmo decidi procurar uma ocupação que condissesse com minha classe. Então cisquei de um lado da casa, depois cisquei de outro, e ainda assim não encontrava nada para fazer. Foi aí que pensei: melhor desta maneira, pois não me cansarei inutilmente. Assim sendo, acabei me escorando na janela da sala, a fim de ter uma visão privilegiada dos humanos enfadonhos que circulam por este planeta.
Lá pelas tantas, quando eu começava ficar com a mesma cara de enfado dessa gente, iniciei uma atividade de grande perícia, mas, de pouca sofisticação... Melhor dizendo; não tinha nada de sofisticado nesta atividade. Como é que é? Você quer saber mesmo que atividade esta? Então está bem. Olha; como eu estava debruçado no peitoril da janela da sala tratei de cuspir o mais longe possível, ainda que modestamente. Como é cuspir com modéstia? Oras... Sei lá.
Agora veja só que coisa estranha me aconteceu: enquanto desempenhava minha atividade escusa com maestria senti a presença de alguém ao meu lado. Pensei de início que fosse o gato ou o cachorro, pelo aroma desagradável de merda exalando até minhas narinas. Mas como tenho meus sentidos apurados deduzi que tal aroma estava sendo produzido por uma pessoa. De repente...
-- E aí bicho! Disse-me assim o sujeito barbudo, cabeludo, com a camiseta levemente encardida, calças multicoloridas e um par de tênis surrados.
-- Ei, mas, quem é você? Perguntei desta maneira enquanto limpava meu queixo escorrido de babas.
-- Eu? Sou você amanhã! Disse-me assim, com ironia.
-- O quê? Perguntei assim, sem noção do que ele dizia.
-- Tudo bem, sei que esta expressão já está muito ultrapassada, pois é da década de 80, mas você sabe quem sou Eu. Nós já nos encontramos outras vezes... Ô Baltazar! Eu sou Deus... Seu chapa! Talvez você não tenha me reconhecido, por Eu estar com estas calças multicoloridas e boca-de-sino. É que estou querendo ficar na onda, mora? Capiche? Ah! Tem outra coisa; você está de pontaria... Não consegue acertar ninguém com esses cuspes de boneca. Vem cá; é assim que faz ó.
Enquanto isso eu me encontrava atônito, sem expressões, ações ou reações para conseguir entender aquilo tudo. Então, depois de Ele ter juntado muita saliva, misturada com a mucosa de seu nariz, atirou aquela nojeira lá para baixo. Tal feito acertou em cheio a cabeça de um sujeito todo bem vestido que passava na caçada.
-- Pô Deus! O sujeito caiu estatelado. Gritei eufórico.
-- Eu sei... Na verdade ele morreu. Sei que é uma maneira estranha de morrer, mas decidi que era a hora dele. E, se por um acaso quiser saber pó que fiz isso responderei que estava no barato de fazê-lo. Injustiça? Ora, qual nada, Eu é que decido este tipo de coisa. Afinal de contas vocês vivem dizendo: "se Deus quiser". Então Eu quis. Agora dá licença que tá na minha hora, vou nessa.
-- Mas, Você não vai acudir o homem? Não vai dar um jeito na situação? Perguntei pasmo durante minha agitação de mãos.
-- Eu? Fazer o quê? Já fiz. Agora esta parte fica com a família dele, ou para você se quiser. Disse-me assim antes de me dar as costas e ir embora.
Então eu, que não queria me envolver com nada que desse dor de cabeça ou qualquer tipo de preocupação me afastei da janela e sentei na minha poltrona. Depois disso abri outro ovo... Puxa! Até tinha me esquecido de contar, mas eu fiquei conversando com O Todo Poderoso por três dias sem parar. Que loucura não? Minha família? Se reclamou de alguma coisa? Só a Olga que perguntou sobre o cheiro de merda que tinha na casa, porque de resto ninguém ligou. Se bem que ninguém liga à mínima para as coisas que acontecem por aqui. Mas tudo bem. Melhor assim.
Sabe; depois que tudo isso aconteceu me senti assim, meio sem saber direito o que fazer, com cara de bobo e tudo mais.
Mario Bourges 17:40 [+]
|